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Magistradas: Evinha conseguiu ser pior que Claudinha

Quando a juíza aposentada Cláudia Márcia de Carvalho Soares resolveu lamentar que juiz “não tem carro”, “não tem café” e quase transformou a magistratura em uma espécie de retiro franciscano sem cappuccino, muita gente achou que o limite do constrangimento institucional já tinha sido alcançado. Eis que surge a desembargadora Eva do Amaral Coelho e consegue a façanha rara de piorar o vexame. Cláudia reclamou do cafezinho. Eva decidiu invocar a escravidão. Sim, escravidão. Segundo ela, com o corte de penduricalhos e limites aos supersalários, juízes poderiam acabar trabalhando em “regime de escravidão”. É o tipo de frase que faz até o Código Penal pedir licença para sair da sala.

Fiz Direito na UFS. Na minha turma, quatro colegas passaram para a magistratura, dois para o Ministério Público, e dois desses colegas hoje já ocupam assento como desembargadores. São pessoas brilhantes, respeitáveis, humanas e, sobretudo, conscientes da responsabilidade que carregam. Há poucos anos, numa reunião da nossa velha turma da UFS, sentamos, rimos, lembramos das provas, dos sustos, dos professores e da vida. O afeto permanece. O respeito também. Justamente por isso, quando vejo uma fala como essa de Eva, não sinto raiva primeiro, sinto vergonha. Porque ela joga a população contra toda uma classe que deveria ser respeitada pela sobriedade, não pelo escárnio.

O nome Eva, curiosamente, carrega o significado de vida, origem, aquela que dá início. Na tradição simbólica, Eva representa o começo da humanidade. No noticiário recente, infelizmente, virou símbolo de outra coisa: o início de mais uma crise de imagem do Judiciário. Porque quando alguém que recebe mais de 90 mil reais líquidos em um mês fala em escravidão, ela não produz argumento, ela produz ressentimento social. Ela não defende a magistratura, ela incendeia a opinião pública. E depois ainda se perguntam por que cresce a antipatia popular contra certas castas do serviço público.

Vamos falar português claro. O teto constitucional gira em torno de R$ 46 mil. Se alguém fez concurso sabendo disso, não pode tratar R$ 91 mil como se fosse exploração colonial. Não estamos falando de um estagiário sem vale transporte. Estamos falando de magistrados com estabilidade, férias de sessenta dias, venda de férias, recesso, auxílios diversos e uma blindagem funcional que o brasileiro médio sequer consegue imaginar. Enquanto isso, do lado de fora do fórum, o cidadão decide se paga o aluguel ou compra remédio. A diarista não chama isso de desconforto remuneratório. Ela chama isso de sobrevivência.

Como psicóloga por formação complementar e observadora compulsiva da alma humana, eu diria que o problema aqui é mais profundo. Esse tipo de discurso alimenta a guerra entre classes. Cria ranço. Cria revolta. Cria a sensação de que existe um Brasil de mármore e ar-condicionado e outro Brasil de ônibus lotado e fila no SUS. E quando alguém da elite institucional banaliza a palavra escravidão, especialmente no Pará, Estado historicamente marcado por resgates de trabalho escravo contemporâneo, não é só uma infelicidade retórica. É uma violência simbólica. É Casa Grande tentando explicar senzala usando PowerPoint.

Se está tão ruim assim, há uma solução revolucionária, quase subversiva: pedir exoneração. Simples assim. A lei não permite demitir magistrado com a facilidade com que se demite um balconista, mas ninguém proíbe um juiz de sair. Abra um escritório. Contrate cinco advogados, uma secretária, uma recepcionista, um auxiliar de serviços gerais. Pague aluguel, IPTU, contador, internet, folha de pagamento, imposto sobre nota emitida e até sobre nota não recebida. Descubra o charme irresistível do boleto. No escritório não existe quinquênio romântico nem férias com aroma de privilégio. Existe cliente ligando às 22h e honorário que depende de trabalho real.

Há portais de transparência pelo Brasil inteiro mostrando contracheques que ultrapassam duzentos, trezentos, quinhentos mil reais em determinados períodos, graças aos famosos penduricalhos, atrasados e criatividades remuneratórias que fariam um contador chorar abraçado ao artigo 37 da Constituição. Isso não é narrativa ideológica, é dado público. Quando a sociedade olha para isso e depois escuta alguém dizer que está sendo escravizado porque ganhou “apenas” R$ 91 mil, o efeito não é empatia. É gargalhada nervosa seguida de indignação.

Cláudia reclamou do café. Eva reclamou da escravidão. Entre uma xícara e um pelourinho imaginário, o Judiciário vai perdendo aquilo que mais deveria proteger: autoridade moral. Respeito não nasce da toga, nasce da postura. Magistrado precisa ser respeitado, mas para isso precisa primeiro se dar ao respeito. Quando o privilégio começa a se apresentar como sofrimento, a liturgia vira piada. E quando a piada é ruim, o povo não aplaude. O povo cobra a conta. E, dessa vez, sem cafezinho e  na senzala. 

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