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Simão Dias pariu quatro governadores e hoje se discute picuinhas

Em Simão Dias, o calendário político foi oficialmente substituído por uma mistura de novela mexicana, programa de rádio AM e reunião de condomínio com som estourado. O ex-prefeito Marival Santana resolveu abrir a semana como quem abre um inquérito em praça pública: distribuindo verdades, indiretas e aquele velho aviso de guerra política com tempero familiar. Depois de ouvir Cristiano Viana, prefeito atual, tentando chamá-lo de mentiroso no rádio, Marival puxou a cadeira e disse, em resumo: “já que abriu a porta da família, agora aguente a visita”. E assim, o que começou com governador, Deso e ordem de serviço terminou no habitat natural da política brasileira: primo, cunhado, sobrinho e irmão secretário.

Marival não economizou munição e mandou logo a clássica frase que faz qualquer gestor engolir seco: “se entrar na minha família, eu entro na sua”. Pronto. O debate administrativo virou um churrasco de domingo com microfone liberado e cerveja quente. Teve irmão secretário, esposa lotada em secretaria, filho em Câmara, gabinete de deputado, patrimônio da família e até aquela pergunta que político escuta e já começa a procurar o advogado no WhatsApp: “você pode explicar como adquiriu seu patrimônio?”. Quando essa frase aparece, meu amigo, não é mais entrevista, é abertura informal de CPI com trilha sonora de calcinha preta tocando ao fundo.

Lá no outro plano, imagino uma mesa pesada de Simão Dias, daquelas que fazem até assessor tremer: Celso Carvalho e Marcelo Déda, dois filhos da terra, dois ex-governadores de Sergipe, assistindo essa confusão como quem vê reprise de problema antigo com elenco mais fraco. Celso, direto como tapa de pai e sem paciência para frescura, solta logo: “Marcelo, que danado aconteceu com Simão Dias? No nosso tempo o povo brigava por hospital, estrada e desenvolvimento. Agora estão brigando por áudio de WhatsApp, cadeira de gabinete e quem sentou mais perto do governador?”. Déda, ajeitando o paletó celestial e com aquela oratória que até bronca parecia aula magna, responde: “Celso, já dizia eu, nenhum povo pode ser medido pelos quilômetros do seu território, mas pela amplitude da sua alma. O problema é que reduziram a alma da política ao tamanho de uma picuinha de rádio. Hoje não falta projeto, falta grandeza. E sobra ego com internet ilimitada”.

Enquanto isso (imaginemos), aqui embaixo, a situação ficou tão caricata que até Belivaldo Chagas, mesmo arranhado politicamente com Antônio Carlos Valadares, resolveu pegar o telefone. Porque chega uma hora em que até adversário antigo vira colega de plantão no grupo dos indignados. Lá da fazenda, com aquele jeito firme, tabaréu e sem açúcar de Simão Dias, Belivaldo abriu a ligação rindo: “Valadares, meu amigo, eu pensei que esse povo tava discutindo o governo do Estado, mas estão brigando é por herança de grupo de família, ciúme de programa de rádio e quem tirou foto mais perto do governador”. Valadares (imaginemos), com aquela serenidade clássica de quem sempre preferiu inteligência a gritaria, respondeu quase sorrindo: “Belivaldo, isso é simples. Nós pensávamos em Sergipe, eles pensam em plateia. Nós construíamos pontes, eles constroem fofoca. Nós deixávamos legado, eles deixam áudio apagado e print comprometedor”. E Belivaldo (imaginemos) fechou como quem carimba sentença: “Rapaz, desse jeito, daqui a pouco vão criar a Secretaria Municipal das Picuinhas Estratégicas e transformar briga de ego em patrimônio histórico da cidade”.

Enquanto isso, Simão Dias segue assistindo ao espetáculo como quem compra ingresso sem querer e descobre que sentou na primeira fila. O povo queria debate sobre emprego, saúde, estrada, água e futuro. Recebeu campeonato municipal de quem tinha mais parente nomeado e quem tomou mais café perto do governador. No ritmo atual, o próximo debate eleitoral não será na Câmara de Vereadores, será no grupo da família com áudio de oito minutos, figurinha de deboche e alguém digitando “tenho provas”. Porque, convenhamos, quando a política abandona o projeto e abraça a picuinha, o município deixa de discutir o futuro e vira apenas uma grande reunião de condomínio com orçamento público.

Uma resposta

  1. Bom dia!
    Texto de boa clareza e perpicacia ao ao redigi-lo mostra o intendimento do conteúdo.
    É necessário que se faça mais conteúdos tão leve para entendimento da política Sergipeana e seu bastidores.

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