O bronze conquistado por Wendal Carmo e Leonardo Miazzo no Prêmio INAC de Integridade não é apenas um afago no currículo dos jornalistas. É um recado público às instituições sergipanas. A reportagem “Liberação de água para haras da primeira-dama de Sergipe teve ajuda de servidor estatal” atravessou as fronteiras do Estado porque seus autores fizeram o que muita gente poderosa prefere que a imprensa esqueça: abriram processos, examinaram documentos e aproximaram fatos que estavam confortavelmente separados pela burocracia. Enquanto alguns gabinetes gostam de transparência apenas em discursos e placas luminosas, os jornalistas foram buscar procurações, e-mails e registros técnicos. O prêmio chegou porque a reportagem teve coragem. O constrangimento permanece porque as perguntas continuam de pé.
O título é duro porque os fatos narrados exigem dureza. De um lado, uma empresa controlada pela primeira-dama Érica Mitidieri e por suas filhas. Do outro, uma autorização concedida pela administração estadual comandada pelo marido dela, o governador Fábio Mitidieri. No meio do procedimento, aparece a atuação técnica de Luiz Gonzaga Luna Reis, servidor da Coderse desde 1983 e especialista em irrigação e recursos hídricos. Isso não prova crime, fraude ou favorecimento, e ninguém responsável deve fabricar condenações. Mas também não permite tratar o episódio como uma inocente coincidência de agenda. Quando interesses privados da família do governador atravessam repartições subordinadas ao próprio governo, a obrigação de explicar deixa de ser gentileza. Torna-se dever público. Nesse caso, transparência não pode vir em conta-gotas.
A reportagem mostra que o servidor atuou como responsável técnico, recebeu procuração para representar a empresa e participou de interlocuções relacionadas à tramitação do pedido. O engenheiro afirmou ter realizado um serviço particular e disse não enxergar conflito de interesses. Érica Mitidieri negou favorecimento e apresentou sua versão. Ambas devem ser registradas e respeitadas, mas nenhuma versão pessoal encerra o debate institucional. O governo precisa explicar quais regras autorizavam essa atividade privada, se houve declaração de possível conflito, se o trabalho ocorreu fora do expediente e se alguma estrutura pública foi utilizada. Nota de esclarecimento não substitui apuração. Se substituísse, não precisaríamos de controladorias, corregedorias, tribunais de contas ou Ministério Público. Bastava montar uma gráfica estatal para imprimir respostas oficiais e declarar todos os casos resolvidos.
A autorização mencionada pela matéria alcança aproximadamente 39,2 mil metros cúbicos de água por ano, volume equivalente a cerca de 16 piscinas olímpicas. A comparação não significa que todo esse limite tenha sido captado nem que tenha existido uso irregular, mas revela a dimensão do interesse público envolvido. Houve pedido, análise, concessão, renovação e exigência de acompanhamento do consumo. Portanto, é razoável perguntar quanto foi efetivamente retirado, se os registros de medição foram apresentados e quem fiscalizou o cumprimento das condições da outorga. Em Sergipe, aparentemente, consegue-se medir a vazão do riacho, calcular piscinas e protocolar portarias; o que continua difícil é medir a velocidade com que os órgãos de controle se movem quando o assunto encosta no poder.
O prêmio não condena a família Mitidieri, o engenheiro ou qualquer agente público. Mas destrói a desculpa de que a pauta seria irrelevante ou produto de mera maledicência política. Uma instituição nacional reconheceu a qualidade de uma investigação baseada em documentos e voltada à integridade pública. Wendal Carmo e Leonardo Miazzo cumpriram sua obrigação e merecem aplausos por isso. Agora cabe ao governo abrir integralmente os documentos, aos órgãos competentes examinarem o procedimento e à sociedade exigir respostas objetivas. Se tudo estiver correto, que a regularidade seja demonstrada com fatos. O que não pode é a reportagem subir ao palco para receber um troféu enquanto as instituições continuam sentadas na plateia, fingindo que o espetáculo não é com elas. A água correu, o jornalismo avançou e o prêmio chegou. Só a resposta pública não pode permanecer encalhada na margem.




