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Do suor à revolta. Jorge Júnior revela o que é fazer futebol no interior

Fazer futebol no interior de Sergipe não é esporte, não. É quase um milagre do Velho Chico. Quem conhece Propriá sabe bem disso. Ali, na beira do Rio São Francisco, o futebol nasce mais na raça do que no dinheiro. Não tem patrocínio milionário, não tem televisão disputando direito de transmissão, não tem estrutura de clube grande. Tem é teimosia, paixão e aquele orgulho típico do ribeirinho que não gosta de ver sua camisa sumir do mapa. Foi nesse cenário que Jorge Júnior pegou o América de Propriá praticamente sem nada e levou o time de volta para a primeira divisão do futebol sergipano. Isso não é pouca coisa, não. Isso é coisa de quem tem coragem e cabeça dura do jeito que o interior respeita.

O América fez um campeonato bonito de ver. Jogou com dignidade, brigou em campo e mostrou que time do interior também sabe jogar bola. Enquanto alguns clubes vivem de orçamento e estrutura, o América viveu de organização e vontade. Fora das quatro linhas a luta era grande. Era correr atrás de jogador, pagar conta, arrumar transporte, resolver problema de campo e ainda ouvir crítica de quem nunca levantou um cone de treino. Mesmo assim o time fez campanha de gente grande.

Mas o desabafo de Jorge Júnior veio pesado, daquele jeito que só quem está cansado fala. Ele soltou o verbo contra o Tribunal de Justiça Desportiva de Sergipe e disse que as decisões não estavam sendo iguais para todos. Segundo ele, algumas punições aplicadas ao América foram bem mais duras do que aquelas dadas a outros clubes em situações parecidas. E quando dirigente de interior sente injustiça, meu amigo, não tem discurso bonito que segure.

E Jorge falou do jeito dele, sem rodeio, do jeito que o povo de Propriá entende. “A gente cansa. O futebol sergipano está perdendo um cara honesto, porque eu vou sair, eu vou me desligar, porque eu estou cansado. Eu estou fora, eu estou me desligando, porque o futebol sergipano não merece um cara que nem eu, não. Um cara que trabalha de noite pra tentar montar time bom com dinheiro limitado, sem ajuda de poder público nenhum, pra dar conta dois anos na Série B. O futebol sergipano não merece não.”

E ele ainda detalhou o motivo da bronca. “O Tribunal é um circo. Eu estou repetindo aqui que o Tribunal de Sergipe é um circo. Na estreia América e Sergipe, a torcida do Sergipe jogou uma latinha no campo e o América foi punido com dois mil reais de multa, sendo que o ato relatou na súmula que foi vindo da torcida do Sergipe. Quando foi um julgamento do Confiança, foi identificado três arremessos de objeto. O tribunal deu cem reais para cada objeto. Trezentos reais de multa. O América, por causa da torcida do Sergipe, pagou dois mil. É uma tremenda sacanagem.”

Propriá sempre teve história no futebol sergipano. O próprio América já levantou o título estadual em 2007, provando que cidade do interior também sabe ganhar campeonato. E quem acompanha futebol lembra também do antigo Propriá Esporte Clube, que marcou época no Estado. O talento sempre existiu ali na beira do São Francisco. O que muitas vezes faltou foi apoio, estrutura e incentivo para a juventude da cidade.

No meio de tudo isso, Jorge Júnior virou quase um símbolo de resistência. Um dirigente que pegou um clube sem dinheiro e colocou o América de Propriá de volta na elite. E diga se de passagem, o homem vive com o coração na boca de tanto nervoso. Quem conhece Jorge até brinca dizendo para ele se cuidar, porque com tanta discussão de arbitragem, tribunal e bastidor do futebol, qualquer dia o cabra arranja um infarto ali na beira do rio. Mas a verdade é que o futebol sergipano precisa de gente assim. Gente que não baixa a cabeça, que briga pelo clube e que não aceita ver o interior tratado como figurante dentro do próprio campeonato.

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