O Brasil conseguiu criar uma cena digna de repartição pública com roteiro de ficção científica: o idoso pobre ou a pessoa com deficiência pede o BPC/Loas, espera meses, junta papel, atualiza cadastro, reza para o sistema não cair e, no fim, pode descobrir que o benefício foi encerrado porque a biometria não apareceu no lugar certo. O INSS diz que não houve cancelamento em massa, mas admitiu processamento automático de 15 mil pedidos parados por falta de biometria, com 9.753 indeferimentos. Ou seja, não foi “massa”, foi só uma multidão administrativa com CPF, fome e boleto.
A regra da biometria não caiu do céu. O próprio INSS informou que novos pedidos passaram a exigir cadastro biométrico, aceitando dados da CIN, CNH ou Título de Eleitor, e que o cronograma da Carteira de Identidade Nacional foi ajustado pelo governo. A ideia, no papel, é combater fraude. Até aí, palmas. O problema é quando o combate à fraude vira uma catraca eletrônica na porta da assistência social. Em Sergipe, onde muita gente ainda depende de parente, lan house, CRAS e paciência de santo para mexer no Meu INSS, exigir perfeição digital de quem vive no limite é quase pedir que o cidadão faça prova de vida dançando quadrilha com reconhecimento facial.
A confusão aumentou porque a Instrução Normativa 203, publicada em abril de 2026, também mudou a lógica dos pedidos repetidos: o segurado não poderá fazer novo requerimento da mesma espécie enquanto houver pedido em análise ou prazo de recurso aberto. O INSS diz que essa norma não tem relação com os cancelamentos por biometria. Pode até ser. Mas, para o cidadão que teve o pedido negado, pouco importa se o golpe veio da biometria, da instrução normativa ou do algoritmo com mau humor. Na ponta, a sensação é simples: o sistema fecha a porta e ainda manda o pobre procurar a maçaneta no aplicativo.
O BPC/Loas não é favor, não é presente, não é mimo estatal. É benefício assistencial previsto para idosos e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade. É o dinheiro do remédio, da feira, do gás, do cuidador, da sobrevivência. Quando um pedido é encerrado automaticamente por falha de biometria, erro de cadastro, divergência de nome ou problema entre bases do TSE, Detran e INSS, a máquina pública pode estar transformando uma exigência técnica em punição social. E máquina pública, quando erra contra pobre, raramente pede desculpa. Normalmente manda “acompanhar pelo sistema”, essa frase que no Brasil já deveria vir com calmante junto.
O mais grave é que o governo tem razão em querer impedir fraude, mas não pode tratar vulnerável como suspeito padrão. O pente fino precisa encontrar fraude, não raspar dignidade. Se há pedido cancelado indevidamente, o caminho deve ser reabertura pelo Meu INSS, reclamação ou denúncia no Fala.BR e, quando necessário, atuação jurídica imediata. Mas a pergunta que fica para Sergipe é direta: quantas famílias humildes vão saber fazer isso sozinhas? Quantas vão entender a carta de indeferimento? Quantas vão perder prazo porque o sistema falou difícil demais? No país real, a fila do INSS não é digital. É humana. E tem gente nela esperando não um clique, mas comida na mesa.




