O governo Fábio Mitidieri tem um problema que não cabe debaixo do tapete da Secretaria da Segurança Pública: o Ofício nº 682/2026, assinado pelo delegado-geral Thiago Leandro Barbosa de Oliveira, concentrou, excepcionalmente, os plantões de 1º a 6 de novembro na Central de Flagrantes, na Casa da Mulher Brasileira e em Itabaiana. A razão declarada foi o desligamento de servidores de escalas voluntárias. No interior, isso levanta uma pergunta incômoda: quanto tempo uma guarnição poderá passar na estrada para apresentar uma ocorrência, em vez de permanecer patrulhando sua cidade? A promessa de segurança pública não pode terminar na placa da delegacia fechada para o plantão.
E a situação fica mais delicada quando se olha para a distribuição dos próprios delegados. O secretário João Eloy de Menezes reconheceu déficit na corporação e justificou a permanência de André David Caldas na Central de Flagrantes, negando sua volta à Prefeitura de Aracaju. A decisão pode ter fundamentação operacional, mas exige critério uniforme. Georgeo Passos apontou na Assembleia a presença de uma delegada no Tribunal de Justiça, dois delegados na Secretaria da Administração e três em secretarias estaduais. No TJSE, há um nome público: Maria Pureza Machado, apresentada pelo tribunal como diretora de Segurança em 2025. Já Viviane Cruz Pessoa e Georlize Oliveira Costa Teles exercem postos de comando no Executivo, enquanto Danielle Garcia encontra-se em licença prêmio. Não há ilícito automático nessas funções, e a vigência de cada cessão precisa ser demonstrada. Mas, se falta gente no balcão da delegacia, o cidadão merece conhecer o mapa inteiro do efetivo.
Outro nome que merece esclarecimento é Paulo Márcio Ramos Cruz: há registro de cessão à Prefeitura de Aracaju referente a 2025 e notícia de atuação como controlador-geral municipal em 2026, mas não foi localizada renovação que permita afirmar sua situação funcional atual. Quanto aos dois delegados apontados na Secretaria da Administração, ainda não foi possível confirmar seus nomes por ato vigente. O próprio convênio de segurança institucional entre o Estado e o TJSE prevê disponibilização de profissional da Polícia Civil ao Judiciário, sem que isso autorize confundi-lo com a diretora de Segurança ou presumir sua identidade. A regra jornalística é simples: nome não se inventa e cessão vencida não vira cessão atual por conveniência. O governo deve divulgar portarias, lotações, duração, ônus financeiro e atribuições de todos os policiais civis fora das unidades operacionais.
O governador, a SSP e a Delegacia-Geral precisam explicar, com documentos, quantos delegados, investigadores e escrivães estão cedidos ou exercendo funções administrativas, quantos poderiam retornar legalmente à atividade-fim e como serão recompostas as escalas sem depender indefinidamente de horas extraordinárias. O Tribunal de Justiça e os demais órgãos receptores também têm razões legítimas para manter segurança institucional, que não pode ser simplesmente desconsiderada. Mas transparência não é favor: é dever de gestão. No momento em que o interior recebe plantões concentrados e a polícia reconhece falta de pessoal, a resposta não pode ser só mais uma nota burocrática. Sergipe precisa de policiais nas ruas e nas delegacias, planejamento e critérios públicos. Porque, enquanto a administração faz a dança das cadeiras, a população não pode ficar esperando a música acabar.




