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Governador, cadê os empregos?

Há uma distância cada vez mais constrangedora entre o Sergipe da propaganda e o Sergipe da rua. No primeiro, o emprego brota em vídeo institucional, aparece em card colorido e desfila em discurso oficial. No segundo, o trabalhador continua entregando currículo, esperando ligação e fazendo conta para saber como chega ao fim do mês. Por isso a pergunta ao governador Fábio Mitidieri precisa ser feita sem perfume publicitário: governador, cadê os empregos que o senhor tanto anuncia? Porque, para uma parcela enorme da população, esses empregos simplesmente não existem na dimensão vendida pelo governo.

O IBGE desmonta a euforia com a frieza que toda propaganda teme. Sergipe fechou o segundo trimestre de 2026 com desemprego de 7,9%, enquanto o Brasil registrou 5,4%. O Estado continua entre as maiores taxas de desocupação do país. Pode haver melhora pontual, pode haver saldo positivo no Caged, pode haver discurso de crescimento. Mas uma coisa é criar alguns milhares de vagas formais. Outra, bem diferente, é transformar isso numa narrativa de pleno vigor econômico enquanto tanta gente continua sem trabalho. O governo parece comemorar a pintura da fachada enquanto o telhado ainda pinga na sala.

E o problema não termina no desemprego. Quase metade dos trabalhadores ocupados em Sergipe está na informalidade. São pessoas vendendo, entregando, carregando, dirigindo, fazendo bico, prestando serviço e tentando sobreviver sem a segurança de um vínculo formal. Quando a propaganda fala em emprego, o sergipano tem o direito de perguntar: emprego para quem? Onde? Com qual salário? Por quanto tempo? Porque chamar qualquer ocupação precária de prosperidade é um truque semântico que pode funcionar no palanque, mas não paga supermercado.

O governo gosta do Caged, e compreende se por quê. Os números formais ajudam a construir uma narrativa positiva. O problema começa quando se tenta fazer do Caged a certidão de nascimento de um novo Sergipe. A PNAD mostra uma realidade bem menos elegante. Se o Estado quer assumir a paternidade dos números bons, precisa também sentar à mesa quando chegam os ruins. Não existe gestão séria em que o governo seja pai da vitória e primo distante da derrota.

É preciso trazer a população para dentro dessa discussão. Pergunte ao jovem de Nossa Senhora do Socorro que procura o primeiro emprego se ele reconhece o paraíso anunciado. Pergunte ao pai de família de Lagarto que vive de bicos. Pergunte à mulher de Aracaju que vende comida para complementar renda porque a carteira assinada não apareceu. Eles talvez não saibam explicar a diferença metodológica entre PNAD e Caged, mas sabem perfeitamente a diferença entre ter trabalho e não ter. E, em política, às vezes a cozinha de casa oferece uma estatística mais cruel que qualquer gráfico.

Fábio Mitidieri precisa explicar por que Sergipe continua tão distante da média brasileira. Precisa dizer onde estão os empregos, em quais setores, com que remuneração, em quais municípios e quantos deles são realmente sustentáveis. Não basta anunciar admissões sem falar dos desligamentos, exibir percentuais favoráveis e esconder o conjunto da fotografia. Desenvolvimento não é peça de publicidade. Desenvolvimento é quando a população sente no bolso antes de assistir na televisão.

No fundo, a contradição é simples. O governo diz que Sergipe vive um grande momento. O IBGE diz que Sergipe ainda convive com uma das maiores taxas de desemprego do Brasil. Alguém precisa explicar essa diferença. E a explicação não pode ser outro vídeo, outro slogan ou outra cerimônia. Precisa chegar em forma de emprego.

Porque, para quem está desempregado, pouco importa quantas vezes o governo diga que as vagas existem. Se não chegam à sua porta, se não aparecem no seu currículo, se não viram salário e dignidade, para aquela família o emprego não existe. E talvez seja exatamente esse o ponto que a propaganda ainda não conseguiu entender.

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