Era um domingo qualquer do ano de 2010. O sol de Sergipe, pós-almoço, já se preparava para deitar devagarinho, em tons dourados, sobre as águas quentes de Aracaju. Na capital, eu guardava no peito a responsabilidade e o desafio de ser o Gerente Geral de uma das Unidades da empresa. No coração, acima de tudo, a memória de quem já foi estrada, de quem já rodou muito por esse Brasil.
Eu sabia bem o peso das caixas de mudança, o eco das casas ou apartamentos vazios e o frio na barriga que dá ao recomeçar em um chão novo. Nova cultura, clima… vizinhos. Novos e diferentes finais de semana. Novos desafios! No dia seguinte, uma segunda-feira, a Unidade ganharia um novo olhar: João estava chegando, transferido do interior. Trazia, na bagagem, o sonho de estar aqui, na capital; um novo sol; novos ares, perspectivas. Enfim, tudo novo.
Eram ele e sua esposa. Sabendo que o caminhão de mudança costuma descarregar junto com a ansiedade dos domingos, não contive o gesto. Peguei o telefone e disquei. Não era o gerente geral, o cargo ou a função, ligando para cobrar o horário do dia seguinte; para “convocar” para uma reunião; para pedir que não se atrasasse. Era um ser humano estendendo a mão e acolhendo outros.
Ele atendeu. Dei as boas-vindas a Aracaju e disse-lhe: — João, sejam muito bem-vindos. Você e sua esposa precisam de alguma coisa? Deixei o tom de voz ser o abraço que a distância ainda não permitia. — Posso ajudar? Não hesite em pedir ajuda ou indicação de qualquer profissional agora ou mais tarde, ou em qualquer dia. Instalem-se bem e com calma, complementei. Do outro lado da linha, o silêncio da surpresa deu lugar ao alívio. — Eu já mudei muito nesta vida e na empresa, João.
Para mim, um colaborador nunca foi apenas um número, um crachá ou uma matrícula perdida no sistema. Atrás de todo CPF, existem outros CPFs que pulsam juntos, que dependem de nós, que sonham o mesmo sonho, que sentem dor quando a temos. Dores físicas ou emocionais.
Aquele telefonema de domingo não foi apenas uma gentileza: foi o lembrete poético de que liderar é, antes de tudo, acolher as vidas que pulsam por trás do crachá. Cuidar do João é cuidar de todos eles, os que estão aqui, como a esposa, e os lá ficaram, no interior. Não tenho dúvidas: Amanhã, a segunda-feira traria a rotina, as metas e o trabalho. Mas, naquele domingo à tarde, o que busquei construir foi uma ponte de afeto. Porque liderar nunca foi sobre e tão somente coordenar processos, mas estender a mão quando o chão ainda parece novo e desconhecido. Cuidar! E João não começaria o trabalho na segunda-feira sozinho: ele já me tinha, desde o domingo, ao seu lado. A esposa, também!
Dezesseis anos depois, ao visitar uma outra Unidade da empresa, da qual já me aposentei, lá estava o João. Ele recordou essa história e as suas memórias afetivas e eu me emocionei. Confesso que saí da Unidade lacrimejando. Pedi-lhe autorização para compartilhar com você. E sobre a Unidade para a qual João foi transferido? No ano de 2010, num Programa de Metas da Empresa, fomos destaque nacional e ficamos em segundo lugar no Norte/Nordeste do Brasil. Isso eu devo aos João, às Marias…e aos seus familiares. João, obrigado por viver e reviver tudo isso com vocês!!




