João Daniel passou os últimos dias tentando vender a imagem de deputado da terra, da inclusão, da agricultura familiar e dos vulneráveis. Mas saiu parecendo aquele político que leva discurso de sindicato para fila de hospital e cartilha ideológica para conversar com família atípica. No papel, o cardápio é bonito: Lula, Fafen, Petrobras, Funasa, assentamentos, escala 6×1 e neurodiversidade. Na prática, o mandato fala muito para a própria bolha e pouco para quem está fora dela. João Daniel discursa para convertidos. Para o resto do eleitorado, muitas vezes parece palestra longa, café frio e microfone chiando.
O caso mais grave foi o PL 6238/2025, sobre neurodiversidade. O projeto veio embalado em palavras bonitas, mas assustou famílias, ativistas e pessoas ligadas à causa autista. O medo era claro: insegurança jurídica e risco aos direitos de quem já luta todos os dias por laudo, terapia, escola adequada, plano de saúde e dignidade. Autismo não é laboratório legislativo, nem brinquedo de gabinete. Quando o deputado mexeu numa pauta tão sensível sem convencer quem vive essa realidade, a reação veio forte. E o recuo posterior falou mais alto que qualquer nota explicativa.
O PL dos assentamentos periurbanos também abriu outro flanco. Para João Daniel, é justiça social, moradia e agricultura familiar. Para os adversários, é a sirene perfeita para gritar MST, ocupação e regularização fundiária com dinheiro público. É o tipo de pauta que anima a esquerda raiz, mas entrega munição pronta para a oposição. João Daniel pode até falar em comida na mesa; seus críticos vão traduzir como invasão chegando ao bairro. Em política, a narrativa nem sempre obedece ao autor do projeto.
Dentro do PT, a situação também aperta. Márcio Macêdo apareceu como companheiro, mas com cara de quem já está medindo a cadeira de João Daniel. Ao dizer que a chapa petista “não foi calibrada” e que, se fizer apenas uma vaga, “que seja eu”, Márcio colocou a faca na mesa com guardanapo vermelho. O maior perigo para João Daniel talvez não venha da direita, mas da própria casa, com estrela no peito e calculadora eleitoral na mão.
No fim, João Daniel tem pauta, lado e coerência, mas também tem desgaste, comunicação engessada e um tropeço pesado com as famílias autistas. Tentou plantar inclusão, mas colheu desconfiança. Tentou vender avanço, mas entregou susto. E, quando um deputado escuta mais a cartilha do que a rua, a política cobra caro. Às vezes, cobra na rede. Depois, cobra na urna.




