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Editorial: Fiscal do GOV x Fiscal da Realidade: quando a propaganda encontra o buraco

Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri gosta de vestir o colete simbólico do “Fiscal do Gov”. Vai para obra, grava vídeo, aponta dedo para o asfalto, olha para a câmera e passa aquela sensação de que ele mesmo, se deixar, pega a pá, o cimento e termina a rodovia antes do almoço. Nas redes, a cena é sempre bonita: sorriso alinhado, capacete limpo e a legenda pronta dizendo que o governo está presente. O problema é que a realidade, essa danada, não tem filtro de Instagram.

Aí entra em campo o deputado Thiago de Joaldo, que resolveu criar sua própria versão da série: o Fiscal do Gov raiz, sem drone, sem trilha sonora épica e com um detalhe incômodo chamado buraco. Foi até o trecho da rodovia entre Poço Verde e Tobias Barreto e mostrou o que o povo já conhece de perto: um rompimento que já beira 60 dias, enquanto a paciência do cidadão já foi embora faz tempo. E aí a pergunta veio seca, como torneira de interior: se em Alagoas resolveram em cinco dias, por que aqui parece obra em modo contemplação?

Imagine o diálogo. Fábio diz: “Eu sou o Fiscal do Gov, estou acompanhando tudo.” Thiago responde: “Governador, eu também. A diferença é que eu mostro o que ainda não saiu do papel.” Fábio aponta a ordem de serviço. Tiago aponta o barro. Fábio mostra o projeto. Thiago mostra o pneu atolado. É quase um duelo de faroeste administrativo: de um lado, a postagem oficial; do outro, a lama sem edição.

E convenhamos, Thiago entendeu uma coisa que a política moderna exige: quem fiscaliza com humor incomoda mais. Porque o povo ri, compartilha e, no meio da gargalhada, percebe o recado. Quando ele ironiza o “Fiscal do Gov”, não está só brincando com o governador; está mostrando que fiscalização não é só vídeo bonito, é resultado entregue. E nisso ele acertou em cheio. A piada pegou porque o buraco já estava pronto.

O mais curioso é que o governo também sabe disso. Tanto sabe que o próprio Estado anunciou ordens de serviço para restauração de rodovias ligando regiões importantes como Tobias Barreto, com investimentos superiores a R$ 129 milhões. Ou seja: dinheiro anunciado existe, discurso existe, placa existe. O sergipano só está esperando o detalhe revolucionário chamado conclusão da obra. Porque ordem de serviço não passa carro, quem passa carro é estrada pronta.

No fim, o Fiscal do Gov oficial e o Fiscal do Gov da oposição talvez estejam olhando para o mesmo problema por ângulos diferentes. Um mostra que está fazendo. O outro mostra o que ainda falta fazer. Só que, para quem está desviando de buraco, pouco importa quem venceu o debate no Instagram. O povo quer saber quando a pista volta ao normal. Porque governar não é só fiscalizar a obra. É impedir que ela vire meme.

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