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Editorial: Rogério inventa um senador, mas ninguém encontra Bruno nas Ruas de Ará

Sergipe precisa conhecer o presente político que Rogério Carvalho colocou dentro da chapa: Bruno Costa Nunes, empresário sem mandato, votação anterior ou trajetória reconhecida nas lutas do estado. Ele apareceu de repente, como passageiro que desembarcou no Terminal do Mercado, perguntou onde ficava o Senado e ouviu de Rogério: “Pode subir, homi, seu lugar já está reservado”. Bruno ainda nem foi regulado pelo povo, mas já está a uma eventualidade de representar mais de dois milhões de sergipanos.

Paulo Lobo, petista de história e sergipano até na vírgula, cantou “Todo dia nas ruas de Ará”. Nessas ruas tem gente da terra, gente do mangue, trabalhador, beiju, conversa, mentira e verdade. Tem de tudo. Só não tem notícia de Bruno. Ninguém o viu no Mercado Antônio Franco, tomando vento na Atalaia, comprando amendoim no sinal ou reclamando do trânsito na Hermes Fontes. Se passou por Aracaju, foi tão ligeiro que nem o vendedor de castanha conseguiu oferecer o troco.

E opções locais não faltavam. Rogério poderia escolher Eliane Aquino, Ana Lúcia, Conceição Vieira, Uziel Rios, Clóvis Barbosa, Sílvio Santos, Candisse Carvalho, Camilo Daniel ou o próprio Paulo Lobo. Preferiu Bruno, apresentado por Geraldo Alckmin e definido pelo senador como uma “invenção do gabinete” do vice-presidente. A frase explica quase tudo: Bruno não brotou da militância petista, saiu da cartola de Brasília da pessoa que disse que Lula está querendo voltar a cena do crime. Rogério puxou o coelho, pregou uma estrela no peito e anunciou que Sergipe acabava de ganhar um possível senador.

E poderá ganhar mesmo. Se Rogério virar ministro, afastar-se, renunciar ou, Deus o livre, morrer durante o mandato, Bruno assume a cadeira. Terá gabinete, orçamento, assessores e poder de voto. Enquanto Igor Mangueira canta “tomando um sorvete, comendo um sushi, descobrindo Aracaju”, Bruno ganhou sua versão eleitoral: tomando cafezinho, seguindo o GPS, procurando a Atalaia e perguntando se Santo Antônio é bairro, igreja ou ponto turístico. O povo paga a festa, Rogério escolhe o padrinho e Bruno chega perguntando onde fica o casamento, mas já querendo sentar na cabeceira.

O endereço público associado à candidatura aumenta a comédia: Avenida Barão de Maruim, nº 704, sede estadual do PT. Trata-se de referência partidária de campanha, não comprovação pública de residência pessoal. Bruno realizou uma proeza imobiliária: antes de Sergipe descobrir onde ele vive, o partido já lhe ofereceu teto político. Desceu a Barão, procurou a João Pessoa, errou a Ivo do Prado, atravessou a Beira-Mar e terminou domiciliado na estrela. Se alguém perguntar por ele na portaria, a resposta pode ser: “O moço ainda está descobrindo Aracaju, mas deixe o recado que Rogério entrega”.

Bruno também afirma atuar há aproximadamente seis anos no comércio de grãos em Sergipe e apresenta-se como gestor-chefe da Nova Safra. Então mostre os armazéns, contratos, empregados, compradores e produtores que negociaram com ele. As pesquisas realizadas não localizaram empresa ou filial sergipana inequivocamente registrada em seu nome, e produtores consultados disseram desconhecer sua atuação. Isso não prova inexistência de negócios, mas exige documentação. Para plantar milho é preciso mostrar a terra; para colher o Senado, pelo visto, bastou semear amizade em Brasília.

Quando chegam os documentos judiciais, o riso fecha a conta. Segundo investigação da Mangue Jornalismo, Bruno firmou colaboração premiada com o Ministério Público de Minas Gerais e reconheceu participação em condutas relacionadas a delitos tributários, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e crimes contra a administração pública. O acordo menciona R$ 16.802.363,56 em tributos estaduais suprimidos. Nos anexos, ainda conforme a reportagem, ele teria utilizado o termo “laranjas” ao tratar da presença dos próprios pais em empresas. Bruno contesta essa interpretação e foi absolvido posteriormente porque a Justiça entendeu que os fatos já estavam abrangidos pela colaboração, impedindo nova punição. A absolvição deve ser respeitada, mas o acordo, os R$ 16,8 milhões e as declarações documentadas não podem ser escondidos debaixo do tapete eleitoral.

Agora, quem vai abrir a caixa-preta de Bruno e explicar como esse desconhecido desembarcou em Sergipe já com passagem reservada para o Senado? É preciso esclarecer a colaboração premiada, os R$ 16,8 milhões mencionados no acordo, os negócios atribuídos ao empresário e, principalmente, o vínculo real dele com o Estado. Transparência não pode servir apenas para vasculhar o armário do adversário e perder a chave quando a mala pertence ao aliado. Rogério inventou o suplente; agora o PT precisa apresentar o manual da invenção. Nem Igor Mangueira, nem Paulo Lobo, nem Sergipe conhecem Bruno. Desse jeito, os dois artistas ainda terão de compor o sucesso eleitoral: “Abre a caixa, Rogério, deixa o povo espiar; Bruno chegou senador sem ninguém o avistar. Cadê firma, cadê milho, cadê vínculo com Ará? Tem acordo de milhões, mas endereço é no PT de cá”. E o refrão já vem pronto: “Bruno, Bruno, apareça, saia desse GPS; quem quer falar por Sergipe tem que explicar quem é”.

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