O eleitor sergipano terá direito a escolher dois senadores em 2026, mas convém observar que cada voto levará para Brasília uma pequena comitiva de três pessoas. Na tela da urna aparece apenas o titular, sorridente, bem iluminado e cercado de promessas. Atrás dele, quase sempre fora da fotografia, caminham o primeiro e o segundo suplentes. Eles não recebem voto nominal, não precisam conquistar a simpatia do eleitor e raramente são submetidos ao mesmo escrutínio público. Ainda assim, poderão assumir o mandato em caso de licença, renúncia, afastamento, morte ou nomeação do titular para outro cargo. Se um senador eleito resolver disputar uma prefeitura dois anos depois e vencer, o suplente poderá governar os seis anos restantes do mandato sem ter recebido um único voto diretamente. É uma espécie de casamento político arranjado em que o eleitor conhece o noivo, mas só descobre a família inteira depois da cerimônia. As nove chapas anunciadas em Sergipe ainda dependem do registro e da análise da Justiça Eleitoral, mas já revelam muito sobre o conceito que cada candidato possui de confiança, representatividade e preparação.

Eduardo Amorim montou uma chapa em que os suplentes não parecem ter sido escolhidos durante uma conversa apressada no corredor da convenção. Adailton Sousa, primeiro suplente, administrou Itabaiana e chegou à prefeitura com 28.853 votos. Danilo de Joaldo, segundo suplente, foi prefeito de Itabaianinha, venceu duas eleições municipais e governou uma cidade politicamente relevante no sul do estado. Não são nomes colocados apenas para preencher ata, atender amizade ou decorar material de campanha. São dois ex-prefeitos que conhecem orçamento público, pressão popular, Câmara de Vereadores, folha de pagamento e a desagradável experiência de ter de explicar por que a rua continua esburacada depois de três reuniões e quatro fotografias. Eduardo, que já foi deputado federal, senador e candidato ao Governo, escolheu uma composição territorialmente inteligente. Adailton leva a força política do agreste e Danilo oferece entrada no sul sergipano. Caso algum deles tenha de assumir, não chegará ao Senado perguntando onde fica o plenário e para que serve um requerimento. Em um sistema no qual o eleitor compra o titular e pode receber o suplente como produto substituto, apresentar dois ex-gestores municipais é, no mínimo, uma demonstração de que a garantia foi lida antes da venda.

A composição de André David, por outro lado, aproxima perigosamente a política institucional do álbum de casamento. Rebeka Maia, primeira suplente, é esposa do candidato. Seria incorreto descrevê-la como alguém totalmente sem experiência eleitoral, pois disputou a Prefeitura de Estância em 2024, recebeu 3.876 votos e terminou em terceiro lugar. O problema não é a inexistência absoluta de trajetória, mas a concentração familiar do poder. Quando o titular escolhe a própria esposa para ser a primeira pessoa na linha sucessória, a chapa transmite a impressão de que o mandato precisa permanecer sob a mesma chave, o mesmo teto e, possivelmente, o mesmo grupo de mensagens da família. Confiança pessoal é importante, mas o Senado não é empresa doméstica, conta conjunta ou patrimônio hereditário. Pedro Lima, segundo suplente, enfrenta dificuldade diferente. Até agora, há pouca informação pública consolidada sobre sua formação, profissão, origem política ou experiência eleitoral. A chapa reúne, portanto, uma esposa com uma candidatura municipal recente e um segundo nome ainda coberto por uma neblina curricular. André David construiu sua imagem como delegado e defensor da segurança pública. Justamente por isso, deveria compreender que transparência não é favor, é identificação obrigatória. O eleitor não precisa de investigação sigilosa para descobrir quem poderá representá-lo durante anos.

Edvaldo Nogueira preferiu combinar experiência administrativa própria com dois nomes ligados ao setor empresarial. Depois de várias passagens pela Prefeitura de Aracaju, Edvaldo tenta converter uma carreira concentrada na capital em presença estadual. Joaquim Ferreira, primeiro suplente, oferece uma ponte concreta com Estância. Engenheiro químico e empresário do setor energético, ele disputou a prefeitura em 2024 e recebeu 13.278 votos. Perdeu a eleição, mas saiu dela com uma votação que não cabe na categoria dos figurantes. Geraldo Teixeira, o Teixeira Caminhões, chega como segundo suplente trazendo relações empresariais, atividades no comércio de veículos, combustíveis, comunicação e agronegócio, além de vínculos familiares com o sertão. Não foi localizada, contudo, uma candidatura anterior efetivamente concluída. Edvaldo tentou montar uma estrada para fora de Aracaju colocando Joaquim na direção do sul e Geraldo apontando para o sertão. A engenharia política é compreensível. O risco é a chapa parecer uma reunião de conselho empresarial com pretensão parlamentar. Empresários podem contribuir para a vida pública, evidentemente, mas gestão privada e representação política não são roupas do mesmo tamanho. Uma lida com clientes, concorrentes e resultados. A outra exige prestar contas até a quem jamais compraria o produto.

