Antes de qualquer análise, faço uma declaração que, neste caso, não diminui minha independência jornalística, mas aumenta minha responsabilidade: os dois são meus amigos. Narcizo Machado é confrade e colega de uma estrada chamada jornalismo, profissão em que a gente aprende cedo que microfone aberto exige cabeça fria, café forte e, de preferência, pressão arterial sob controle. Elber Batalha é amigo e colega do Direito, dessa outra profissão em que ninguém entra numa discussão pretendendo perder. Conheço, portanto, dois homens inteligentes, experientes, combativos e perfeitamente humanos. E talvez seja justamente por conhecê-los que não consigo enxergar naquele episódio dois inimigos. Enxergo dois amigos que, por alguns minutos, deixaram a temperatura da conversa subir mais depressa do que o bom senso conseguiu acompanhar.
Elber é Elber. Quem acompanha a política sergipana sabe disso. Tem verbo forte, presença de tribuna, raciocínio rápido e uma certa vocação para colocar pimenta onde outras pessoas colocariam apenas sal. Faz oposição com intensidade, cobra, questiona, provoca e algumas vezes parece conversar já imaginando a réplica. É parte de sua personalidade pública. Narcizo também tem personalidade forte, embora exteriorizada de outra maneira. É um jornalista geralmente ponderado, experiente na condução de entrevistas e acostumado a ouvir versões contraditórias antes de formar sua análise. Pois naquele encontro aconteceu aquilo que acontece até nas melhores famílias: um colocou pimenta, o outro achou que tinham virado o pote inteiro e, quando perceberam, Hugo já estava quase assistindo à discussão como quem pede uma pipoca.
A frase sobre uma suposta “entrevista arrumada” atingiu Narcizo justamente no ponto em que qualquer jornalista sério sente mais profundamente: sua credibilidade. Era natural que reagisse. Talvez não fosse necessário encerrar a ligação naquele instante, assim como talvez Elber pudesse ter escolhido uma expressão menos pesada para reclamar da condução da entrevista. Mas estamos falando de segundos, não de biografias inteiras. Um homem não pode ser julgado por sua carreira inteira a partir de um momento de irritação, assim como outro não deve ser transformado em vilão porque falou além da conta. Se cada sergipano fosse condenado para sempre por tudo aquilo que disse de cabeça quente, precisaríamos construir um fórum novo só para julgar almoço de família, discussão de condomínio e grupo de WhatsApp.
E há um elemento que merece ser valorizado. Segundo o que foi posteriormente relatado, Narcizo reconheceu que poderia ter conduzido aquele momento de outra maneira, pediu desculpas publicamente e deixou aberta a possibilidade para que Elber retorne ao programa quando desejar. Isso, para mim, diz muito mais sobre uma pessoa do que os segundos de irritação. Pedir desculpas não diminui ninguém. Ao contrário, exige uma coragem que às vezes falta justamente aos que vivem pregando coragem. E Elber, homem experiente, advogado acostumado ao contraditório e político que já atravessou muitas tempestades, também possui todos os instrumentos para compreender que uma divergência de alguns minutos não precisa apagar uma relação construída durante anos. Amizades maduras não são aquelas em que ninguém discute. São aquelas que sobrevivem à discussão.
Até porque, no meio dessa história toda, não podemos esquecer do nosso terceiro personagem, Hugo Esoj. Ele chegou ao programa para responder questionamentos importantes, tornou se o centro inicial da entrevista e, de repente, deve ter percebido que a discussão havia mudado de endereço. Por alguns minutos, Hugo deixou de ser o assunto e virou praticamente espectador. É uma das ironias deliciosas do rádio: alguém entra preparado para responder uma coisa, dois outros começam a discutir e, quando percebe, já ganhou intervalo comercial emocional. Mas o episódio não deve esconder o essencial. Hugo ainda deve responder ao que lhe foi perguntado, Elber tem direito de fiscalizar e Narcizo tem direito de questionar os dois. É exatamente dessa tensão civilizada que nasce o bom jornalismo.
E aqui entra você, sergipano, que ouviu, viu os cortes nas redes sociais, recebeu o vídeo três vezes no WhatsApp e provavelmente já escolheu um lado antes mesmo do café esfriar. Talvez seja uma boa ocasião para fazermos algo diferente: não escolher lado nenhum. Podemos reconhecer que Elber exagerou numa expressão, que Narcizo reagiu além do necessário naquele instante e que nenhum dos dois deixou de ser, por causa disso, o profissional respeitado que era na manhã anterior. Há até uma passagem bíblica que ajuda a colocar humanidade na discussão. Jesus, diante dos vendilhões no templo, também demonstrou indignação e virou mesas. Evidentemente não estou sugerindo que alguém vire a mesa da Fan FM, até porque o pessoal da administração certamente não gostaria. Estou apenas lembrando que até pessoas equilibradas têm momentos de indignação. O que nos define é aquilo que fazemos depois. Se Narcizo ofereceu novamente o microfone e Elber aceitar o gesto, talvez a melhor notícia dessa história ainda esteja por acontecer: dois homens inteligentes descobrindo que uma amizade vale muito mais do que alguns minutos ruins de rádio. E Sergipe, que adora uma boa briga, talvez descubra que uma boa reconciliação também rende uma excelente audiência.




