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Editorial: Sergipe: o governador da torneira seca e o fantasma do racionamento

Imagine acordar às cinco da manhã para trabalhar e encontrar a torneira seca. Sem banho, sem café, sem água para cozinhar ou lavar a roupa das crianças. Essa é a aflição de famílias do 17 de Março, Santa Maria, Zona de Expansão, São Cristóvão e outras comunidades. E agora Fábio Mitidieri admite a possibilidade de racionamento na Grande Aracaju! O verão nem começou e a torneira já ameaça pedir férias. Meu amigo Pedrinho Barreto chama essa realidade de ‘governo da torneira seca’. É ironia política, mas a angústia de quem carrega baldes é real. Governar não é só inaugurar viaduto e posar para fotografia. É garantir água para viver.

A Barragem do Poxim, construída no governo Marcelo Déda e em operação desde 2013, deveria fortalecer a segurança hídrica da capital. Em 2015, Jackson Barreto falava em abastecimento protegido por 20 anos. Mas, em 19 de outubro, o reservatório registrava apenas 28,6% do volume útil, contra cerca de 88% um ano antes; notícias posteriores apontaram nível próximo de 26%. Não está vazio, mas o alerta é evidente. A estiagem pesa, sem dúvida. Só que a Grande Aracaju cresceu, surgiram bairros e condomínios. Quais obras acompanharam essa expansão? A chuva não assina contrato nem aparece por decreto. Planejamento, governador, deveria chegar antes da sede.

Sergipe conhece a importância de construir reservatórios: Jacarecica I e II, Jabiberi, Governador João Alves Filho, Governador Dionísio Machado e Poxim integram uma história de investimentos de várias administrações. O desafio é manter, modernizar e ampliar essa infraestrutura. Fábio Mitidieri não responde sozinho por décadas de deficiências, mas precisa responder pelo que fez durante seu governo. Quais adutoras foram modernizadas? Quanto se investiu em manutenção? Quais novos projetos têm financiamento assegurado? Se as soluções só aparecem quando o nível da água despenca, não é estratégia de longo prazo: é correr atrás do prejuízo com um balde na mão.

A concessão à Iguá acrescentou confusão à rotina de moradores de Aracaju, São Cristóvão e Barra dos Coqueiros, que relatam interrupções e demora no restabelecimento. Há famílias comprando água de caminhões-pipa para enfrentar o desabastecimento. Como ficam as faturas, a medição e as reclamações sobre eventuais cobranças indevidas? Cada caso exige verificação técnica, mas a orientação ao consumidor precisa ser clara. Iguá, Deso, governo estadual e agência reguladora possuem responsabilidades distintas; nenhuma delas pode servir de desculpa para um jogo de empurra. O cidadão não quer saber se a água usa crachá de concessionária ou de estatal. Quer vê-la saindo da torneira.

No sertão, a crise é ainda mais cruel. Canindé, Poço Redondo, Porto da Folha, Gararu e Monte Alegre conhecem os efeitos da estiagem sobre lavouras, rebanhos, trabalho e renda. Em Nossa Senhora de Lourdes, Propriá e outras cidades, as comunidades também precisam conhecer os riscos e os planos de abastecimento. Quem tem dinheiro compra água; quem não tem improvisa. Até condomínios recorrem a carros-pipa, mas é a família mais pobre que suporta o maior peso. O governo anuncia comitês, reuniões e monitoramento. Tudo necessário. Só falta explicar quantas casas recuperaram o abastecimento, que obras começarão e quando. Ata de reunião não mata a sede.

Enquanto a população economiza cada gota, o calendário oficial segue cheio de festas, eventos e inaugurações. O complexo viário Senadora Maria do Carmo teve etapas acompanhadas de anúncios e solenidades. Obras viárias e eventos podem ter utilidade pública, mas prioridades precisam ser discutidas. Experimente chegar de uma inauguração e não ter água para tomar banho! A propaganda não enche caixa-d’água, o discurso não lava panela e fita cortada não irriga plantação. O governo precisa demonstrar que a segurança hídrica recebe recursos, execução e atenção compatíveis com sua importância. Não adianta vender o café da manhã para comprar o almoço e descobrir à noite que nem água há para cozinhar.

Ministério Público estadual, Ministério Público de Contas, Tribunal de Contas e Agrese devem acompanhar preventivamente a situação. É hora de exigir níveis atualizados dos reservatórios, plano de contingência, metas para reduzir perdas, investimentos executados e fiscalização das obrigações da Iguá. Se houver rodízio, quais bairros serão atingidos? Como serão protegidos hospitais, escolas, idosos e comunidades vulneráveis? O Ministério Público Federal também pode atuar quando houver interesse federal. Não se trata de presumir culpa de gestores ou empresas, mas de apurar responsabilidades e evitar danos maiores. A fiscalização precisa entrar em campo antes de a última gota sair da caixa.

E você, sergipano, acha aceitável enfrentar o próximo verão sem saber se haverá água em casa? O governador não controla a chuva, mas controla decisões, investimentos e prioridades administrativas. Racionamento ainda é possibilidade, não medida decretada. Justamente por isso, a resposta não pode esperar a próxima crise. Fábio Mitidieri precisa apresentar prazos, recursos, responsáveis e resultados, em vez de depender apenas das explicações sobre o clima. ‘Governo da torneira seca’ pode incomodar o Palácio, mas deveria incomodar ainda mais uma família sem banho, comida ou higiene. Água não é favor de político nem publicidade de concessionária. Água é vida, saúde, dignidade e direito do povo sergipano.

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