PUBLICIDADE

Entre Fabiano e Márcio, há América, Carla, Marília e Kleidson

Há processos públicos que se parecem com eleições. O Quinto Constitucional não é um deles. Ele lembra, no máximo, um campeonato de turno e returno: a primeira fase só diz quem continua no jogo, não quem leva a taça. A advocacia votou, sim. A advocacia falou, sim. Mas a advocacia não decide. Ela apenas entrega o volante. Quem dirige são dois outros poderes: o Tribunal e o Executivo. E a história mostra que, nesse percurso, o caminho é logo ali, mas a volta é grande. No Quinto, todo mundo acha que sabe para onde vai, até descobrir que, na política o trajeto até pode parecer reto, mas a história ensina que estrada boa mesmo é a que surpreende.

A fotografia do momento é conhecida: Márcio Conrado liderou a votação com 2.597 votos; logo atrás, na margem de um espirro, veio Fabiano Feitosa, com 2.491; depois, América Nejaim, com 1.929; seguida de Marília Menezes (1.837), Carla Karol (1.792) e Kleidson Nascimento (1.776). É o retrato de uma eleição apertada, competitiva e tecnicamente qualificada. Não houve tsunami eleitoral. Houve equilíbrio, o tipo de equilíbrio que, em qualquer campeonato, só deixa uma certeza: o troféu ainda está em disputa.

Agora começa o segundo tempo, aquele que não aparece no boletim oficial. A advocacia devolveu a bola ao Tribunal. E o Tribunal, como manda a regra do jogo, vai transformar seis nomes em três. A famosa lista tríplice. É nesse instante que o Quinto Constitucional revela sua verdadeira natureza: não é plebiscito, não é concurso e não é aclamação. É um mecanismo constitucional híbrido, um triângulo de forças em que cada ponta tem um papel e nenhuma delas reina sozinha.

Mas, como toda boa história política, esse enredo tem seus personagens e seus mitos. O primeiro mito é o mais sedutor, o mais votado tem “direito moral” à vaga. Parece justo, parece intuitivo, parece democrático. Só não é verdadeiro. O primeiro colocado tem votos, não tem cadeira. No máximo, tem legitimidade simbólica. Mas o voto da advocacia não é sentença. É sugestão. A Constituição é clara: o governador escolhe um nome, qualquer um, dentro dos três enviados pelo Tribunal. Nem a lei, nem a história, nem o bom senso institucional obrigam o chefe do Executivo a transformar urna em coroação.

Aliás, a história recente de Sergipe parece ter sido escrita exatamente para testar a fé dos otimistas, essa espécie rara que ainda acredita que eleições internas funcionam como contos de fadas: vence quem merece, quem trabalhou duro, quem “conquistou o povo”. No Quinto de Roberto Porto, o primeiro colocado foi Wellington Mangueira que entrou em cena como protagonista de novela épica. Levou 60% dos votos, atropelou a concorrência e saiu das urnas com aquela aura de herói invencível, trilha sonora ao fundo e destino brilhando como letreiro de cinema e outdoor nas ruas de Aracaju. No papel, era imbatível.

Mas aí chegou ela: a política, essa dançarina debochada que gira, rodopia e ainda dá uma topada só pra ver quem vai pro chão junto. E o Tribunal, num daqueles passos coreografados com a precisão de um balé russo, mas com a delicadeza de um bode dentro de uma loja de cristal, simplesmente derrubou a Mangueira. Perdão: derrubou Wellington Mangueira. E derrubou bonito. Sem aviso, sem aplausos, sem lista tríplice. Arrancaram a Mangueira pela raiz, a mesma raiz regada pela vontade dos advogados, que o haviam colocado no topo com 60% dos votos. O herói das urnas ficou sem final feliz, sem beijo, sem música dramática, sem créditos subindo. Sobrou apenas o silêncio constrangido de quem viu o protagonista despencar do palco… e percebeu, meio sem graça, que a peça já estava sendo remontada com outro ator.

