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Editorial: Senado em Sergipe: duas vagas, muitos nomes e uma eleição sem dono

Senado em Sergipe é sempre eleição de faca afiada, sorriso largo e calculadora escondida no bolso. Em 2018, a política sergipana entrou achando que já conhecia o roteiro e saiu da apuração com cara de quem viu o garçom trazer a conta antes da sobremesa. Alessandro Vieira, tratado por muitos como segundo voto simpático, venceu a disputa com 474.449 votos. Rogério Carvalho ficou com a segunda vaga, com 300.247 votos. André Moura, Jackson Barreto, Valadares, Pastor Heleno e outros nomes fortes ficaram pelo caminho. Foi a eleição em que muita gente pediu voto para o delegado e depois descobriu que tinha ajudado a eleger o próprio concorrente.

A grande lição de 2018 foi simples: em eleição para o Senado, ninguém é figurante até a urna terminar de falar. Alessandro virou o fenômeno porque foi subestimado. Ganhou voto de adversários, simpatia de eleitores independentes e espaço no vácuo dos grandes grupos. Agora, em 2026, o jogo é outro. Alessandro não é mais novidade. É senador de mandato, com vitrine, desgaste, histórico e adversários mais atentos. Aquele voto de cortesia que recebeu em 2018 dificilmente será servido novamente. Na política, gentileza repetida vira suicídio eleitoral.

Rogério Carvalho também chega diferente. Em 2018, foi eleito dentro da força do PT e da identidade partidária. Agora, tenta a reeleição num ambiente mais complexo, com o PT dividido em sensibilidades internas, com Márcio Macedo como personagem relevante no tabuleiro e com o próprio Rogério tentando se encaixar no palanque governista depois de embates duros com o governo estadual que chamou de corrupto. O eleitor percebe essas curvas. Política permite reconciliação, claro. Mas quando o discurso dá cavalo de pau, sempre sobra alguém na plateia perguntando se o motorista estava sóbrio.

André Moura retorna ao jogo com um ativo que ninguém pode ignorar: experiência. Foi deputado federal, líder do governo no Congresso e conhece Brasília não pelo mapa turístico, mas pela porta dos fundos da articulação política. Em 2018, ficou perto, mas não entrou. Em 2026, aparece novamente como um nome de musculatura, grupo e lembrança. André tem o tipo de trajetória que pesa numa eleição de Senado: sabe falar com prefeito, com vereador, com liderança, com empresário e com eleitor de interior. Não é candidato de laboratório. É político de estrada.

Eduardo Amorim também aparece como nome competitivo e conhecido. Médico, ex-senador e ex-deputado federal, carrega recall, imagem pública consolidada e presença em pesquisas recentes. Em alguns levantamentos, surge colado aos primeiros colocados, dentro do bolo técnico que embolou a disputa. Eduardo tem uma vantagem importante: o eleitor sabe quem ele é. O desafio é transformar essa lembrança em voto atual, porque urna não aceita saudade como comprovante. Precisa de campanha, grupo, narrativa e presença.

Edvaldo Nogueira entra no cenário com perfil diferente. Ex-prefeito de Aracaju, carrega experiência administrativa, conhecimento da máquina pública e presença forte na capital. Seu desafio é ampliar essa lembrança para além do eleitorado aracajuano e se apresentar como nome estadual. Edvaldo é daqueles candidatos que não podem ser tratados como aventura. Tem história, tem gestão, tem aliados e tem adversários que sabem que ele não entra em disputa apenas para enfeitar debate.

Rodrigo Valadares vive uma situação delicada e interessante. Tem mandato federal, voz nacional, forte ligação com o bolsonarismo e espaço no PL. Mas enfrenta o desafio de reorganizar seu campo depois de afastamentos e choques com outros grupos da direita sergipana. Ser candidato ligado a Flávio Bolsonaro pode ajudar, mas Sergipe é pequeno demais para campanha feita só de bandeira nacional. Aqui o eleitor pergunta quem está com quem, quem rompeu com quem e quem ainda consegue entrar no interior sem precisar de GPS político. Seu maior erro foi o rompimento com o grupo de Valmir de Francisquinho, Edvan Amorim e Emília Corrêa.

