A direita sergipana passou boa parte da eleição estadual parecendo uma família discutindo herança antes mesmo do inventário. Houve rompimentos, acusações, candidaturas concorrentes e palanques atravessados. Passada a eleição, Capitão Samuel resolveu fazer algo menos sofisticado e talvez mais eficiente: colocou as pessoas numa sala. Na Casa Patriota, reuniu lideranças que até outro dia estavam em trincheiras diferentes e começou a organizar a campanha de Flávio Bolsonaro para o segundo turno. Samuel já havia sido procurado por interlocutores nacionais e respondeu: “Estamos conversando, dialogando, planejando… estamos prontos”. No dia seguinte, saiu da fotografia para a operação e estabeleceu a meta de ampliar em 10% a votação de Flávio no estado. Em política, há quem espere ser coroado líder. Samuel preferiu começar carregando o piano.
Esse movimento o coloca hoje entre os principais polos de articulação do bolsonarismo sergipano. Samuel acaba de ser eleito deputado federal e poderia simplesmente entrar naquela tradicional fase pós-eleitoral em que o político desaparece para descansar a garganta. Fez o contrário. Procurou André Moura, abriu caminho para conversar com mais de 20 prefeitos ligados à União Progressista, dialogou com Fernandinho Franco e Luciano Pimentel, buscou a bancada evangélica e também Rodrigo Valadares. Não ficou administrando apenas o próprio quintal. Foi justamente onde ainda existem cercas. E a diferença entre ocupar espaço e construir liderança costuma morar aí: o político não precisa anunciar “eu sou o líder”. Quando começa a ligar para todo mundo e todo mundo atende, a política já respondeu parte da pergunta.
Emília Corrêa também está nesse tabuleiro, mesmo sem aparecer entre as presenças confirmadas da reunião. Sua posição em relação a Flávio Bolsonaro não nasceu agora. Em março, lançou uma pergunta que hoje soa quase profética: “Será que Flávio não vai querer votos?”. Ricardo Marques também já havia deixado sua posição presidencial sem embalagem: “Meu voto para presidente é para Flávio Bolsonaro”. Lúcio Flávio, anfitrião dessa tentativa de pacificação, já havia escrito: “Nada muda! Continuo convicto”. O curioso é que agora todos precisam descobrir se tanta convicção cabe na mesma sala, porque até outro dia alguns desses personagens pareciam precisar de mesas separadas.
Samuel percebeu também que organizar a direita apenas dentro do PL seria como fazer reunião de condomínio com metade dos apartamentos vazios. Foi conversar para fora. A União Progressista já está oficialmente com Flávio. Laércio Oliveira afirmou: “A Federação União Progressista está unida ao lado de Flávio Bolsonaro”. O Novo também aderiu. Samuel tenta, portanto, montar uma engrenagem com PL, União Brasil, PP, Novo, Republicanos, prefeitos e lideranças religiosas. A tarefa é grande: no primeiro turno, Lula venceu Sergipe com 62,75%, enquanto Flávio teve 30,63%. Talvez por isso Samuel fale em meta e não em milagre.
Durante meses discutiu-se quem era o verdadeiro dono da direita em Sergipe, quem tinha a bênção de Bolsonaro, quem controlava o PL e quem podia postar mais fotografia ao lado da família Bolsonaro. Samuel apareceu depois da eleição e trocou o concurso de genealogia ideológica pela agenda telefônica. Enquanto uns discutiam protagonismo, ele marcou reunião. Enquanto outros mediam pureza bolsonarista com régua, ele foi procurar prefeitos. Ainda é cedo para chamá-lo de chefe formal da campanha, até porque não houve anúncio oficial de um coordenador único. Mas é difícil ignorar que, neste início de segundo turno, Samuel ocupa o espaço de quem articula, chama, conversa e tenta reunir.
Talvez seja essa a novidade mais importante. Capitão Samuel não precisa expulsar ninguém do bolsonarismo sergipano para crescer dentro dele. Sua força vem justamente da tentativa de trazer todos para perto. Emília tem a Prefeitura de Aracaju e peso político. Laércio tem Senado e estrutura partidária. Ricardo mantém alinhamento presidencial. Lúcio tem militância. Rodrigo controla o PL estadual. André Moura abre pontes com prefeitos. Samuel percebeu que talvez seja mais inteligente montar o quebra-cabeça do que passar quatro anos discutindo quem é dono da caixa. Se conseguir transformar telefone atendido em palanque compartilhado, terá se projetado não apenas como articulador do segundo turno, mas como um dos nomes centrais da reorganização do bolsonarismo em Sergipe.




