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Editorial: Três candidatos, um governo e a matemática nervosa: Fábio, Valmir e Ricardo

A política sergipana estava em modo soneca. Durante meses, o governador Fábio Mitidieri repetia com serenidade quase zen que a oposição não tinha nome, não tinha rumo, não tinha candidato, não tinha nada além de vontade. Era um mantra confortável, quase terapêutico. Enquanto isso, a oposição parecia um grupo de WhatsApp discutindo quem vai levar o gelo para a festa que ainda nem tem data. Só que, como toda boa história política, bastou um documento, uma anotação, uma faísca para transformar cochicho em manchete.

A reportagem do Metrópoles caiu como tempero em panela já quente. Nas anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro, Sergipe apareceu desenhado no mapa do PL com a possibilidade de Ricardo Marques ao Governo e Rodrigo Valadares no eixo majoritário. O que era bastidor virou enredo. O que era hipótese virou pauta. E, de repente, a oposição que não existia começou a existir com RG e CPF eleitoral.

Rodrigo, que já vinha defendendo que Ricardo “foi eleito junto com Emília” e que, portanto, tinha legitimidade própria, resolveu trocar o discurso da inclusão pelo discurso do protagonismo. Não foi um gesto impulsivo de quem acordou inspirado, foi construção de meses. Viagens estratégicas, conversas alinhadas, silêncio calculado. Rodrigo pode até ser intenso, mas raramente é desatento. Se decidiu apostar, apostou com ficha alta. E política gosta de quem joga para ganhar, não de quem fica calculando medo.

No meio do furacão, Emília Corrêa tentou exercer o papel mais difícil da política, o de mediadora de egos. Tentou juntar grupo, apagar incêndio, aparar ruídos. A matemática da união, porém, às vezes resolve brincar com a lógica. Dois líderes fortes somados podem gerar força ou fricção. Ainda assim, Emília sai do episódio maior do que entrou, porque quem tenta unir quase sempre ganha respeito, mesmo quando a união não fecha no Excel eleitoral.

E então surge ele, o personagem que muitos já tinham declarado como rodapé de nota: Ricardo Marques. Durante semanas foi tratado como carta fora do baralho, nome esquecido na gaveta, lembrança de telejornal antigo. Só esqueceram que vinte anos como âncora não evaporam da memória coletiva. Em política, reconhecimento é capital. Quando o eleitor olha e sabe quem é, metade da campanha já foi feita. Chamaram de morto político. Ele preferiu reaparecer como protagonista. Política adora uma volta por cima bem ensaiada.

Enquanto isso, Valmir de Francisquinho recuperava elegibilidade e, com ela, reacendia um entusiasmo que não cabe em planilha. Valmir é aquele tipo de líder que lota praça com naturalidade e faz adversário suar antes mesmo do debate começar. Foi primeiro colocado no primeiro turno passado e isso não é detalhe, é dado. Podem questionar circunstâncias, mas não podem questionar densidade eleitoral. Hoje, ele continua sendo o nome mais popular da oposição, com recall que não depende de ensaio.

A ironia mais saborosa está na aritmética recente. Na última eleição com três candidatos competitivos, o governador terminou o primeiro turno em terceiro lugar. Só virou o jogo no segundo turno poque Valmir foi ficou inelegível. A política ensina que fragmentação pode gerar surpresa. Se 2026 repetir o cenário de três nomes fortes, ninguém entra na pista com vitória garantida. Máquina ajuda, mas não faz milagre quando a rejeição cresce e o entusiasmo do outro lado aumenta.

Rodrigo aposta que Ricardo pode capturar o eleitorado bolsonarista e levá-lo ao segundo turno. Valmir mantém base consolidada no interior e energia popular. O governador conta com estrutura e visibilidade. O roteiro que parecia previsível ganhou tensão de série política. A oposição que “não tinha nome” agora apresenta pelo menos dois, e dois que fazem barulho. Isso altera humor, altera discurso e altera cálculo.

No fim, a matemática eleitoral não se impressiona com discurso nem com cargo. Ela soma voto e testa resistência. E, olhando o cenário que se desenha, já há quem cogite um segundo turno entre Valmir de Francisquinho e Ricardo Marques, com o governador fora da rodada final. Valmir segue como o nome de maior densidade popular da oposição, enquanto Ricardo deixou de ser hipótese para se tornar possibilidade concreta. Em eleição majoritária, favoritismo é frágil. O voto contado é quem decide e a conta já começou a ser feita.

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