O servidor de Aracaju não pode ser transformado em avalista de uma conta que nasceu entre 2020 e 2024, muito antes de Emília Corrêa assumir a Prefeitura. E esse é o primeiro ponto que precisa sair da fumaça política: a atual gestão apresentou documentos ao sindicato, procurou o Ipesaúde desde março, formalizou tentativa de acordo em julho, enviou documentação em agosto e diz aceitar pagar integralmente, sem pedir um centavo de desconto, aquilo que reconhece como responsabilidade patronal do Município, solicitando apenas parcelamento. Mais importante ainda, os recolhimentos correntes vêm sendo realizados desde 2025. Portanto, se a Prefeitura está dizendo “pago o que é meu, parcelo o passivo e não quero prejudicar o servidor”, o mínimo que se espera do Ipesaúde e do Governo do Estado é sentar à mesa. Saúde pública assistencial não pode funcionar como financeira de shopping, onde primeiro se apresenta o carnê vencido e depois se pergunta se o cidadão está sentindo dor.
Há ainda uma ironia que merece estetoscópio político. O Ipesaúde é apresentado como um grande patrimônio do servidor, e realmente tem valor, rede própria, credenciados e importância assistencial. Mas patrimônio não é salvo conduto para impor qualquer condição. O próprio instituto informa que, nos convênios municipais, um beneficiário paga hoje R$ 117,99 na faixa inicial e chega a R$ 647,54 a partir dos 59 anos. É mais barato que boa parte do mercado privado, sem dúvida, mas não é milagre de multiplicação dos pães. Existe contribuição do beneficiário, existe participação patronal, existe estrutura financiada pelo poder público. O boleto pode parecer magro porque uma parte da conta aparece em outra gaveta. Portanto, apresentar o Ipesaúde como se o Governo estivesse oferecendo caridade aos servidores municipais é colocar auréola onde existe contabilidade.
E vamos aos números, porque propaganda costuma sofrer de alergia à calculadora. Em tabelas comerciais de referência divulgadas para 2026, que variam conforme produto, contratação e cobertura, a Unimed Sergipe aparece com plano individual em torno de R$ 191,68 para a faixa inicial e R$ 1.108,55 para pessoas com 59 anos ou mais, enquanto uma modalidade nacional é indicada em aproximadamente R$ 327,86 e R$ 1.896,21 nessas mesmas extremidades etárias. No Bradesco Saúde, tabelas comerciais simulativas para Sergipe indicam produtos empresariais com coparticipação partindo de cerca de R$ 325,21 e alcançando aproximadamente R$ 1.951,10 aos 59 anos ou mais, podendo custar muito mais em categorias superiores. A própria Bradesco confirma oficialmente que o preço dos contratos empresariais pode ser estruturado por faixa etária e depende das coberturas e condições contratadas. A GEAP possui produtos estaduais e nacionais, com e sem coparticipação, mas não existe uma mensalidade universal comparável porque o custeio varia conforme o órgão patrocinador e o convênio firmado. Ou seja, o Ipesaúde é competitivo no preço direto ao beneficiário, mas isso não autoriza ninguém a transformar vantagem econômica em instrumento de pressão política.
Aliás, se existe uma conta aproximada de R$ 14 milhões, como informou representante sindical, alguém precisa explicar com régua, lápis, extrato e responsabilidade de onde saiu cada centavo. Segundo o sindicato, algo entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões corresponderia à parcela municipal e outra fatia seria relacionada ao que deveria ter sido descontado dos servidores. É justamente aqui que Emília está correta em não assinar um cheque em branco. Prefeito não administra dinheiro de aniversário, administra recurso público. Se determinada parcela é juridicamente de responsabilidade do Município, paga-se. Se é responsabilidade individual do servidor, não se pode simplesmente empurrá-la para o Tesouro municipal porque politicamente ficou feio cobrar de milhares de trabalhadores. E se houve erro na origem da cobrança durante cinco anos, que se descubra quem errou, quanto errou e quem deve responder. O que não pode acontecer é o Governo encontrar o problema velho, embrulhá-lo para presente e mandar entregar na porta de uma prefeita que assumiu depois.
A postura de Emília Corrêa, até aqui, é institucionalmente mais sensata que o barulho produzido em torno dela. Ela não anunciou rompimento, não pediu abatimento da dívida reconhecida, não fechou a porta ao Ipesaúde e não mandou servidor procurar outro plano. Ao contrário, apresentou documentos ao Sepuma e colocou uma proposta de parcelamento sobre a mesa. O próprio presidente do sindicato municipal afirmou ter visto as tentativas formais de negociação e reconheceu a disposição da Prefeitura para construir uma saída. Enquanto isso, cerca de 10 mil servidores e dependentes continuam vinculados ao sistema e as novas adesões estão suspensas. O Governo do Estado e o Ipesaúde precisam decidir se querem resolver um problema de saúde ou ganhar uma queda de braço política. Porque queda de braço entre Palácio e Prefeitura é divertida para arquibancada partidária. Para quem precisa de cardiologista, oncologista, pediatra ou cirurgia, não tem graça nenhuma.
O caminho responsável é tão óbvio que quase constrange precisar escrevê-lo: renove se a assistência, preserve se o servidor, separe se o passivo histórico da obrigação corrente, audite se a dívida de 2020 a 2024, individualize se a responsabilidade patronal e a responsabilidade eventualmente atribuída ao beneficiário e cobre se de quem efetivamente deve. O que não se pode aceitar é transformar consulta médica em instrumento de cobrança e 10 mil vidas em fichas de negociação. Emília está certa ao dizer que paga aquilo que juridicamente pertence à Prefeitura e exige segurança para o restante. Agora cabe ao Ipesaúde abandonar a postura de balcão arrecadador e agir como aquilo que seu próprio nome promete ser: instituto de promoção e assistência à saúde. Porque servidor não é boleto, paciente não é precatório e hospital não pode virar agência de cobrança. Se o Governo quiser disputar política com a prefeita, que dispute na urna. No consultório, quem deve mandar é a medicina.




