O Governo de Sergipe comemorou como título mundial o segundo lugar do Estado em qualidade das rodovias no Ranking de Competitividade dos Estados. O dado é bom, mas a festa precisa de freio de mão puxado. Sergipe é o menor Estado do Brasil. Não tem a malha da Bahia, a dimensão do Mato Grosso nem os desafios do Amazonas. Comparar tudo isso sem ponderar tamanho e complexidade é transformar estatística em confete oficial. É como comparar bicicleta encerada com carreta carregada subindo ladeira.
O problema é que ranking aceita pose, mas buraco não aceita discurso. Na propaganda, Sergipe parece um tapete asfaltado, liso, cheiroso e pronto para drone. Na vida real, basta sair do roteiro da câmera para encontrar poeira, lama, remendo malfeito, desvio improvisado, máquina parada e promessa vencida. O motorista não dirige em release, não abastece com postagem e não conserta suspensão com gráfico colorido.
O Governo do Estado virou especialista no gerúndio. Está fazendo, está concluindo, está entregando, está avançando, está estudando, está dialogando. É uma gestão que parece morar dentro de uma frase inacabada. O povo, porém, sofre no presente. O pneu fura agora. A ambulância balança agora. O produtor perde dinheiro agora. O trabalhador se arrisca agora. Sergipe não precisa de governo conjugado na promessa. Precisa de obra no passado perfeito: fizemos, entregamos, resolvemos.
A região de Mesinhas e São Matheus é o retrato mais cruel dessa maquiagem administrativa. A BR 175, Rodovia João Dionísio de Matos Janjão, virou símbolo da distância entre o palanque e o chão. A estrada que deveria ligar comunidades, proteger estudantes, produtores, comerciantes e trabalhadores virou corredor de sofrimento público. Ninguém está pedindo luxo, acostamento com garçom ou pista com ar-condicionado. O que se pede é o mínimo: trafegar sem destruir carro, coluna, bolso e paciência.
A contradição fica ainda mais indigesta porque a BR 175 homenageia João Dionísio de Matos Janjão, liderança histórica da região e pai da prefeita de Gararu, Zete de Janjão, aliada do governador Fábio Mitidieri. No palanque, parceria. Na estrada, abandono. No discurso, prestígio. No volante, desespero. No protocolo, homenagem. No chão, buraco. Nome bonito em rodovia não segura amortecedor. Homenagem verdadeira não é placa. É asfalto decente, drenagem, sinalização e respeito ao direito de ir e vir.
E a pergunta que derruba o palanque é simples: de que adianta o Governo do Estado bater no peito com ranking nacional se comunidades inteiras continuam pedindo socorro para trafegar? A média rende manchete. O buraco rende prejuízo. A média serve à propaganda. O trecho ruim castiga o povo. É fácil comemorar de gabinete, com ar-condicionado e café quente. Difícil é explicar por que uma viagem de 35 minutos está levando até uma hora e meia, como se o cidadão tivesse entrado no Rally dos Sertões versão Sergipe oficial.
A BR 101 é outro monumento à paciência do sergipano. A duplicação se arrasta há três décadas, atravessou Lula, Dilma, volta de Lula, promessa, solenidade, capacete branco e discurso reciclado. Recentemente, precisou vir ministro de Brasília para inaugurar apenas 8 quilômetros de pista duplicada, como se fosse a chegada do homem à Lua em versão asfalto. Enquanto isso, a BR 101 segue conhecida por muitos como rodovia da morte, com desvios confusos, trânsito espremido, obra sem fim e motorista tentando descobrir se está numa rodovia federal ou num labirinto bancado pela burocracia.
E não é só a BR 175 nem a BR 101 que desmentem a propaganda. A radiografia das estradas mostra cobrança na SE 200, sofrimento em trechos parcialmente asfaltados, reclamações na SE 290 entre Itabaianinha e Tobias Barreto, alerta de segurança na SE 220, obras ainda em execução na SE 315, SE 204 e SE 488, além de manutenção espalhada pela malha. O Governo do Estado anuncia pacote, ordem de serviço, investimento bilionário, placa e fotografia. Mas, no interior, ainda tem buraco, sinalização fraca, máquina parada e obra lenta. Tapa buraco é necessário, mas não pode virar filosofia de governo.
O Governo de Sergipe precisa parar de usar ranking como escudo, propaganda como anestesia e gerúndio como método administrativo. Se há rodovia boa, ótimo. Que mostre. Se há obra andando, melhor ainda. Que entregue. Mas onde há povo clamando por estrada, a obrigação do Estado é agir, não posar para foto. Sergipe pode até estar bonito na planilha nacional, mas em Mesinhas, Ouro Cruzeira, São Matheus, Gararu e na BR 101 o filme é outro. Não tem drone, trilha épica nem locutor sorridente. Tem buraco, atraso, desvio, prejuízo, máquina parada e uma população cansada de ouvir que o governo “está fazendo” enquanto ela está pagando a conta agora.