Rogério Carvalho escolheu uma composição feita de contrastes tão evidentes que parece ter colocado duas campanhas diferentes dentro da mesma chapa. Bruno Costa Nunes, primeiro suplente, é empresário do setor de grãos e do agronegócio, sem candidatura anterior ou mandato eletivo identificado. Não é correto afirmar apenas que ele é “de fora”, como se tivesse desembarcado ontem em Sergipe carregando uma mala e perguntando onde ficava o Senado. Ele possui relações empresariais com o Estado, mas chega de fora do circuito eleitoral conhecido, sem voto próprio testado e sem trajetória política de grande exposição. Sua presença funciona como aceno ao empresariado e ao setor produtivo, áreas nas quais o PT historicamente precisa conversar mais e discursar menos. Fabiano Oliveira, segundo suplente, encontra se no extremo oposto. É empresário do entretenimento, comunicador, ex-deputado estadual, ex-vereador, antigo gestor do turismo e candidato a vice-prefeito de Aracaju em 2024. Fabiano possui visibilidade, experiência, capacidade de comunicação e uma biografia eleitoral reconhecível. Rogério colocou no primeiro banco um empresário estreante e, logo atrás, um político experiente que provavelmente seria identificado até numa fotografia desfocada. A ordem pode causar estranhamento, mas a lógica eleitoral é clara: Bruno abre uma porta econômica e Fabiano leva popularidade, palco, microfone e conhecimento de campanha.

Alessandro Vieira também procurou estruturas municipais para reforçar uma candidatura que, em 2018, nasceu vendendo independência das máquinas tradicionais. Adriana Carvalho, primeira suplente, é assistente social e merendeira concursada com salário de quase R$ 15 mil no Estado, ex-secretária municipal da Educação e esposa do prefeito de Nossa Senhora do Socorro, Samuel Carvalho. Ela não possui candidatura anterior localizada e sua visibilidade política própria ainda é limitada. O peso de sua indicação vem menos de uma votação pessoal e mais da prefeitura, dos vereadores, das lideranças religiosas e do grupo político comandado pelo marido. Adriana pode ter experiência administrativa, mas o eleitor tem o direito de perguntar onde termina seu currículo e onde começa a estrutura de Samuel. Não se trata de negar sua formação, mas de distinguir luz própria de iluminação cedida pela prefeitura. Joãozinho de Solinha, segundo suplente, não é exatamente uma pessoa sem história política, embora seja menos conhecido fora de Lagarto. Pecuarista e empresário, foi candidato a vice-prefeito em 2020 numa chapa que recebeu 22.963 votos. Alessandro cobre, assim, dois grandes colégios eleitorais, Socorro e Lagarto. A ironia é inevitável: o candidato que chegou ao Senado como símbolo da renovação agora procura sustentação em famílias, prefeituras e grupos municipais bastante tradicionais. A nova política, quando sente frio, também sabe onde fica o armário da velha política.

Coronel Rocha organizou a chapa mais identificada com segurança pública, conservadorismo e disciplina institucional. Oficial da reserva da Polícia Militar, ele já disputou uma vaga de deputado federal em 2018, quando recebeu 4.477 votos. José Olívio Calasans, primeiro suplente, apresenta se como economista liberal e conservador, ligado à defesa da iniciativa privada e da redução da intervenção estatal, mas não possui mandato ou candidatura anterior claramente identificada. A segunda suplente, Sargento Krisvania Barbosa, ingressou na Polícia Militar em 1998 e acumulou experiência em diferentes batalhões e unidades do Estado, embora também não tenha histórico eleitoral localizado. A composição tem coerência temática. É um coronel, um economista liberal e uma sargento. Parece menos uma chapa eleitoral e mais a programação de um seminário chamado Ordem, mercado e continência. Coerência, contudo, não substitui capilaridade. A segurança pública é uma pauta central, mas Sergipe não se resume aos quartéis, aos grupos conservadores e às discussões sobre endurecimento penal. O desafio da chapa será demonstrar capacidade para tratar também de saúde, educação, infraestrutura, desigualdade, emprego e desenvolvimento. O Senado exige mais do que voz de comando. Às vezes exige a habilidade, bem mais rara, de ouvir quem não responde “sim, senhor”.