E então, como quem envia bilhete apaixonado dobrado em quatro, o nome do segundo colocado, Roberto Porto, pousou mansamente na mesa do governador Albano Franco. E Albano, ah, Albano… não fez só o que governadores fazem quando têm convicção. Fez o que governadores fazem quando já escolheram seu príncipe encantado antes mesmo do baile começar: apontou o dedo, sorriu e disse “é ele”. Sem suspense, sem corar as bochechas e, segundo contam, até sem a ata final. Reza a lenda que a nomeação saiu no mesmo fax que o TJ/SE teria enviado, porque quando o destino quer, nem a burocracia atrapalha o romance. E assim Albano assinou. Nomeou. Carimbou o happily ever after. Deixou registrado em tinta, em fax e na memória política que, no folhetim do poder, os pretendentes podem até ser muitos, mas o final feliz vai sempre para quem o governador decide amar.

Transformou o segundo colocado em desembargador com a naturalidade de quem apenas confirma um segredo que todo mundo já sabia. Foi sua maneira silenciosa, em discurso, sem microfone, só aquela caneta cheia de autoestima, de lembrar quem realmente manda na história. Muito diferente de Fábio que  deixou o processo eleitoral correr com a serenidade de um lago suíço: sem interferências, sem torcida organizada, sem mão invisível empurrando ninguém. Quase anticlimático, mas, olha, até bonito de ver.

Se alguém ainda acha que o Quinto Constitucional é uma linha reta, revisar esse episódio deveria ser obrigatório, quase um exame cardiológico de realidade. Ali, o Tribunal mostrou força. O governador mostrou autoridade. A advocacia mostrou surpresa. E o sistema mostrou o que é: uma engrenagem de pesos e contrapesos em que ninguém vence sozinho.

O caso de Edson Ulisses foi quase uma anomalia estatística, um milagre administrativo, um eclipse institucional daqueles que só acontecem quando três astros resolvem, por pura teimosia, se alinhar no céu político. Ele liderou a votação, ficou firme na lista tríplice e ainda foi escolhido por Marcelo Déda. Um alinhamento tão raro que, se alguém piscasse, perdia. Foi o encontro perfeito entre voto, Tribunal e Executivo, ou, como diriam os românticos, “o dia em que a democracia acordou inspirada”.

A nomeação, claro, virou palco: debates inflamados, ações judiciais pipocando como pipoca no micro-ondas e questionamentos saindo pelo ladrão. Mas, no fim, prevaleceu aquela velha lógica constitucional que muitos fingem entender, mas poucos realmente leem: lista sêxtupla, lista tríplice e o governador exercendo seu ato discricionário com a elegância burocrática de quem gira a chave de um cofre.

Quando os três vértices convergem assim, o processo até parece simples. Parece. Mas não confunda simplicidade com rotina. Esse tipo de convergência não é regra, é acidente feliz, coincidência cósmica, sorte grande institucional. Uma exceção tão improvável quanto encontrar político devolvendo verba voluntariamente.

E o presente? Ah, o presente é aquele episódio que parece inédito, mas você jura que já viu, provavelmente porque já viu mesmo. Márcio chega em primeiro lugar e tenta transformar voto em coroação, como quem sobe no palco antes do apresentador anunciar o vencedor. Parte da advocacia até ensaia o discurso de que “o primeiro seria o escolhido natural da classe”. Natural… só se for no sentido botânico. 

Na prática, o placar conta outra história: um primeiro e um segundo separados por pouco mais de cem votos. Isso não é hegemonia. É disputa. É margem de erro. É jogo truncado em que qualquer carrinho muda o placar. E aí entra o detalhe saboroso do enredo: Márcio é concunhado de Roberto Porto. A novela política de Sergipe não precisa de roteirista; ela se escreve sozinha. Mas, diferentemente do passado, hoje Márcio não é o preferido do Governadorque, veja só, foi justamente Fabiano, o segundo  colocado na própria lista quando trilhou esse caminho. Se o destino gosta de ironia, e gosta, esse processo pode muito bem repetir a temporada anterior. E, convenhamos, não seria nenhuma novidade. Porque nessa competição, o juiz que decide não apita de amarelo nem veste toga: veste faixa governamental. No final, é o governador quem escolhe o nome da lista tríplice, o que, convenhamos, dá à partida um charme todo especial. Um campeonato em que os jogadores correm, a torcida grita, o Tribunal organiza… mas o gol só vale quando o governador aponta para o escolhido.

