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Do rugido de Brizola ao cochilo do Cotinguiba

Houve um tempo em que o PDT carregava Leonel Brizola como um trovão dentro do peito. Era educação pública, trabalhismo, soberania e povo na rua. Brizola precisava de praça porque não cabia num auditório. O PDT que apareceu no Cotinguiba quase não coube na agenda dos próprios filiados. Antes havia uma causa procurando multidões. Agora havia Edvaldo Nogueira procurando vereadores. O partido que já quis mudar o Brasil parecia lutar para provar que ainda estava vivo.

A convenção estava marcada para as 15 horas. Às 15h45, o auditório ainda exibia aquele público típico de reunião de condomínio em dia de chuva: algumas pessoas, muitas cadeiras e ninguém disposto a assumir a culpa. Depois, lideranças chegaram e o salão melhorou. Mas política é fotografia, e a primeira imagem foi cruel: a candidatura chegou antes do entusiasmo. O PDT não abriu a convenção; pegou no tranco.

Dos três vereadores pedetistas de Aracaju, apenas Fábio Meireles apareceu na relação pública de presentes. Vinícius Porto e Joaquim da Janelinha sumiram. Edvaldo precisou dizer que “espera” receber o apoio deles. Veja a cena: o candidato ao Senado, presidente estadual do partido, fazendo convenção para pedir apoio aos vereadores do próprio partido. É como dar uma festa de aniversário e telefonar para os parentes durante o parabéns: “Vocês vêm ou mando o bolo por aplicativo?”

O caso de Vinícius Porto é o mais indigesto. Conforme o registro informado, teve disposição para aparecer na convenção do PSB, mas não demonstrou o mesmo entusiasmo na casa pedetista. Vinícius teve voz, espaço, prestígio e até assumiu interinamente a Prefeitura durante a gestão de Edvaldo. Quando Edvaldo tinha a caneta, Vinícius tinha microfone. Agora que Edvaldo precisa do microfone de Vinícius, parece que cortaram o som. A gratidão política entrou em modo silencioso e foi prestigiar outro salão.

Joaquim da Janelinha dispensou marqueteiro e transformou o próprio apelido em programa de governo. Quando Edvaldo precisou de luz, Janelinha fechou a janela, baixou a persiana e fingiu que não havia ninguém batendo. Dos três vereadores, só Fábio Meireles lembrou que convenção partidária não é chá de bebê: o comparecimento de quem pertence ao partido deveria ser um pouco menos facultativo.

A nominata para deputado federal completou o espetáculo: Bagadal, Beatriz Andrade, Bruna Teles, Caju, Estefanni Cellina, Galo, Nalldo Amaro, Vagner Gastão e Pastora Tânia Carvalho. São histórias pessoais respeitáveis, mas eleição federal não é concurso de simpatia, retiro espiritual nem rifa beneficente. Exige voto, estrutura e presença estadual. Alguns candidatos chegaram tão desconhecidos que talvez tenham precisado se apresentar uns aos outros antes de subir ao palco.

Os números anteriores mostram o tamanho da missão. Bagadal recebeu 1.042 votos para federal em 2022; Vagner Gastão, 1.445; Beatriz Andrade teve 115 votos para vereadora em 2020; e Estefanni Cellina somou 323 votos em Simão Dias, em 2024. Ninguém está condenado a repetir votação passada, mas também não se pode apresentar uma calculadora de bolso como se fosse uma usina eleitoral. Para eleger um deputado, o PDT precisará multiplicar votos, pães, peixes e, se sobrar tempo, militantes.

Edvaldo levou como suplentes Joaquim Ferreira e Geraldo Teixeira. Joaquim é empresário e engenheiro com atuação nos setores de petróleo, gás e energia. Ou seja: entende de combustível, justamente o que faltou ao PDT na largada. Geraldo Teixeira atua nos setores automobilístico, de combustíveis e comunicação. Talvez tenha sido escolhido por experiência prática: alguém precisará rebocar a legenda caso ela permaneça estacionada no acostamento.

A parte mais dolorosa é que Edvaldo não é pequeno. Foi prefeito várias vezes, tem experiência, obras, história e conhecimento administrativo. O problema é justamente esse: Edvaldo parecia maior do que o palco, maior do que a nominata e maior do que o PDT sergipano. Era um candidato ao Senado carregando sozinho um partido que chegou atrasado à própria candidatura.

Laércio Oliveira apareceu e declarou apoio por gratidão à lealdade de Edvaldo em 2022. Foi um gesto bonito, mas também revelador: o apoio mais caloroso veio de fora do PDT. Laércio levou gratidão; os vereadores pedetistas mandaram expectativa. No fim, o Cotinguiba não homologou apenas uma candidatura. Homologou uma saudade. Vinícius preferiu outro salão, Janelinha fechou a janela, a chapa federal apresentou mais fé do que votos conhecidos e o velho PDT, que um dia rugiu para o Brasil, terminou falando baixo para não acordar as cadeiras vazias.

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