Rodrigo Valadares escolheu duas mulheres para as suplências, mas a presença feminina, embora importante, não elimina a necessidade de apresentação curricular. Glória Sena, primeira suplente, possui mais de vinte anos de experiência política e administrativa, trabalhou como chefe de gabinete do senador Laércio Oliveira e atuou na organização de movimentos partidários femininos. Não tem votação própria conhecida, porém compreende o funcionamento de um gabinete parlamentar e conhece os corredores institucionais em que decisões importantes costumam ser tomadas sem transmissão ao vivo. Marina Castro, segunda suplente, ainda é uma interrogação pública. As informações disponíveis confirmam sua presença na chapa, mas não oferecem biografia suficientemente consolidada sobre profissão, cargos, candidaturas ou atuação política. Rodrigo, que foi deputado estadual, candidato a prefeito de Aracaju e deputado federal, montou uma composição inteiramente dependente de sua própria força eleitoral. Glória entrega experiência de bastidor. Marina ainda precisa entregar o cartão de visitas. Uma chapa ao Senado não deveria funcionar como lançamento de série em plataforma digital, com um personagem conhecido, outro apresentado no trailer e um terceiro mantido em segredo para criar expectativa. O mistério pode ser excelente para audiência, mas é inadequado para uma linha sucessória constitucional.

André Moura fez uma escolha que pode ser examinada sem necessidade de propaganda ou amizade política. Ricardo Vasconcelos, primeiro suplente, é advogado, vereador de Aracaju, presidente da Câmara Municipal e foi o candidato mais votado para o Legislativo da capital em 2024, com 11.120 votos. Selma França, segunda suplente, é pedagoga, servidora aposentada e vereadora, eleita em sua primeira disputa com 3.718 votos. Ambos possuem mandato atual, votação recente e experiência concreta no Legislativo. Não foram retirados de uma lista de contatos na noite anterior à convenção, nem dependem exclusivamente de parentesco para explicar por que estão ali. Ricardo conhece articulação parlamentar, administração legislativa e negociação política. Selma leva experiência nas áreas de educação, políticas sociais e direitos das mulheres. André, cuja força histórica sempre esteve muito associada aos municípios do interior, utilizou as suplências para construir presença na capital. É uma operação política calculada, mas cálculo não é defeito quando vem acompanhado de currículo público e legitimidade eleitoral. Caso Ricardo ou Selma precise assumir o mandato, nenhum dos dois chegará a Brasília como turista institucional. Poderão ser questionados por suas posições, alianças e decisões, como qualquer político deve ser, mas não pela ausência de experiência ou de voto próprio.

Iran Barbosa encerra o quadro com a chapa mais diretamente ligada aos movimentos sociais e à esquerda organizada. Professor, ex-dirigente sindical, ex-vereador, ex-deputado estadual e ex-deputado federal, Iran escolheu Magal da Pastoral como primeiro suplente. Magal possui atuação na Pastoral Carcerária, em projetos de inclusão social e já exerceu mandato de vereador de Aracaju. Núzia Costa, segunda suplente, é contadora, dirigente partidária e participante de movimentos femininos, mas ainda não apresenta votação própria comprovada nas fontes disponíveis. A composição preserva coerência programática, embora não carregue prefeituras, grandes grupos econômicos ou estruturas eleitorais comparáveis às de outras candidaturas.
Ao final, as chapas revelam três modelos. Há candidatos que escolheram suplentes com votos e mandatos, como Eduardo Amorim e André Moura. Há os que buscaram estruturas municipais, empresariais ou familiares, como Alessandro Vieira, Edvaldo Nogueira e Rogério Carvalho. E há os que apostaram principalmente em confiança pessoal, identidade ideológica ou proximidade de grupo, como André David, Rodrigo Valadares, Coronel Rocha e Iran Barbosa. O ponto não é afirmar que parentes, empresários ou estreantes sejam incapazes. O problema surge quando o eleitor é convidado a entregar um mandato de oito anos a pessoas que mal foram apresentadas. Suplente não é figurante, adereço ou acompanhante de cerimônia. É alguém que poderá acordar numa manhã comum e terminar o dia senador da República.




