Edson Fachin resolveu a crise do Banco Master pelo método preferido do Supremo: quando as perguntas ficam perigosas, muda-se quem pode respondê-las. O presidente da Corte assumiu o procedimento sobre as mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro e paralisou temporariamente os inquéritos do Master e do INSS que estavam com André Mendonça. Formalmente, Fachin invocou o Regimento Interno e a necessidade de organizar processos conflitantes. Na prática, afastou Mendonça justamente da frente que alcançou um integrante do STF. A impressão deixada é devastadora: investigar banqueiro pode; investigar ministro exige troca de relator, suspensão dos autos e reunião de emergência.
Nas redes sociais, a reação predominante foi de profunda desconfiança. Fachin aparece como o bombeiro que, em vez de combater o incêndio, manda fechar o prédio para ninguém enxergar a fumaça. Seus defensores falam em prudência, prevenção de nulidades e restabelecimento da ordem. Os críticos enxergam proteção corporativa e perguntam por que Mendonça era considerado competente enquanto apurava empresários, políticos e fraudes bilionárias, mas se tornou inconveniente quando surgiram mensagens atribuídas a Moraes. A dúvida é legítima e não se desfaz com latim jurídico: se o problema era a forma da investigação, que se corrigisse a forma sem interromper a procura pela verdade.
A conversa sobre transparência também ganhou contornos de teatro institucional. Fachin determinou a abertura dos documentos, Moraes acusou Mendonça de divulgação seletiva e Mendonça respondeu que preservou diligências, dados fiscais e informações pessoais. O cidadão ficou assistindo a ministros discutirem quais páginas o país pode conhecer, enquanto integrantes da própria Corte aparecem no enredo. Transparência verdadeira não consiste em liberar o documento conveniente e esconder o restante atrás de expressões genéricas. Exige uma relação clara do que permanece sigiloso, a fundamentação individual de cada restrição e a garantia de que nenhuma prova desaparecerá no labirinto processual.
O histórico de Fachin torna a desconfiança ainda mais inevitável. Em 2021, numa decisão individual posteriormente confirmada pelo plenário, ele declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e anulou as decisões tomadas nos processos de Lula, incluindo as condenações do tríplex e do sítio de Atibaia. Não absolveu Lula no mérito, é verdade; anulou os atos por incompetência territorial e devolveu-lhe os direitos políticos. Mas o efeito concreto daquela canetada foi apagar anos de processos, condenações confirmadas por instâncias superiores e permitir sua volta imediata ao jogo eleitoral. Agora, novamente, Fachin utiliza a técnica processual para produzir um resultado político gigantesco: retira de Mendonça a investigação que chegou a Moraes e coloca o caso sob o controle da Presidência do próprio tribunal investigado.
O STF não recuperará credibilidade protegendo-se de perguntas, anulando caminhos processuais ou escolhendo quem pode abrir determinadas gavetas. Fachin pode até ter encontrado respaldo regimental para centralizar os procedimentos, mas legalidade formal não basta quando a confiança pública está em ruínas. O país precisa saber se as mensagens são autênticas, qual era a relação de Vorcaro com autoridades, quem recebeu dinheiro, quem interferiu nas investigações e por que integrantes da Corte mantinham contato com o banqueiro. Se a intervenção terminar em anulação, silêncio e arquivamento, ficará a conclusão mais corrosiva possível: no Brasil, a lei alcança todos, mas perde o endereço quando chega à porta do Supremo.