Se a tríplice repetir os três primeiros, Márcio, Fabiano e América, o cenário fica previsível. E previsível, em política, é quase sinônimo de possível. O governador já deu sinais claros de afinidade com Fabiano. A conversa flui, o diálogo se mantém, a confiança existe. Fabiano é o tipo de perfil que não empurra porta, ela abre. Tem firmeza sem estridência, técnica sem soberba, articulação sem teatralidade. O apelido que já circula nos bastidores cai como caricatura precisa: “coração valente”. E, convenhamos, num Tribunal, coragem silenciosa vale mais que bravata ensaiada.

Mas o enredo pode virar a qualquer momento e o Quinto adora isso. Quando a gente pensa que sabe o final, a história arremeda e troca o roteiro no meio da cena. Se o Tribunal excluir Fabiano da tríplice, como fez no episódio que favoreceu Roberto Porto, quando tirou da lista Wellington Mangueira, mesmo com seus 60% de votos, o governador será empurrado ao palco sem cortina, sem ensaio e com a luz na cara. E aí aparece a pergunta que faz muito colarinho suar e muita gravata ficar torta: o que faz um governador quando sua preferência não está na mesa? Resposta curta, direta e sem romance: governa.

A caneta do Executivo não é souvenir. É arma de poder. Se o Tribunal montar uma lista que tire do governador o seu predileto, caberá a ele demonstrar autoridade institucional e escolher um nome que carregue a sua própria digital política, não a vontade alheia. E há um gesto capaz de transformar esse processo de mera escolha em marco histórico: escolher uma mulher. América Nejain, terceira colocada, forte nas urnas e sólida na carreira, poderia se tornar a primeira advogada a ocupar uma cadeira no Pleno do Tribunal pelo Quinto Constitucional. O mesmo vale para Marília e Carla Carol, nomes que dariam novo desenho ao Tribunal. Seria mais do que uma escolha. Seria um capítulo. Um daqueles que mudam não só a história, mas o tom das próximas páginas.

Num país em que o Judiciário ainda é um clube majoritariamente masculino, a nomeação de uma mulher não seria apenas ato, seria sinal. Daqueles que ecoam. Daqueles que contam. Daqueles que o tempo não apaga. E, se o governador quiser mostrar que não é refém da urna, nem da pressão, nem do gosto alheio, essa seria a jogada mais ousada e talvez a mais inteligente.

E se o Tribunal fizer a tríplice das zebras? Algo como América, Carla e Kleidson? Aí o governador poderia provar o que todo ator político deseja provar um dia: que quem dita o último capítulo é quem tem a caneta na mão. Uma escolha inesperada, Carla Karol ou Kleidson Nascimento, seria o equivalente institucional a virar o tabuleiro e dizer: “ninguém terceiriza vontade para mim”. Seria o tipo de movimento que não precisa de discurso. Precisa apenas de assinatura.

Ao fim, o que está em jogo no Quinto Constitucional não é a vitória de um candidato, é a identidade de um sistema. A advocacia legitima. O Tribunal seleciona. O governador decide. O resto é ruído, espuma, cortina de fumaça. O Quinto não premia o mais votado. Premia o mais alinhado ao momento institucional. E quem confunde eleição com nomeação ainda está no primeiro capítulo de um livro que tem páginas longas e margens estreitas.

Se Sergipe repetir o roteiro de Roberto Porto, o segundo colocado pode sair de casa como cidadão comum e voltar como desembargador, Fabiano Feitosa que o diga. Se encenar Edson Ulisses, o primeiro seria consagrado… mas Márcio não é o preferido de Fábio Mitidieri, e isso pesa mais que urna cheia. E, se o governador quiser fazer história em vez de reprise, uma mulher pode finalmente chegar ao Pleno, América, Marília ou Carla Carol. Qualquer uma das três mudaria o desenho do Tribunal e, de quebra, a biografia política dele. No fim, é simples: no Quinto, voto pesa, lista pesa mais, mas quem segura a caneta é o governador e a última palavra é dele. Sempre. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *