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A urna entre dois mundos: Fábio (Playboy), Valmir (Marchante) e a disputa pelo significado de governar

A eleição de Sergipe coloca frente a frente duas biografias que quase parecem escritas para produzir contraste. Fábio Mitidieri nasceu em Aracaju em uma família já inserida nos mundos empresarial, médico e político. É filho do médico e ex-deputado estadual Luiz Mitidieri e da empresária Sônia Mitidieri. Formado em Administração, tornou se vereador aos 31 anos, secretário municipal, secretário estadual, deputado federal por dois mandatos e governador. Não é correto dizer que seu primeiro emprego foi a Câmara Municipal, mas é correto dizer que sua trajetória começou cercada por uma estrutura familiar econômica e política que já existia muito antes de seu nome chegar à urna.

Valmir de Francisquinho vem de uma fotografia social bastante diferente. Sua biografia pública começa na feira de Itabaiana. Há registros de que fazia carrego ainda menino, vendia picolé por volta dos dez anos e, adolescente, trabalhou como feirante e marchante de porcos. Depois veio a liderança estudantil, cinco mandatos de vereador e três eleições vencidas para a Prefeitura de Itabaiana. A expressão “playboy contra o marchante” funciona como provocação retórica de campanha, mas a comparação mais séria é outra: um candidato chega ao poder a partir de uma família que já conhecia os corredores da política e dos negócios; o outro construiu sua identidade eleitoral a partir da feira, da atividade popular e de décadas de política municipal. Origem humilde não transforma automaticamente alguém em melhor governante, assim como origem privilegiada não condena ninguém à incompetência. Mas origem ajuda a explicar linguagem, imagem pública e relação com o eleitor.

Fábio chega à eleição carregando algo que Valmir não possui: a máquina administrativa e o ônus integral de quatro anos de governo. É aí que sua biografia deixa de ser o ponto central e começa a cobrança pelo resultado. Na água, o problema foi suficientemente grave para que o Ministério Público de Sergipe intermediasse acordo com Iguá, Agrese, Procuradoria Geral do Estado e Sedurbi prevendo R$ 32 milhões extraordinários para enfrentar episódios de desabastecimento na Grande Aracaju. Em setembro, a própria concessionária ainda comunicava recuperação gradual do abastecimento em dezenas de bairros de Aracaju e localidades metropolitanas. Na educação, professores estaduais estão há 26 dias em greve cobrando cumprimento de decisão relativa aos escalonamentos da carreira. 

Há, porém, um lado menos festivo da administração Mitidieri que merece uma lupa muito maior. Enquanto o governo vende eventos, obras e uma imagem de eficiência, sua gestão acumulou contratações que exigem escrutínio público rigoroso. Levantamento da Folha de S.Paulo mostrou mais de R$ 70 milhões em oito contratos com a G3 Empreendimento, empresa controlada pela filha de um aliado político do governador, incluindo uma contratação emergencial de R$ 5,3 milhões pela Casa Civil, sem licitação, e posteriormente um pregão de aproximadamente R$ 54 milhões. Governo e empresa afirmam que tudo ocorreu dentro da legalidade. Mas legalidade formal não elimina o dever político de explicar cada escolha, cada preço e cada vínculo quando dezenas de milhões do contribuinte estão sobre a mesa. 

No Detran, outro processo chama atenção pelo tamanho: o Pregão 293/2026, estimado em R$ 2,65 milhões, terminou arrematado por R$ 2,553 milhões para uma solução de gestão de filas e plataforma multimídia. E é nesse contraste que o discurso festivo encontra sua parte mais desconfortável: um governo pode gastar, contratar e celebrar, mas precisa convencer o cidadão de que suas prioridades estão na ordem certa e de que cada contrato resiste à luz do dia. A máquina de Fábio é grande, organizada e dispõe de enorme capacidade de comunicação; justamente por isso, a cobrança também precisa ser grande. Popularidade não pode ser presumida inexistente quando pesquisas registram aprovação expressiva, mas aprovação tampouco funciona como salvo conduto para contratos milionários, crises de serviços públicos ou decisões administrativas que mereçam explicação. Governo forte não deveria temer pergunta difícil. Deveria responder com documento, número e transparência.

Valmir também chega à urna carregando passado, controvérsia e uma história eleitoral absolutamente fora do comum. Em 2022 recebeu 457.922 votos depositados para governador, numericamente mais que qualquer outro candidato naquele primeiro turno. Esses votos, entretanto, foram considerados nulos porque seu registro estava indeferido no dia da eleição. Portanto, dizer simplesmente que “ganhou e tomaram no tapetão” não descreve juridicamente o que ocorreu. O fato mais extraordinário é suficientemente forte sem exagero: onze dias depois, o próprio TSE reverteu a inelegibilidade que havia sustentado o impedimento, mas a decisão não retroagiu para refazer a eleição. Em 2026, ele chegou à reta final com o registro deferido pelo TRE SE. É exatamente essa sequência que alimenta entre seus apoiadores uma narrativa de reparação histórica, embora juridicamente a eleição de 2022 permaneça encerrada.

A trajetória administrativa de Valmir em Itabaiana foi marcada por obras urbanas, investimentos nos povoados e estímulo à economia. Em 2017, a Prefeitura informou mais de R$ 50 milhões em recursos próprios aplicados em pavimentação, praças, escolas, unidades de saúde e intervenções no interior, além da aquisição de uma usina de asfalto por cerca de R$ 1,8 milhão. A gestão também acompanhou a chegada do Assaí Atacadista, fortaleceu a Feira do Caminhão e, na reta final do segundo mandato, anunciou novas revitalizações e obras, afirmando deixar projetos em andamento e recursos em caixa. Esse conjunto consolidou a imagem de Valmir como gestor de rua, ligado a obras visíveis, comércio, feira, saúde, educação e interior, com entregas que o eleitor consegue identificar no cotidiano.

Amanhã, portanto, não estarão diante da urna apenas dois candidatos, mas dois modelos biográficos e duas formas de apresentar poder. Mitidieri chega com governo, alianças amplas, muito dinheiro, mas também com a responsabilidade pelas crises e escolhas de prioridade dos últimos quatro anos. Valmir chega com a força simbólica da feira de Itabaiana, décadas de votação municipal, a marca extraordinária dos 457 mil votos de 2022 e uma candidatura que procura converter trajetória popular em comando estadual. As pesquisas recentes não autorizam tratar o resultado como previamente decidido: levantamentos de setembro mostraram cenários distintos, inclusive pesquisa Real Time Big Data com empate técnico numa eventual segunda rodada. A urna é que resolverá a disputa. O papel do jornalismo, até lá, é mostrar de onde cada um veio, o que efetivamente fez e o preço das escolhas que ambos pedem ao eleitor para confiar lhes novamente.

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