A população de Gararu recebeu de Brasília uma cena que parecia piada pronta, mas que terminou virando pergunta séria. A enorme comitiva da prefeita Zete de Janjão foi à Marcha dos Prefeitos, entrou no elevador, gravou vídeo, brincou, riu, viralizou e, no meio da resenha, surgiu o famoso “pum” que tomou conta das redes. Até aí, vá lá. Todo mundo ri, manda no grupo, faz meme e segue a vida. O problema é que, depois da risada, fica uma pergunta pairando no ar, mais forte que o “pum” do elevador: quem pagou essa brincadeira toda em Brasília?
A Marcha dos Prefeitos é um evento importante, ninguém discute isso. Prefeito vai a Brasília para buscar recurso, defender pauta municipal, conversar com ministério, cobrar obra, destravar convênio e tentar trazer alguma coisa concreta para o povo. O que chama atenção é quando a viagem começa a parecer excursão política com crachá de autoridade. Prefeita, vice, secretários, vereadores, assessores e companhia limitada. Daqui a pouco, se descuidar, levam até o rapaz do cafezinho dizendo que ele foi discutir pacto federativo com o garçom do hotel.
Gararu é terra de gente trabalhadora. É povo que acorda cedo, enfrenta sol, planta, cria, vende, pesca, faz queijo, pega estrada ruim, paga imposto e luta para botar comida dentro de casa. Enquanto muita gente está no batente, contando moeda, esperando consulta, cobrando estrada, remédio, água e serviço público funcionando, uma comitiva aparece em Brasília fazendo graça e dando “pum” em elevador. O povo pode até rir do vídeo, mas também tem o direito de perguntar: essa risada saiu do bolso de quem?
A prefeita Zete, que foi reeleita e tem responsabilidade dobrada com o município, deveria aproveitar o episódio para fazer o básico: abrir a conta. Quantas pessoas foram? Quem autorizou? Quem recebeu diária? Quem teve passagem paga? Quem ficou em hotel? Qual foi a agenda oficial de cada integrante? Que recurso foi conquistado? Que convênio foi destravado? Que benefício Gararu trouxe de volta na mala? Porque, se a viagem foi institucional, a explicação também precisa ser institucional. Se cada um pagou do próprio bolso, diga logo. Transparência, nesse caso, é melhor que perfume importado.
O pum do elevador virou piada, mas a prestação de contas não pode virar silêncio. Dinheiro público não é brinquedo, não é verba de passeio, não é cartão corporativo de turma animada. A Marcha é dos Prefeitos, não é marcha de farra, nem marcha de caravana turística, nem excursão escolar de adulto com diária e direito a “pum”. Se havia necessidade técnica para tanta gente, que se mostre. Se não havia, que se explique. Porque, em cidade pequena, cada real gasto fora precisa voltar em resultado dentro. O povo não quer só vídeo engraçado. Quer retorno.
No fim, o episódio de Gararu deixou duas cenas. A primeira é a do pum no elevador, que fez a internet gargalhar. A segunda é a do contribuinte, que olha para a comitiva, olha para a cidade, olha para os problemas e pensa: “eita, esse cheiro não vem só do elevador não”. O barulho que viralizou pode até ter sido o pum. Mas o que incomoda de verdade é o silêncio sobre a conta. Zete precisa responder. Gararu precisa saber. Porque brincar com peido é uma coisa. Brincar com dinheiro público é outra bem diferente.




