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Editorial: Quando a farda veste salto: Sergipe também pode ter uma mulher no comando da PM

Durante muito tempo, a imagem da Polícia Militar foi vendida como um clube masculino com coturno, bigode e uma reunião permanente entre testosterona e ordem unida. Mulher ali parecia sempre exceção, quase um rodapé institucional. Mas o tempo, felizmente, tem o péssimo hábito de desmoralizar preconceitos antigos. Em São Paulo, a coronel Glauce Anselmo Cavalli tomou posse como a primeira comandante-geral da PM em quase 200 anos de história da corporação, mostrando que a farda finalmente entendeu uma coisa básica: autoridade não tem gênero, competência não usa gravata e comando não depende de voz grossa. 

Em Sergipe, essa reflexão precisa deixar de ser apenas aplauso distante e virar provocação local. Por que não uma mulher no comando da Polícia Militar de Sergipe? A PMSE já possui nomes femininos históricos no coronelato, mulheres que não chegaram ali por gentileza institucional, mas por mérito, suor, estratégia e muita resistência. Coronel Rita de Cássia Silvestre e Coronel Fátima Cristina Fontes foram pioneiras e abriram caminho para outras gigantes como Coronel Diele, Coronel Valéria e Coronel Araci. Elas não pediram licença para entrar. Elas entraram, ficaram e provaram que liderança não precisa de permissão masculina para existir.

A própria PM de Sergipe reconhece hoje a força feminina dentro da corporação. São mais de 700 mulheres atuando em todas as graduações, da soldado ao oficialato superior, ocupando espaços que durante décadas pareciam reservados a um velho manual de masculinidade mal diagramado. E aqui vale um elogio com todas as letras: mulher na polícia não é símbolo decorativo de campanha institucional de março. Mulher na polícia investiga, comanda, decide, enfrenta ocorrência, lidera tropa e muitas vezes ainda volta para casa para comandar outra operação ainda mais difícil chamada família. Isso não é romantização, isso é realidade.

A coronel Glauce, em São Paulo, assumiu já dizendo que a violência doméstica seria prioridade em sua gestão, ampliando acolhimento às vítimas e fortalecendo políticas públicas dentro da própria estrutura policial. Isso tem um peso simbólico enorme. Não porque homem não possa tratar do tema, mas porque uma mulher no comando muda o olhar da instituição sobre dores que durante muito tempo foram tratadas com burocracia fria e silêncio constrangedor. Quando a comandante entende a ferida, a resposta deixa de ser protocolo e passa a ser compromisso. 

Sergipe pode e deve seguir esse caminho. Não seria apenas um gesto bonito de fotografia oficial, seria uma decisão inteligente de gestão pública. Uma comandante-geral mulher seria mais que uma novidade, seria uma mensagem institucional poderosa: a segurança pública também precisa refletir a sociedade que protege. E convenhamos, se mulher já comanda casa, empresa, hospital, tribunal, prefeitura e até grupo de família no WhatsApp com mão de ferro, achar que não pode comandar uma Polícia Militar é apenas atraso com farda passada.

Talvez nos próximos anos, no próximo governo ou até antes do que muita gente imagina, Sergipe veja esse momento histórico acontecer. E será merecido. Porque a farda já incorporou o feminismo sem pedir autorização para ninguém. O futuro da segurança pública não está em repetir velhos modelos de autoridade, mas em reconhecer novas formas de liderança. Quando uma mulher assume o comando, não é a polícia que fica mais fraca. É o preconceito que finalmente bate continência.

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