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Editorial: Em Sergipe, a placa chegou antes da prestação de contas

Domingo costuma dar ao sergipano algumas horas para respirar. Para a família que aguarda uma biópsia, uma cirurgia ou o início de um tratamento, porém, o calendário não oferece folga. É por ela que o governo Fábio Mitidieri deve ser cobrado. Sergipe inaugurou o Hospital do Câncer em dezembro de 2025 e tem o Hospital de Amor em Lagarto. O que ainda falta apresentar à população é uma visão completa da rede: quem atende cada paciente, em quanto tempo, com qual estrutura e a que custo.

Seria injusto chamar o hospital de Aracaju de prédio vazio. A Secretaria de Estado da Saúde contabilizou 25.463 atendimentos desde o início das atividades e informou o funcionamento da quimioterapia, de ambulatórios e de especialidades. O dado merece registro. Também merece uma pergunta que a cerimônia de inauguração não responde: quantos leitos de internação estão abertos, quantas cirurgias e sessões de radioterapia ocorrem dentro da unidade e quando todos os serviços anunciados estarão disponíveis? Atendimento acumulado é notícia; operação integral exige outra prestação de contas.  

A conta pública também precisa sair do palco e entrar na planilha. Conforme os valores reunidos nesta apuração, a construção do hospital de Aracaju recebeu mais de R$ 170 milhões, enquanto a proposta vencedora da parceria para sua operação traz R$ 26,577 milhões mensais como valor de referência. Isso não prova que tal quantia já esteja sendo paga a cada mês. Prova que o governo deve publicar o contrato, as etapas de ativação, os valores efetivamente desembolsados e os serviços correspondentes. O contribuinte consegue compreender uma obra cara. O que não deve ser obrigado a decifrar é uma fatura escondida atrás de uma fotografia com fita inaugural.

Em Lagarto, a pergunta é ainda mais direta: quanto o Tesouro estadual paga, mês a mês, ao Hospital de Amor? O levantamento apresentado não encontrou um demonstrativo atualizado que permita cravar esse valor. Há financiamento federal e uma pactuação interestadual; nenhuma dessas informações autoriza lançar a conta inteira no colo do Estado ou anunciar como gasto estadual um repasse da União. Cabe à Secretaria da Saúde mostrar instrumentos, empenhos, liquidações e pagamentos, separando a origem de cada real. Para divulgar a inauguração, a administração conhece o endereço da imprensa. Para divulgar a despesa mensal, precisa conhecer também o caminho da transparência.

A outra conta é medida em tempo. Não foi localizado um número público, atual e consolidado de pacientes com câncer esperando em cada etapa da assistência em Sergipe. Uma única “fila do câncer”, aliás, esconderia problemas diferentes: espera por diagnóstico, primeira consulta, cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. O governo precisa publicar essas filas por procedimento, unidade e tempo de espera, sem expor a identidade dos pacientes. Só assim será possível verificar onde a rede absorve a demanda e onde o tratamento chega tarde. Sem esses dados, qualquer gestor pode comemorar o total de atendimentos sem mostrar quem continua à espera.

Na oncologia infantil, a exigência é ainda mais urgente. Em outubro de 2025, o próprio Estado informou que o Huse, então apontado como a única unidade habilitada para oncologia pediátrica em Sergipe, cuidava de cerca de 80 crianças em tratamento e acompanhava outras 100. Elas estavam sendo assistidas: esses números não são uma fila e tampouco descrevem, por si, a situação de setembro de 2026. A pergunta de hoje é quantas crianças aguardam avaliação, exame ou início de tratamento, qual é o prazo real e que parte da estrutura pediátrica anunciada para o novo hospital já atende pacientes. Pai e mãe não conseguem marcar a consulta do filho com uma perspectiva de expansão gradual. 

Planejamento em saúde não é apenas erguer duas estruturas e confiar que os pacientes encontrarão a porta certa. É prever a demanda, organizar o encaminhamento entre Lagarto, Aracaju e o Huse, financiar cada serviço e acompanhar o percurso de quem recebeu um diagnóstico. O governo tem o direito de apresentar os avanços que ocorreram; tem o dever de mostrar o que ainda falta. Quando faltam números públicos sobre pagamentos, capacidade ativa e espera, não se pode afirmar que toda a rede fracassou. Pode-se afirmar, com segurança, que a população está sendo privada dos dados necessários para julgá-la.

Fábio Mitidieri deveria aproveitar o próximo domingo para publicar menos solenidades e mais respostas: o gasto mensal efetivo com cada unidade, os serviços em operação, o cronograma dos que faltam e a espera em cada fase do cuidado, especialmente para crianças. Se os indicadores forem bons, o governo terá o que mostrar. Se forem ruins, saberá onde agir. Para o paciente, essa distinção vale mais que qualquer disputa de propaganda. A placa já foi inaugurada; agora é a vez de entregar a conta, o prazo e o tratamento.

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