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Aracaju, a casa das campeãs do mundo

Há vitórias que ultrapassam o esporte. No domingo, 16 de agosto, o conjunto brasileiro de ginástica rítmica conquistou em Frankfurt dois ouros inéditos, nas cinco bolas e na série mista, além do bronze no geral e da vaga para Los Angeles 2028. Maria Eduarda Arakaki, Nicole Pircio, Sofia Madeira Pereira, Maria Paula Caminha, Mariana Gonçalves e Julia Kurunczi escreveram uma página histórica para o Brasil. Elas nasceram em diferentes estados, mas existe um endereço que passou a fazer parte da trajetória de todas: Aracaju, sede da preparação da Seleção Brasileira de conjunto.

É em Sergipe que boa parte desse sonho é lapidada diariamente. A rotina de alto rendimento envolve treinamentos que podem ocupar oito horas ou mais por dia, preparação física, fisioterapia, repetições e uma cobrança permanente por perfeição. O público vê alguns minutos de leveza no tablado, mas por trás daquele espetáculo existem milhares de horas de suor. Bola, arco e maças precisam chegar ao lugar certo no segundo certo. Na ginástica rítmica, beleza sem disciplina não chega ao pódio.

Maria Eduarda Arakaki, a Duda, nasceu em Maceió e começou na ginástica ainda criança. Tornou se capitã da seleção e carrega a experiência de duas Olimpíadas. Nicole Pircio nasceu em Piracicaba, apaixonou se pela modalidade assistindo às competições pela televisão e chegou muito jovem à seleção. As duas aprenderam cedo que o alto rendimento significa também deixar família, amigos e a rotina comum para trás. O brilho da medalha costuma esconder a saudade que acompanha essas atletas.

Sofia Madeira Pereira veio do Espírito Santo e também precisou reorganizar a vida para atender às exigências dos treinamentos. Maria Paula Caminha nasceu em Manaus, passou por Salvador e rapidamente saiu da categoria juvenil para dividir o tablado com atletas olímpicas. Mariana Gonçalves, de Curitiba, e Julia Kurunczi, de Londrina, construíram suas histórias desde as categorias de base. São trajetórias diferentes que se encontraram dentro de um mesmo conjunto e passaram a obedecer a uma regra simples e difícil: ninguém vence sozinho.

A vida dessas meninas exige renúncias. Estudos, encontros familiares, festas, amizades, namoro e fins de semana precisam conviver com viagens, concentração, fisioterapia e treinamento. Não cabe transformar a vida privada delas em espetáculo, mas é possível entender o tamanho do sacrifício. Enquanto jovens da mesma idade vivem uma rotina mais livre, uma atleta de elite pode passar aniversário dentro do ginásio ou trocar o domingo de descanso por recuperação muscular. O ouro começa exatamente nessas escolhas que quase ninguém vê.

E há mulheres fundamentais atrás das campeãs. A técnica Camila Ferezin, ex ginasta olímpica, liderou durante anos a transformação do conjunto brasileiro em potência internacional. Ao lado dela estão auxiliares como Bruna Akawana Martins Rosa e Reni Pavlova Karachomakova, responsáveis por observar detalhes que escapam ao público. São elas que corrigem, repetem, cobram, orientam e também acolhem. Manter seis atletas extraordinárias na mesma sintonia exige autoridade, sensibilidade e enorme competência técnica.

Também chamou atenção a continência feita por algumas atletas no pódio. Maria Eduarda Arakaki, Nicole Pircio e Sofia Madeira possuem vínculo com a Marinha do Brasil dentro do programa esportivo militar. Por isso, aquele gesto não foi improvisação nem manifestação política. É uma demonstração ligada à condição militar das atletas. Medalha no peito, bandeira brasileira ao fundo e continência formaram uma das imagens mais simbólicas dessa conquista.

Sergipe tem razão para comemorar como se aquela medalha também tivesse um pequeno pedaço da sua bandeira. Aracaju não foi apenas cenário dessa história. Foi casa, centro de treinamento e ponto de encontro dessas meninas. Elas chegaram de diferentes regiões do país, foram moldadas por técnicos, auxiliares, fisioterapeutas, famílias e por uma estrutura construída em Sergipe. Frankfurt entregou o ouro, mas muito desse ouro foi produzido diariamente em Aracaju. E isso é motivo de orgulho para Sergipe e para o Brasil inteiro.

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