Até sexta-feira, Emanuel Cacho estava nos braços políticos de Edvan Amorim, conversando com o grupo de oposição e deixando crescer a expectativa de que a Federação PSDB/Cidadania apoiaria Valmir de Francisquinho. As tratativas haviam avançado, o entendimento era apresentado como praticamente concluído e já se discutia até a participação da federação na composição política do bloco. Parecia faltar apenas a fotografia oficial. Então chegou a convenção, Suely Barreto apareceu ao lado de Cacho e o acordo evaporou. O homem que caminhava para apoiar Valmir reapareceu candidato ao Governo de Sergipe. Não houve transição. Houve teletransporte.
O que aconteceu entre a reunião de sexta-feira e a convenção? Essa é a pergunta que Emanuel Cacho ainda não respondeu de maneira convincente. Houve uma ordem da direção nacional do PSDB? O Cidadania vetou a aliança? Surgiu garantia de fundo eleitoral? Alguma condição imposta pelo grupo de Valmir desagradou à federação? Ou o PSDB concluiu que precisava lançar candidatura própria apenas para provar que ainda respira em Sergipe? A frase “a convenção é soberana” explica quem tomou formalmente a decisão, mas não revela o que mudou nos bastidores. Soberania partidária não é capa de invisibilidade. O eleitor tem o direito de saber o que ocorreu dentro da sala.
A mudança fica ainda mais intrigante porque, em 22 de julho, Cacho havia afirmado que precisaria de pelo menos R$ 15 milhões para enfrentar uma disputa polarizada. A polarização não desapareceu, Fábio Mitidieri e Valmir continuam no mesmo lugar e não houve anúncio público de que os milhões chegaram montados num tucano azul. Se não havia estrutura para concorrer numa terça-feira, como surgiu candidatura competitiva onze dias depois? O PSDB abriu o cofre, encontrou financiadores ou decidiu substituir dinheiro por esperança? Nem o segundo nome de Emanuel, Messias, deveria ser obrigado a operar tamanho milagre.
Existe, contudo, um detalhe importante. Em abril, a direção nacional do PSDB já havia apresentado Emanuel Cacho como pré-candidato ao governo e lhe entregado a presidência estadual da Federação PSDB/Cidadania. Isso indica que a candidatura própria não nasceu inteiramente na convenção. Ela já existia como projeto e, em algum momento, foi colocada de lado para negociar com Valmir. Depois voltou. A convenção pode ter apenas ressuscitado o plano original. Ainda assim, permanece a dúvida central: por que Cacho anunciou um entendimento praticamente fechado antes de possuir autorização definitiva para fechá-lo?
Emanuel Cacho desistiu de desistir, mas ainda precisa explicar por que desistiu do acordo. A candidatura é legítima, a convenção tinha autoridade para aprová-la e o PSDB possui o direito de disputar o governo. O que está em julgamento político é a coerência de quem pretende comandar Sergipe, mas não conseguiu manter por onze dias a direção que havia anunciado. Talvez exista uma razão forte, estratégica e perfeitamente compreensível. Talvez tenha ocorrido apenas uma imposição partidária. Enquanto Cacho não abrir a caixa-preta da mudança, o eleitor ficará diante da cena: na sexta-feira, conversa e aproximação com o grupo de Edvan Amorim; na convenção, candidatura própria. Entre uma imagem e outra, alguma coisa aconteceu. E, na política, quando ninguém explica o que aconteceu, a dúvida costuma fazer campanha sozinha.




