Eu honestamente não queria escrever sobre isso. Acordei às 4 da manhã com o nome de duas crianças martelando na cabeça. Escrevi um texto. Apaguei. Escrevi outro. Chorei no meio. Termino agora, às 22:43 horas, com o coração pesado e a obrigação profissional de não permitir que essa história seja reduzida a fofoca moral. Em Itumbiara, dentro da própria casa, dois meninos de 12 e 8 anos foram atingidos pelos disparos do pai. Um morreu quase imediatamente. O outro ainda foi socorrido, lutou, e depois também partiu. Em seguida, o pai tirou a própria vida. Não há metáfora que suavize isso. São dois quartos vazios. Dois pratos que não serão mais usados. Uma mãe que saiu de casa com filhos e voltou para o silêncio.
E o que mais dilacera não é apenas o ato, é o entorno. Antes dos tiros, mensagens públicas de afeto. Declarações de amor à família. Uma carta falando em crise conjugal e suposta traição. A internet acordou no dia seguinte dividida entre luto e tribunal. Como psicóloga, eu sei o que acontece quando o ego de alguém é estruturado sobre controle e posse e, de repente, sente que perdeu o domínio. Como mulher, eu sei o que é ver a dor feminina ser colocada sob suspeita enquanto o sangue ainda está no chão.
É preciso dizer com todas as letras e com todo o sentimento que o caso exige: isso é violência vicária. É quando o agressor atinge aquilo que a mulher mais ama para feri-la de maneira irreversível. O alvo simbólico é a mãe. As crianças viram instrumento. Isso não nasce do nada. Geralmente é precedido por sinais. Ciúme excessivo. Necessidade de controle. Dificuldade de aceitar frustração. A incapacidade de tolerar a ideia de não ser mais escolhido. Quando o amor é confundido com posse, qualquer ruptura vira ameaça existencial.
Sobre traição, que tanto ecoou nas redes, eu preciso ser honesta. Traição dói. Fere autoestima. Fere identidade. Fere orgulho. Em homens, muitas vezes está associada a impulsividade e busca de validação. Em mulheres, frequentemente aparece depois de um desgaste emocional profundo. Mas nada, absolutamente nada, transforma dor em autorização para matar. Adultos podem se separar. Podem se odiar. Podem se processar. O que não podem é usar filhos como campo de batalha.
O que mais me revolta é ler mulheres culpando essa mãe. Mulheres. Nós sabemos o que é viver sob expectativa, sob julgamento, sob vigilância. Sabemos o que é ter cada erro amplificado. E ainda assim repetimos a lógica que nos machuca. Perguntar o que ela fez, enquanto duas crianças foram assassinadas, é inverter a bússola moral. A pergunta correta é porque ele achou que tinha o direito de decidir quem viveria e quem morreria.
Às mulheres, eu falo com afeto e firmeza. Não ignorem sinais de controle. Não normalizem frases ameaçadoras. Não romantizem ciúme como prova de amor. Se perceberem escalada de hostilidade, procurem rede de apoio antes da ruptura definitiva. Proteção não é exagero. É estratégia de sobrevivência emocional e, às vezes, física.
Aos homens, eu digo algo que talvez nunca tenham ouvido com seriedade suficiente. Frustração não é humilhação irreversível. Rejeição não é sentença de desvalor. Procurem ajuda antes que a dor vire raiva e a raiva vire fantasia de punição. Terapia não diminui masculinidade. Pelo contrário, fortalece. A capacidade de suportar um não é um dos maiores sinais de maturidade psíquica.
E à sociedade, deixo um apelo que escrevo com a voz embargada. Parem de chamar isso de tragédia passional. Não é paixão. É violência. Parem de procurar justificativas emocionais para atos brutais. Enquanto romantizarmos o homem devastado e desconfiarmos da mulher que sobrevive, continuaremos acordando com manchetes que nos roubam o ar. Duas crianças morreram. Que ao menos a memória delas nos obrigue a amadurecer como comunidade. Porque nada é mais devastador do que perceber que o que matou não foi apenas um homem armado, mas uma cultura que ainda ensina que perder é pior do que destruir.