Delegado André Davi aparece em pesquisas recentes com bom desempenho, mas também com uma mochila de ruídos políticos que já começa a pesar mais que colete em operação. O embate com o secretário de Segurança Pública, João Eloy, colocou o tema no centro da roda: Eloy afirmou que André “não entende nada de segurança pública”, disse que estaria disposto a debater dados com ele e ainda ironizou sua atuação, classificando-o como “cumpridor de papel” e “derrubador de porta”. A frase pegou porque é simples, dura e cruelmente radiofônica: transforma o debate técnico em bordão de feira livre. Nos bastidores da segurança pública, o incômodo não vem apenas de João Eloy; há também críticas e reservas vindas de nomes da própria área policial e política, como Katarina Feitoza, Danielle Garcia e Alessandro Vieira, embora as falas específicas localizadas em fontes abertas não permitam, com segurança, atribuir uma declaração direta e fechada a cada um neste ponto. O fato é que André Davi tem imagem, tem barulho e tem presença, mas precisa provar que sua candidatura ao Senado é mais do que confronto, manchete e vídeo de impacto. O eleitor gosta de coragem, mas Senado exige densidade, articulação, preparo institucional e capacidade de transformar discurso em política pública. Porque uma coisa é arrombar a porta da notícia; outra, bem diferente, é abrir a porta da confiança do eleitor e permanecer lá dentro sem quebrar a mobília.

Iran Barbosa representa o campo mais ideológico da disputa. Professor, ex-vereador, ex-deputado estadual e federal e nome ligado à esquerda programática, tem identidade política clara. Sua candidatura ao Senado pode cumprir papel de afirmação partidária e defesa de pauta, mas também gera cálculo interno: se disputasse deputado federal, poderia fortalecer uma legenda proporcional. Ao escolher o Senado, entra numa arena majoritária mais dura, onde estrutura, recall e alianças costumam pesar como mala cheia em rodoviária. Ainda assim, Iran fala com um eleitorado específico e organizado.

Coronel Rocha aparece como nome do PL e representante de uma direita mais disciplinada, de fala dura e discurso de ordem. Seu desafio é sair do nicho e ampliar alcance. Em eleição para o Senado, identidade ajuda, mas limite de bolha atrapalha. Já André David, Rodrigo Valadares e Rocha dividem parte do mesmo eleitorado de direita, o que pode produzir disputa interna por voto semelhante. É aquela velha cena: todo mundo quer sentar na mesma cadeira, mas a sala só tem duas vagas.

Comparando 2018 com 2026, a principal diferença é que ninguém quer repetir o erro de subestimar ninguém. Em 2018, Alessandro foi o voto surpresa que virou senador. Em 2026, há muitos nomes com alguma força e nenhum resultado carimbado. André Moura tem experiência e articulação. Eduardo Amorim tem recall e trajetória. Edvaldo tem gestão. Rogério tem mandato e PT. Alessandro tem história recente. Rodrigo tem bolsonarismo. André David tem exposição. Iran tem identidade programática. Rocha tem discurso de ordem. A eleição está aberta, embolada e perigosa para quem entrar de salto alto.

O eleitor sergipano, que não é bobo nem figurante, já viu esse filme antes. Sabe que pesquisa é fotografia, mas urna é julgamento. Sabe que aliança de hoje pode virar climão de amanhã. Sabe que candidato que parece grande pode murchar e candidato tratado como pequeno pode crescer feito milho em época de chuva. Em 2026, a disputa pelo Senado será menos sobre quem grita mais cedo e mais sobre quem consegue juntar voto, confiança, grupo e momento. Duas vagas parecem muito. Para tanto candidato com fome de mandato, parecem uma cadeira só.

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