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Editorial: PSD em Sergipe: quando a força do governo enfrenta a matemática das urnas

O PSD de Sergipe entra no próximo ciclo eleitoral com um paradoxo clássico da política. É grande, é poderoso, governa o Estado, tem estrutura, tempo, vitrine e máquina. Mas, ao mesmo tempo, vive o risco real de encolher na Assembleia Legislativa. Partido forte não é sinônimo de bancada garantida. E eleição proporcional não tem memória afetiva. Tem conta fria.

Hoje, o PSD é o partido do governador Fábio Mitidieri, tem dois deputados federais e cinco deputados estaduais de peso. Um elenco respeitável, experiente, com sobrenomes conhecidos e musculatura eleitoral comprovada. O problema é que manter cinco cadeiras é muito mais difícil do que conquistá-las pela primeira vez. Ainda mais quando o principal puxador de votos sai do jogo.

O primeiro ponto dessa equação tem nome e sobrenome: Jefferson Andrade. Jefferson não foi apenas o mais votado do PSD. Ele foi o motor da legenda. Com 36.909 votos, praticamente se elegeu sozinho e carregou o partido nas costas. Não à toa, presidiu a Assembleia por dois mandatos e construiu uma liderança transversal, respeitada no interior, entre os pares e nas instituições. Judiciário, Ministério Público, forças de segurança, todos dialogam com Jefferson. Sua ida para a vice-governadoria, praticamente consolidada, é reconhecimento dessa força. Mas, eleitoralmente, deixa um buraco grande. Muito grande.

Depois dele vem Luciano Bispo, com 30.867 votos. Luciano é política em estado bruto. Não faz firula, não vende ilusão e entende uma regra básica que poucos aceitam: política não é soma, é divisão. Sabe repartir espaço, tratar aliados e administrar conflitos. Em Itabaiana, o jogo é simples e duro. Ou é Valmir, ou é Luciano. E Luciano tem território, voto fiel e trabalho contínuo. Vai para a reeleição como candidato sólido e com grandes chances de repetir ou até ampliar sua votação.

Na sequência aparece Maísa Mitidieri, com 28.174 votos. Maísa não é deputada de holofote. É deputada de conteúdo. Fala pouco, mas quando fala, pesa. Não entra em qualquer projeto, não embarca em aventura legislativa e construiu, nos bastidores da Assembleia, a fama de deputada técnica, criteriosa e respeitada. Seu perfil agrada a um eleitorado que valoriza seriedade e consistência. Vai à reeleição com base consolidada e tendência de crescimento.

Chegamos a Jorginho Araújo, com 23.854 votos. Aqui é preciso ir além dos números. Jorginho é inteligência política pura. Herdou não apenas o nome e sobrenome, mas a vocação. Vem de um clã respeitado, com trânsito histórico em diferentes grupos, e conhece profundamente os erros que não pode repetir. Quando seu pai, Jorge Araújo, se afastou da Assembleia para ocupar a Casa Civil em outro governo, pagou um preço eleitoral. Aprendeu. Não comete o mesmo erro duas vezes. Jorginho ampliou alianças, reatou laços e construiu um cabedal político mais robusto. A tendência é clara: crescimento para a casa dos 28 a 30 mil votos. É um nome que o PSD precisa preservar e valorizar.

Outro pilar é Adailton Martins, com 24.175 votos. Adailton é o político da palavra empenhada. Do tipo raro. Sim é sim, não é não. Não promete o que não pode cumprir e cumpre o que promete. Tem base sólida, sabe cuidar dos seus aliados, é trabalhador, presente e respeitado. Não vive de discurso inflamado, vive de resultado. É um deputado que cresce eleição após eleição porque constrói relação, não dependência. Sua reeleição é altamente provável.

Fora do núcleo eleito, aparecem figuras que mexem no tabuleiro. Sérgio Reis, com 23.499 votos, ficou suplente e tende a não disputar novamente, abrindo espaço para rearranjos em Lagarto, possivelmente com a entrada de Ibrahim Monteiro no PSD. Já Manuel Marcos, com 14.499 votos, deve migrar para a disputa federal, onde seu nome, trajetória médica e capilaridade social podem ajudar a chapa, mas não resolvem a conta estadual.

A partir desse ponto, a curva de votos despenca de forma preocupante. Danielzinho Cacetiro até surpreendeu positivamente para um estreante, sobretudo por vir do meio artístico e sem estrutura política tradicional, mas sua votação não alcança o patamar necessário para sustentar uma cadeira nem para ajudar, de forma decisiva, o coeficiente eleitoral da legenda. Já o delegado Fábio Pimentel, apesar do apelo natural que o discurso da segurança pública costuma ter, praticamente não entrou no jogo eleitoral, ficando muito distante de qualquer viabilidade competitiva. E é exatamente aí que reside o problema estrutural do PSD: um partido com nomes muito fortes no topo, mas com um vazio significativo na base da chapa, incapaz, hoje, de formar uma esteira de votos consistente que garanta a manutenção das cinco cadeiras na Assembleia.

O partido tem qualidade no topo, mas um vazio perigoso na base. Sem Jefferson Andrade e sem Sérgio Reis, a legenda perde musculatura para puxar um quinto nome. Hoje, com frieza matemática e sem torcida organizada, o PSD elegeria quatro deputados estaduais. Luciano Bispo, Jorginho Araújo, Maísa Mitidieri e Adailton Martins. O quinto dependeria de uma engenharia fina. Trazer novos nomes, herdar votos, costurar alianças ou correr o risco de perder espaço.

Eleição proporcional não perdoa soberba nem acomodações. O PSD continua forte, mas precisará jogar o jogo com inteligência, ampliar a chapa e entender que governo ajuda, mas não faz milagre sozinho. Quem subestimar essa equação pode acordar com menos cadeiras do que imagina. E na política, perder cadeira nunca é detalhe. É recado das urnas.

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