Fábio Mitidieri transformou a infraestrutura escolar numa das grandes vitrines de seu governo. E os números existem: até julho de 2026, a gestão anunciava 100 obras entregues na Educação, mais de R$ 267 milhões investidos e a repetida marca publicitária de uma obra a cada 12 dias. Antes disso, ao fim de 2025, eram 85 escolas reformadas, ampliadas ou modernizadas e 233 unidades climatizadas. É dinheiro público aplicado em algo necessário e seria desonesto negar a importância de uma escola digna. Só que surgiu em Sergipe uma perigosa confusão entre reconstruir escola e reconstruir educação. Parede nova é infraestrutura. Ar-condicionado é conforto. Quadra é equipamento. Laboratório é ferramenta. Educação de qualidade é outra coisa: criança alfabetizada, jovem dominando Português e Matemática, professor valorizado e aluno concluindo a escola sabendo aquilo que o diploma diz que ele sabe. O governo domina a engenharia da inauguração. O desafio agora é provar que domina a engenharia da aprendizagem.
O IDEB 2025, divulgado pelo Inep nesta semana, é o melhor antídoto contra qualquer tentativa de transformar propaganda em realidade absoluta. Sergipe chegou a 5,8 nos anos iniciais do ensino fundamental, enquanto o Brasil alcançou 6,3. Nos anos finais, marcou 4,8 contra 5,3 do país. No ensino médio, fez 4,3 enquanto a média brasileira chegou a 4,5. Houve avanço em relação a 2023 e isso precisa ser reconhecido, mas também é preciso terminar a frase: Sergipe continua abaixo da média nacional nas três etapas. Pelas notas das 27 unidades da Federação, o estado fica aproximadamente em 22º nos anos iniciais e empatado em torno da 20ª posição nos anos finais. Na rede pública estadual do ensino médio, Sergipe aparece em 17º, com IDEB 4,1. Portanto, o antigo “24º lugar” não deve ser vendido como classificação atual, embora tenha raízes em resultados anteriores extremamente ruins. A notícia verdadeira já é suficientemente incômoda: depois de todo o dinheiro, toda a propaganda e todas as inaugurações, Sergipe ainda olha para cima e encontra boa parte do Brasil à sua frente.
Mais preocupante é olhar para a porta de entrada da educação. Em 2023, apenas 31% das crianças sergipanas estavam alfabetizadas na idade certa até o 2º ano. Em 2024, foram 38%. Em 2025, o índice chegou a 50%. Crescer dezenove pontos percentuais em dois anos é relevante e deve ser registrado. Mas convém desligar por alguns minutos a máquina da comemoração: 50% também significa que aproximadamente metade das crianças avaliadas ainda não atingiu o padrão esperado de alfabetização na idade correta. A propaganda vê cinquenta por cento de vitória; uma política educacional ambiciosa deveria enxergar cinquenta por cento de urgência. Porque criança que não compreende adequadamente aquilo que lê começa a perder Matemática, Ciências, História e praticamente todas as disciplinas antes mesmo de entender por que está ficando para trás. Pode-se colocar ar-condicionado em todas as salas de Sergipe, mas ainda não inventaram aparelho capaz de climatizar analfabetismo ou refrigerar déficit de aprendizagem.
E nesse palco aparece o personagem que todo governo ama homenagear e nem sempre demonstra a mesma disposição para ouvir: o professor. O próprio governo informa que o docente com nível superior em início de carreira recebe R$ 5.774,72 em 2026, acima do piso nacional de R$ 5.130,63, e sustenta que iniciou em 2024 a retomada de uma carreira que estava congelada havia 16 anos. O problema está nos detalhes do contracheque e, principalmente, na relação com a categoria. Dentro daquela remuneração existe um abono temporário de R$ 532,57. O triênio tornou-se objeto de disputa prolongada. Gratificações foram parar em discussão administrativa e judicial. Em março de 2026, professores da rede estadual chegaram a uma greve, seguida de negociação sobre calendário de reposição, e agora, em agosto, o próprio Sintese volta a mencionar possibilidade de nova greve no segundo semestre. Isso não combina com a narrativa de uma relação pacificada com o magistério. Governo que precisa explicar reiteradamente como valoriza professor talvez devesse gastar um pouco mais de tempo perguntando aos próprios professores porque tantos deles não se sentem valorizados.
