Pelo amor de Deus, eu tenho mais de 60 anos, já vivi tudo que uma mulher pode viver com dignidade, prazer, dor, amor e muita história, e agora aparece um bando de gente querendo me explicar, por lei, como eu devo me sentir sendo mulher. Olha, sinceramente, dá vontade de rir e depois pedir um café forte. O Brasil pegando fogo em mil áreas, e a prioridade virou ensinar mulher a ser mulher. É de uma pretensão tão grande que beira o ridículo elegante. Puts!
Eu falo aqui como mulher, feminista, vivida, resolvida. E feminista de verdade, não de manual. Feminista que não tem vergonha do próprio desejo. A mulher é fêmea, e fêmea que sabe o que quer. A gente gosta de sentir o corpo reagindo, gosta de presença firme, de energia que encosta, que domina o ambiente, que faz o sangue correr mais rápido. Gosta de olhar e saber que ali tem um homem macho, seguro, com pegada (daquelas por trás), com atitude. Mulher gosta de dominar quando quer, de conduzir, de virar o jogo, de ser dona da situação. Mas também gosta de, em certos momentos, se permitir sentir essa força do outro, essa troca crua, viva, sem frescura. Isso não é fraqueza, isso é tesão pela vida. É o encontro entre o masculino e o feminino acontecendo de forma real, sem filtro, sem hipocrisia. E querer colocar isso dentro de uma lei fria, burocrática, é não entender nada. Nada. Porque a mulher quer viver, sentir, escolher e continuar sendo exatamente isso: mulher e fêmea inteira.
Outro dia, numa conversa entre amigas, dessas que só mulher madura encara sem fingimento, uma soltou rindo, “Bia, eu gosto é de homem que chega, não de homem que pede desculpa”. E a outra, sem nem piscar, veio mais afiada, “eu mando quando quero, faço do meu jeito, mas também gosto de sentir que tem um macho ali com presença, que segura, que não amarela”. E aí virou gargalhada geral, daquelas que vêm com verdade no meio. Porque é isso que ninguém tem coragem de dizer em público. A mulher gosta do jogo, gosta da tensão e tesão, gosta da química que não é educadinha, que não pede licença. Gosta de atitude, de calor, de vida acontecendo sem roteiro. E em duas frases, ali no meio da risada e da malícia, elas acabaram com essa fantasia de que mulher é previsível ou precisa ser tratada como peça delicada de uma lei mal redigida.
Essa mania de querer regular tudo é uma ilusão perigosa e meio patética. Porque desejo não segue regra, não pede licença, não se comporta. A atração é suja no melhor sentido, é pele, é impulso, é vontade que aparece sem aviso. E quando tentam enquadrar isso em lei, o que acontece é simples. O homem começa a travar. Some a coragem, some a pegada, some aquela energia mais direta, mais crua, que faz o corpo responder. E vamos falar a verdade entre nós. Homem com atitude já anda raro. Aquele que chega junto, que olha com intenção, que não fica pedindo desculpa por existir. Com esse tipo de lei, vai sumir de vez. E aí a mulher fica como? Cercada de homem inseguro, calculando cada palavra, cada gesto, como se estivesse pisando em vidro. Isso não excita, isso não envolve, isso não é vida. Porque a troca entre homem e mulher sempre teve um pouco de calor, de tensão, de vontade sem roteiro. Tirar isso é transformar tudo em algo morno, sem graça, sem pulso. E, sinceramente, mulher nenhuma quer viver num mundo assim.
Eu mesma já vi situações em que uma simples interação virou um problema porque alguém decidiu interpretar tudo como ofensa. E aí ninguém mais quer se aproximar. Tenho um amigo magistrado que saiu de uma situação banal na praia simplesmente para não ter dor de cabeça. Não é respeito que está crescendo. É o receio. E receio não constrói relação nenhuma.
E no meio disso tudo, entram discussões como as da Erika Hilton, que ampliam o caos conceitual. Porque já não é só comportamento, é linguagem, é definição, é quem pode dizer o quê. E vamos ser diretas. Quando se troca “mulher” por “pessoas que gestam”, isso não é avanço, é apagamento. Isso fere a identidade feminina. Reduz a mulher a uma função biológica com nome moderno. E a ironia é evidente. Em nome de proteger, apaga. Em nome de incluir, descaracteriza. Isso incomoda muito mais do que qualquer interação cotidiana mal interpretada. Porque uma coisa é discutir comportamento. Outra é dissolver a própria ideia de mulher. E quando o direito entra nesse terreno, o que se perde é a clareza.
Enquanto isso, o Brasil real segue ali, esperando solução para coisas básicas. Economia, custo de vida, insegurança. Mas não. A prioridade é organizar o comportamento humano. Porque, aparentemente, é mais fácil legislar sobre sentimento do que resolver problema concreto. Eu, como mulher, digo com toda tranquilidade. Eu não preciso de lei para me ensinar a ser respeitada. Eu sei reconhecer respeito. Eu sei impor limite. E, principalmente, eu sei viver minha feminilidade do meu jeito, sem que o Estado precise intervir em cada nuance da minha vida.
E eu termino assim, rindo, mas já sem muita paciência. Porque, sinceramente, puta que pariu, querem transformar a mulher num conceito neutro, limpo, comportado, quando a mulher nunca foi isso. A mulher é intensidade. É corpo, é desejo, é presença. É cabeça que pensa e pele que sente. É quem conduz, mas também é quem, quando quer, se entrega ao momento sem culpa nenhuma. A mulher gosta de viver o próprio desejo do jeito dela, gosta de dominar quando quer, de comandar o ambiente, mas também gosta de sentir a força do outro quando escolhe. Isso é troca, isso é vida, isso é humano. E não é uma lei fria, protocolar, escrita em gabinete com ar-condicionado, que vai entender isso, muito menos controlar. Porque mulher não é neutra, nunca foi e nunca vai ser. Mulher é viva, é quente, é contraditória, é inteira. E tentar reduzir isso a um texto legal é não só ingenuidade, é quase um insulto elegante. Então, com todo respeito institucional que ainda me resta, fica aqui o recado mais honesto possível. Foda se essa tentativa de enquadrar o que não nasceu para caber em regra. Mulher não precisa de autorização para ser mulher.




