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Editorial: A pressa é inimiga da costura e amiga do desconforto

Os veteranos do tabuleiro perceberam o risco antes mesmo de a primeira peça tocar o feltro. Política, afinal, não é jogo de botão nem largada de Fórmula 1. Ulisses Andrade e Luiz Mitidieri, formados na escola dura da política sergipana, sabem que antecipação excessiva cobra juros altos, sem carência e sem possibilidade de renegociação. Reinaldo Moura também sabia. E talvez soubesse melhor do que todos. Jogador experiente, estrategista de bastidor, desses que enxergam o tabuleiro inteiro sem precisar levantar da cadeira. Hoje, em outro plano, observa tudo com a serenidade de quem já assistiu a esse filme dezenas de vezes e conhece o final antes mesmo do trailer. Não há espanto, nem ansiedade. Apenas aquela calma clássica de quem entende que política é maratona longa, cheia de desvios, e nunca sprint de largada.


A exceção ficou por conta do entorno de Alessandro Vieira. Seu pai, fora da vida política, não faz essa leitura prévia do jogo e acabou deixando o filho sem esse mapa invisível que só a experiência oferece. Não por falta de inteligência ou boa fé, mas por não carregar no corpo as cicatrizes que a política imprime em quem vive dela por décadas. E, na política, experiência não é detalhe biográfico. É equipamento de segurança. Enquanto uns já sabiam exatamente onde o chão rangia, outros ainda testavam o piso. Em Sergipe, essa diferença aparece cedo e quase nunca perdoa.

A escolha do vice foi um gesto cirúrgico. Jefferson Andrade é desses nomes que não precisam de holofote para ocupar espaço. Transita com naturalidade entre o eleitor comum, as lideranças políticas, os tribunais e os bastidores institucionais, como quem conhece todos os atalhos sem precisar anunciar o caminho. Fala pouco, escuta muito, incomoda ninguém. Num ambiente político barulhento, Jefferson funciona como aquele silêncio estratégico que acalma a sala. Foi, sem exagero, uma das decisões mais acertadas do governador.

O primeiro movimento do governador, ao declarar ainda em junho o nome de André Moura como seu candidato ao Senado, foi, na essência, um acerto. Do ponto de vista da política real, aquela que se faz longe de frases de efeito e discursos instagramáveis, a escolha se explica sozinha. André conhece Brasília como quem conhece o próprio endereço. Sabe onde estão as portas, quem segura as chaves e quanto tempo cada engrenagem leva para girar. Não constrói política de frase curta nem de gesto performático. Opera no terreno do resultado, da articulação coletiva e da soma de forças. É daqueles quadros que dispensam apresentação longa, porque a própria trajetória faz o papel da biografia.

Talvez exatamente por isso o anúncio tenha provocado mais inquietação do que comemoração em alguns setores. André não ocupa espaço por acaso. Onde chega, organiza. Onde organiza, naturalmente redefine hierarquias. E isso, em política, nunca é neutro nem silencioso. Ao afirmar com clareza que André seria seu candidato titular ao Senado, o governador fez um gesto de segurança. O ponto sensível não foi a decisão, mas o momento. Antecipar demais a definição fez com que tensões que normalmente amadurecem em silêncio viessem à tona cedo demais, aparecendo nos bastidores, nas conversas reservadas e até nos sorrisos cuidadosamente ensaiados para a foto oficial.

A partir daí, a tentativa de acomodar Alessandro Vieira como segundo nome escancarou um contraste de estilos impossível de disfarçar. Alessandro construiu sua trajetória numa política mais individual, quase ascética, baseada na independência pessoal e no distanciamento estratégico. É uma postura respeitável do ponto de vista individual, mas que encontra limites claros quando o jogo exige articulação ampla, pedido de voto compartilhado e caminhada conjunta. Política majoritária não se faz em linha reta nem em silêncio prolongado. Exige presença, gesto e disposição real para dividir o palco e, principalmente, o microfone.

As imagens públicas que tentaram vender unidade falaram mais do que qualquer nota oficial. Sorrisos contidos, corpos rigidamente posicionados, olhares que raramente se cruzavam. Não era encenação de harmonia, era fotografia protocolar. E a política sergipana, calejada como é, sabe ler linguagem corporal melhor do que muitos analistas. Leu. E entendeu tudo.

Nesse ambiente, ganhou corpo o movimento articulado por Edvaldo Nogueira, político de leitura refinada e senso de oportunidade calibrado pelo tempo. Edvaldo ouviu, conversou e lembrou uma regra antiga da política sergipana que muitos fingem esquecer: chapa é uma coisa; candidatos formalmente apresentados podem ser vários. Não há contradição nisso. Há cálculo. André Moura ouviu, dialogou e reagiu com uma marca que o acompanha há anos: disposição para construir mesmo quando não precisa provar nada a ninguém. No mesmo tabuleiro, Alessandro Vieira seguiu fiel ao próprio método. Pouco diálogo, raras conversas, nenhuma iniciativa visível de costura política mais ampla. Vive a política como quem atravessa o deserto sozinho, convencido de que a coerência pessoal basta. É legítimo. Mas cobra preço alto quando o jogo exige soma, presença e articulação coletiva. Enquanto alguns constroem pontes, outros preferem o silêncio, e silêncio, em eleição majoritária, raramente constrói maioria.

Enquanto isso, André Moura segue fazendo o que sempre fez melhor. Bastidor, articulação, agenda silenciosa e trânsito livre nos centros de decisão. Não precisa aparecer todos os dias porque seu trabalho aparece quando o recurso chega, quando a porta se abre, quando o Estado avança. Alessandro, fiel ao próprio estilo, segue mais reservado, distante, quase invisível, como se o silêncio absoluto também fosse estratégia suficiente numa disputa que exige contato permanente. São escolhas legítimas. Mas Sergipe, no fim das contas, não escolhe estilo. Escolhe resultado.

Cabe agora ao governador administrar os efeitos naturais de uma definição antecipada. Para isso, a experiência do pai, Luiz Mitidieri, tende a ser decisiva para alinhar discurso e prática. Porque unidade não se decreta, nem se resolve com fotografia bem enquadrada. Unidade se constrói. E construção política exige mais do que boa vontade, release e pose de campanha.

O tempo, dizem, ainda trabalha a favor do governo. Muita água vai passar por baixo da ponte até a eleição e, para evitar confusão, não é da Iguá nem da Deso que está faltando em meio Estado. É água política mesmo, dessas que escorrem silenciosas pelo calendário. A lição, porém, já está dada. Em política, quem sabe esperar não se afoga na ansiedade e ainda preserva margem de manobra. E quem sabe articular quase sempre chega primeiro, enquanto os apressados seguem discutindo quem abriu a comporta cedo demais.

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