O Brasil conseguiu criar uma façanha administrativa: juízes, desembargadores, ministros, promotores e procuradores, que já têm 60 dias de férias por ano, agora podem fracionar esse descanso em até 12 parcelas de cinco dias. Parece detalhe burocrático, mas não é. Somando fins de semana, recesso, feriados e licenças, a conta pode virar quase meio ano longe do trabalho. É férias com engenharia, folga com planejamento estratégico e privilégio com carimbo oficial.
E aí, leitor, pergunte: isso pode acontecer em todo o Brasil? Pode acontecer em Sergipe também? Enquanto o trabalhador comum negocia 30 dias de férias como quem pede favor, parte da elite pública transforma cinco dias em nove, encaixando fins de semana como quem monta quebra-cabeça. O povo pega ônibus lotado, trabalha em escala pesada, paga imposto e ainda precisa assistir à toga descobrindo a arte de descansar com método.
A questão não é atacar juiz ou procurador. O país precisa de boas instituições. O problema é quando direito funcional começa a parecer clube de vantagem. Quem fiscaliza os fiscalizadores? Quem limita quem já tem salário alto, penduricalho, recesso, indenização e licença compensatória? Para o cidadão comum, falta vira desconto. Para alguns setores privilegiados, folga vira tese administrativa.
O mais grave é o risco de essas folgas virarem compensação depois que o Supremo limitou parte dos penduricalhos. Traduzindo: se não puder receber tudo em dinheiro, descansa mais. É quase operação tartaruga de luxo. E a Justiça, que já demora para quem espera sentença, pode ficar ainda mais lenta se privilégio virar calendário.
O Brasil precisa discutir isso sem medo. Férias são necessárias. Abuso é deboche institucional. Se isso ocorre ou pode ocorrer em Sergipe, a sociedade precisa perguntar: quantos dias trabalham? Quantos dias folgam? Quanto custa isso? Porque a toga pode até tirar férias; quem paga a conta nunca descansa da realidade.




