A deputada Catarina Feitosa construiu sua trajetória defendendo técnica, equilíbrio e justiça na aplicação da lei. Chegou a se posicionar a favor da dosimetria da pena, ou seja, de ajustar a punição à realidade de cada caso, algo básico para qualquer operador do direito. Só que, no momento decisivo, votou pela manutenção do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E aí nasce o ponto central da crítica: o problema não é o voto isolado, é a mudança de posição. Porque quando alguém que entende do tema muda de lado, precisa explicar muito bem. E até agora, a explicação não convence.
A justificativa apresentada fala em insegurança jurídica e até em possíveis efeitos sobre crimes graves, incluindo feminicídio. Mas aí vem a pergunta que ecoa fora dos gabinetes: por que essa preocupação não apareceu antes, quando ela defendia a dosimetria? Será que o texto era outro ou o contexto político mudou? Porque política também tem timing, e não passou despercebido que essa mudança acontece justamente quando o cenário se alinha com o governo do próprio partido no Estado e com o Palácio do Planalto. E aí fica aquela sensação incômoda de que o voto pode ter acompanhado mais o vento político do que a convicção técnica.
Enquanto isso, casos que circulam na opinião pública continuam sendo usados como símbolo dessa discussão sobre proporcionalidade. A Débora do Batom, um empresário por doação via Pix, o episódio envolvendo Clezão e tantos outros nomes que viraram referência no debate. Independentemente das versões jurídicas finais, esses casos levantam uma questão legítima sobre equilíbrio na aplicação das penas. E é exatamente nesse ponto que a mudança de Katarina pesa mais, porque antes ela sinalizava sensibilidade para esse tipo de análise e agora adotou uma posição que vai na direção contrária.
No fim, a crítica não é ideológica, é lógica. Mudar de voto faz parte da política, ninguém é obrigado a pensar igual para sempre. O problema é mudar sem sustentar, sem antecipar, sem explicar de forma sólida. Porque quando a justificativa soa desconectada do que foi defendido antes, ela deixa de esclarecer e passa a levantar ainda mais dúvidas. E na política, quando a dúvida cresce, a confiança encolhe. E confiança, diferente de voto, não se recupera com discurso, se recupera com coerência.




