Imagine acordar e encontrar seu nome, mais uma vez, associado a R$ 240 mil apreendidos com outra pessoa. A notícia passa da manchete ao comentário de rádio, chega aos grupos de mensagens e alcança sua família antes mesmo do café. André David vê setores da imprensa alinhados ao governo repetirem a ligação entre sua cunhada, uma empresa investigada e os contratos da Educação de Aracaju. A investigação é necessária; a exposição diária de um candidato exige o mesmo cuidado com os fatos. Qual ato de André o liga ao dinheiro? Até que essa pergunta tenha resposta, repetir seu nome ao lado dos R$ 240 mil pode macular uma reputação sem esclarecer o caso. O CPF da cunhada não é o dele.
André poderia ter se calado diante da pressão. Escolheu enfrentar publicamente a condução de uma investigação feita pela instituição à qual pertence. É uma decisão difícil para qualquer delegado e ainda mais para quem vê a própria família arrastada para o debate eleitoral. Ele afirmou que a BK Telecom sacou e mandou entregar o dinheiro ao ex-servidor e cobrou o nome de quem o transportou. São perguntas de investigador: de qual conta saiu o valor, por quais mãos passou e por que foi entregue? O que André disse precisa ser conferido, assim como a polícia precisa esclarecer o caminho dos R$ 240 mil. Enquanto isso, cada veículo que publicar a associação deve ter o cuidado de dizer ao leitor o que sabe, o que ainda investiga e o que não pode atribuir a André David.
O governador Fábio Mitidieri ouviu a denúncia de possível perseguição e respondeu: “Eu sou político, eu não sou polícia”. Fez ouvido de mercador para as perguntas incômodas, mas não se absteve de opinar: defendeu a operação e rejeitou a hipótese de uso político da investigação. Se diz que não lhe cabe interferir, com que elementos descarta a preocupação levantada por André David? Ninguém pede ao governador que conduza o inquérito. Pede-se que reconheça algo simples: defender a autonomia da Polícia Civil inclui admitir o exame de sua atuação. André cobrou o caminho dos R$ 240 mil e questionou a forma como seu nome entrou no debate público. Essas perguntas não desrespeitam a polícia. Merecem resposta.
O delegado-geral Thiago Leandro tentou convencer os sergipanos de que a Polícia Civil age com independência e não escolhe alvos políticos. Sua palavra merece atenção, mas não basta para dissipar a inquietação de quem vê André David e sua família expostos em plena campanha. Há um dado político impossível de ignorar: André aparece entre os nomes mais fortes na disputa pelo Senado. Quando um candidato cresce nas pesquisas, cada manchete sobre ele ganha alcance e cada insinuação pode pesar na urna. Isso não prova perseguição, mas torna ainda mais necessária uma explicação convincente. Afinal, se uma declaração bastasse para encerrar toda dúvida, entrevista coletiva viraria perícia e microfone passaria a servir de carimbo.
André David não se encolheu diante das suspeitas lançadas sobre seu nome. Partiu para cima, cobrou explicações e acusou o delegado Dernival Eloy de prevaricação. É uma acusação grave, que terá de ser examinada com provas, mas sua atitude deixa claro que ele não pretende fugir das perguntas difíceis. A mesma exigência de prova deve valer para quem insinua sua participação nos fatos investigados. André não pode ser condenado por ser cunhado de alguém. Verdade se apura identificando atos e responsáveis, não escolhendo um sobrenome para ocupar a manchete.
Laércio Oliveira elevou a temperatura ao dizer que o “sistema político” tentou destruir André. A palavra mobiliza, mas esconde os sujeitos da frase. Se o senador que no ato usava o boné do 55 (leia-se Fábio Mitiidieri)conhece pessoas ou atos destinados a atingir a candidatura, deve dizer quais são e apresentar o que sabe. Isso ganha relevância porque Laércio apoia também a reeleição de Mitidieri. O eleitor consegue entender alianças diferentes numa mesma eleição; o que não pode fazer é identificar responsáveis por uma acusação que ficou sem nomes. “Sistema” é uma denúncia incompleta enquanto ninguém explicar quem fez o quê.
Valmir de Francisquinho ouviu essa palavra a partir de sua própria história. Em 2022, recebeu 457.922 votos no primeiro turno para governador, mas teve o registro indeferido e os votos considerados nulos. Neste mês, o STJ restabeleceu a improcedência da ação sobre o matadouro de Itabaiana por falta de demonstração de dolo ou prejuízo efetivo. São processos e momentos diferentes; a decisão recente não altera automaticamente o que ocorreu naquela eleição. Ajuda, contudo, a entender por que Valmir vê perigo quando uma disputa política passa a girar em torno de uma controvérsia judicial ainda aberta. Para quem já sentiu o peso disso sobre a própria candidatura, “esperar o processo terminar” pode soar como esperar a urna fechar.
Sergipe conhece uma história ainda mais dolorosa. O ex-prefeito de Lagarto Valmir Monteiro morreu em agosto de 2024. Em setembro daquele ano, uma decisão julgou improcedente, por falta de dolo, a ação cível de improbidade relativa ao matadouro do município. A decisão tardia merece ser descrita pelo que foi: um julgamento favorável naquele processo, depois da morte de quem passou anos sob acusação. Não prova que o caso de André seja igual, nem identifica uma conspiração comum. Mostra o custo humano de deixar a suspeita ocupar, por tempo demais, o lugar da conclusão. Uma reputação não recebe de volta os anos que perdeu.
Há uma razão política evidente para André atrair escrutínio: ele é competitivo. Levantamentos recentes o colocaram na liderança numérica da disputa ao Senado, embora a Quaest tenha apresentado um quadro apertado entre vários candidatos. É legítimo examinar com rigor quem pretende ocupar uma cadeira no Senado. É igualmente legítimo cobrar da imprensa que não trate a versão mais danosa ao candidato como conclusão pronta. Dizer que todos os veículos críticos agem a mando do governo, ou que André já possui os votos necessários para vencer, exigiria provas que as pesquisas não oferecem. Sua força eleitoral dispensa essa certeza fabricada.
A melhor defesa de André David está na resposta às perguntas que ele próprio trouxe à mesa. De onde saíram os R$ 240 mil? Quem fez o saque, quem entregou o valor e por quê? Qual a relação comprovada entre o dinheiro e os contratos investigados? Houve alguma divulgação seletiva destinada a atingir sua campanha? O governador pode defender a autonomia da polícia; Thiago Leandro pode defender a instituição; André pode contestar a investigação. Nenhuma dessas posições substitui a apuração. Se houve crime na Educação, seus autores devem responder. Se houve abuso contra um candidato, também. Antes disso, Sergipe merece conhecer o caminho do dinheiro, sem condenação por parentesco e sem a conveniência de um “sistema” que nunca apresenta o próprio nome.




