O brasileiro descobriu oficialmente que ter imóvel alugado no país já está quase entrando na categoria esporte radical tributário. Você compra o apartamento, financia em 35 anos, paga escritura, cartório, condomínio, IPTU, troca cano, conserta infiltração, escuta reclamação de inquilino porque a torneira pingou e, no fim da novela, ainda precisa correr atrás de Carnê Leão, ficha de rendimento tributável, declaração de pessoa física, declaração de pessoa jurídica e mais umas quarenta senhas do Gov.br para provar ao governo que continua respirando legalmente. O cidadão praticamente vira funcionário da Receita sem receber salário.
Economistas e especialistas em contabilidade vêm alertando há anos que o excesso de tributação sobre aluguel e patrimônio acaba diminuindo o interesse de pequenos investidores em colocar imóveis para locação. O sujeito olha para o apartamento vazio e começa a pensar seriamente se não vale mais a pena transformar o imóvel em depósito de cadeira velha do que enfrentar o labirinto tributário brasileiro. Porque não basta ganhar aluguel. O governo quer saber quem alugou, quanto pagou, se o inquilino é pessoa física, pessoa jurídica, se teve reforma, se teve taxa de condomínio, se o síndico espirrou e até qual foi o humor do proprietário na hora de preencher a declaração.
E o mais engraçado é que o discurso oficial sempre vem embalado naquela linguagem bonita de “justiça fiscal”, “controle tributário” e “modernização da arrecadação”. Traduzindo para o português da feira: o governo quer garantir que até o aluguel do quartinho dos fundos entre no radar da mordida tributária nacional. O pequeno proprietário brasileiro já não aluga imóvel. Ele praticamente administra uma microempresa de sobrevivência emocional. E se esquecer um campo da declaração, aparece o fantasma da malha fina igual assombração de filme de terror contábil. Tem brasileiro hoje que abre o programa do Imposto de Renda com mais medo do que abre exame médico.
Enquanto isso, contador virou quase terapeuta financeiro da população. O trabalhador chega no escritório segurando comprovante de aluguel, boleto de condomínio, recibo de pintura e contrato de financiamento igual estudante desesperado antes da prova final. E no fundo fica aquela sensação amarga de que o Estado brasileiro descobriu uma fórmula perfeita: deixar o cidadão trabalhar, investir, correr risco, pagar juros absurdos e depois entrar no final da fila perguntando “cadê minha parte?”. O Brasil conseguiu transformar o sonho da casa própria numa relação estável entre contribuinte, banco e Receita Federal. Só que o único feliz nessa união parece ser o Leão.




