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Editorial: Ricardo Marques: o protagonista que entrou no roteiro errado

Ricardo Marques entrou na eleição de 2026 carregando algo que partido nenhum consegue comprar com fundo eleitoral: imagem pública. Jornalista conhecido, ex-vereador bem votado, vice-prefeito eleito de Aracaju e figura de trato fácil, construiu durante décadas uma relação direta com o sergipano. Entrou no PL para disputar o Governo. O problema é que, no meio do caminho, descobriu que uma coisa é ser candidato do partido; outra, bem diferente, é o partido ser candidato com você.

A primeira fissura apareceu ainda na convenção, quando Rodrigo Valadares deixou claro que a prioridade partidária não era a disputa pelo Governo, mas o Senado. Depois veio a questão do fundo eleitoral. Enquanto candidaturas ligadas ao comando estadual receberam cifras milionárias, Ricardo terminou com uma estrutura muito menor para uma campanha majoritária. Em política, discurso de união aceita poesia. Campanha para governador, porém, paga gráfica, combustível, equipe e televisão. E boleto não aceita abraço.

A partir daí, a crise perdeu a maquiagem. Cecília passou a falar publicamente sobre acordos descumpridos, isolamento e mudança de tratamento dentro do partido. Luizão Dona Trumpi também entrou em rota de colisão com Rodrigo e tornou públicas suas reclamações. Aquele PL que deveria aparecer na fotografia como uma tropa começou a lembrar reunião de condomínio depois de assembleia sobre garagem: todo mundo no mesmo prédio e quase ninguém disposto a pegar o mesmo elevador.

O episódio da visita de Flávio Bolsonaro a Sergipe tornou o desconforto visível. Cecília afirmou que Ricardo havia passado por uma “humilhação”. Rodrigo respondeu diante do público com a frase conciliadora: “O meu propósito é a união”. A cena resumiu perfeitamente a crise. Nos bastidores, acusação de isolamento. No microfone, abraço. A política possui essa extraordinária capacidade de transformar incêndio em fotografia de família durante o tempo necessário para o fotógrafo apertar o botão.

E então vieram os vices. Pastora Salete deixou a chapa e depois anunciou apoio a Valmir de Francisquinho. Érico Menezes, escolhido posteriormente, também renunciou às vésperas da eleição. Foram apresentadas razões pessoais e familiares, enquanto o episódio produziu consequências jurídicas imediatas para a candidatura. Ricardo passou, então, de candidato com dificuldades partidárias a candidato discutindo judicialmente a própria sobrevivência eleitoral.

Foi nesse ambiente que nasceu a live de Ricardo e Cecília. Não parecia apenas uma transmissão eleitoral. Parecia o depoimento público de alguém que decidiu abrir o diário de bordo depois de perceber que o navio fazia água. “A quem interessa ter tirado minha candidatura?”, perguntou Ricardo. Cecília apertou ainda mais o parafuso: “A quem interessa esta queda de Ricardo?” Em outra fala contundente, declarou: “Não vou servir de escada para um projeto que é de esquerda dentro do PL.”

São acusações políticas dos dois e precisam ser apresentadas exatamente assim. Até agora, não constituem prova de uma operação deliberada para retirar Ricardo da eleição. Mas, do ponto de vista político, revelam algo talvez ainda mais grave para o PL: o candidato ao Governo deixou de discutir apenas os adversários e passou a questionar publicamente quem deveria sustentá-lo.

Rodrigo apresenta uma versão diferente. Tem defendido a união partidária e rejeitado a narrativa de perseguição. Também houve divergência sobre o que havia sido prometido a Ricardo em estrutura e recursos. Eis o centro da crise: não existe apenas uma briga de egos. Existem versões incompatíveis sobre o próprio projeto eleitoral do PL em Sergipe.

É preciso cuidado. Ricardo negou, na própria live, que naquele momento houvesse articulação fechada com Valmir. Portanto, anunciar apoio seria atropelar o fato. Mas política também é feita de movimentos, pontes e circunstâncias. Pastora Salete migrou para Valmir. Emília Corrêa integra esse campo político. Ricardo rompeu com Emília, mas relações políticas não carregam certidão de óbito eterna. Na política, inimigos de quarta-feira podem dividir palanque no domingo, especialmente quando existe uma eleição no meio.

Há ainda a matemática. Ricardo vinha aparecendo distante dos dois primeiros colocados nas pesquisas. A crise da chapa tornou a decisão ainda mais dramática. Ele pode insistir judicialmente, afastar-se da disputa ou reconstruir sua posição em outro arranjo político. Nenhuma dessas alternativas deve ser apresentada como decisão tomada antes que ele próprio a anuncie.

A metáfora do filho pródigo surge quase naturalmente. Ricardo é religioso, tem vínculos antigos com figuras hoje posicionadas em outro campo e viu sua experiência no PL transformar-se numa sucessão de conflitos. Uma eventual reconciliação com Emília e aproximação com Valmir teria enorme simbolismo político. Mas parábola é parábola; notícia é notícia. E o jornalismo não pode escrever o último capítulo antes do personagem principal.

A frase que melhor resumiu a live talvez tenha sido outra: “Não vamos silenciar.” Depois de décadas narrando histórias diante das câmeras, Ricardo virou o centro da própria reportagem. E talvez esse seja o elemento mais humano de todo esse episódio. Ele entrou no PL acreditando que receberia um roteiro para disputar o Governo. Acabou descobrindo, da maneira mais dura, que na política alguns roteiros são alterados quando o filme já começou. Agora resta saber qual será o último ato. Se Ricardo insistirá na Justiça. Se encerrará a candidatura. Ou se atravessará a rua política e escreverá outra cena ao lado daqueles de quem se afastou. O protagonista ainda está no palco. Mas o roteiro, definitivamente, já não é o mesmo.

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