A contradição fica ainda maior quando se compara Sergipe com quem está na frente. No IDEB 2025, o Paraná alcançou 7,0 nos anos iniciais, 5,9 nos anos finais e 5,1 no ensino médio. O Ceará chegou a 6,8 e 5,7 nas duas etapas do fundamental. Goiás alcançou 6,5 nos anos iniciais, 5,7 nos finais e 4,8 no médio. Sergipe ficou em 5,8, 4,8 e 4,3. Não é uma diferença decorativa. São distâncias que representam milhares de crianças adquirindo, ou deixando de adquirir, competências essenciais. E aqui está talvez o maior defeito da comunicação governamental: comemora-se muito a comparação de Sergipe consigo mesmo e pouco a comparação de Sergipe com os melhores. Melhorar sobre uma base historicamente ruim é obrigação. A pergunta digna de um governo que pretende revolucionar a educação é outra: por que uma criança sergipana ainda tem resultados inferiores aos de uma criança matriculada em redes públicas que enfrentam problemas sociais tão complexos quanto os nossos? O governador deveria trocar por alguns minutos a tesoura da fita inaugural pela lupa sobre Ceará, Paraná, Goiás, Piauí e outras experiências que estão produzindo resultados superiores.
Sergipe precisa de uma operação educacional com prioridades muito menos instagramáveis. A primeira é alfabetizar praticamente todas as crianças na idade certa, e não aceitar 50% como ponto de chegada. A segunda é atacar violentamente as defasagens de Português e Matemática nos anos finais, exatamente onde o IDEB cai de 5,8 para 4,8. A terceira é acompanhar individualmente o estudante que não aprende, antes que ele simplesmente seja empurrado para a série seguinte carregando uma dívida pedagógica cada vez maior. A quarta é garantir que aprovação escolar signifique aprendizagem, porque o IDEB combina desempenho no Saeb e fluxo escolar; portanto, aumentar aprovação sem elevar conhecimento pode produzir um número mais bonito que a realidade. A quinta é transformar valorização docente em política permanente de carreira, formação, condições de trabalho e remuneração incorporada, e não depender eternamente de gratificações, abonos provisórios e mesas de negociação abertas em meio a paralisações. O IDEB não melhora por decreto e muito menos por release. Ele melhora dentro da sala de aula.
Também é preciso acabar com a religião do prédio novo como certificado automático de qualidade. As 100 obras entregues são positivas. Os mais de R$ 267 milhões empregados em infraestrutura são relevantes. As centenas de escolas climatizadas representam uma mudança concreta para alunos e professores que passaram anos estudando em condições inadequadas. Mas justamente porque tanto dinheiro foi gasto, a sociedade tem o direito de exigir a segunda parte da prestação de contas: quanto a aprendizagem aumentou em cada unidade reformada? Qual era o desempenho da escola antes da intervenção e qual é hoje? Quanto avançou Português? Quanto avançou Matemática? A escola integral produz resultado superior à escola parcial? Quanto caiu o abandono? Quantos estudantes terminam o ensino médio preparados para o Enem, universidade, ensino técnico ou mercado de trabalho? Sem responder a essas perguntas, o governo contabiliza o insumo e tenta apresentá-lo como resultado. É como um hospital anunciar quantas camas comprou sem dizer quantos pacientes conseguiu tratar.
Por isso, a discussão sobre a educação de Sergipe não comporta nem o discurso de terra arrasada nem o conto de fadas oficial. O IDEB 2025 mostra avanço real e, ao mesmo tempo, expõe o tamanho do caminho que falta. Sergipe melhorou, mas permanece abaixo da média brasileira nas três etapas. Chegou a 50% de alfabetização na idade certa, mas isso ainda significa aproximadamente uma em cada duas crianças fora do patamar desejável. O governo fez 100 obras educacionais, mas continua convivendo com um magistério que entrou em greve em 2026 e mantém disputas sobre carreira e direitos. Fábio Mitidieri pode inaugurar mais cem escolas e terá mérito por cada prédio público recuperado. Mas a maior escola que ele precisa reconstruir é invisível às câmeras: está na cabeça do aluno e na dignidade de quem ensina. Quando Sergipe estiver no pelotão da frente do IDEB, quando praticamente toda criança estiver alfabetizada na idade certa e quando professor não precisar chegar à porta do Palácio ou do Tribunal para discutir valorização, aí o governo poderá falar em revolução educacional. Até lá, é melhor baixar o volume da propaganda. Porque tinta seca rápido. Déficit de aprendizagem demora uma geração inteira para consertar.




