Alexandre de Moraes anunciou que falaria à imprensa e o Brasil preparou os ouvidos. Não seria palestra, depoimento judicial nem entrevista de portão de cadeia. Seria um pronunciamento provavelmente sem perguntas e sem transmissão ao vivo. Mesmo nesse formato de microfone domesticado, a fala foi cancelada. O ministro que costuma determinar prazo para todo mundo resolveu conceder prazo indeterminado a si próprio.
A explicação era esperada por causa das mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e da crise aberta dentro do STF. Um dia antes, Edson Fachin retirara de Moraes a condução do inquérito das fake news e convocara o plenário. O prédio da Corte começou a parecer condomínio em reunião extraordinária: um morador acusa, outro rebate, um terceiro chama o síndico e ninguém sabe quem ficou com a chave do salão.
Segundo a imprensa, Moraes preparou uma defesa, mas aliados aconselharam que guardasse o discurso na gaveta. A avaliação seria de que falar poderia aumentar o incêndio institucional. É uma estratégia curiosa: quando a cozinha está cheia de fumaça, esconde se o extintor para não assustar os convidados. Oficialmente, a assessoria informou apenas que o pronunciamento ocorrerá em “data oportuna”, expressão que, em Brasília, pode significar amanhã, depois da eleição ou quando o povo esquecer a pergunta.
A Constituição não obriga ministro a conceder entrevista, portanto cancelar a fala não é crime nem ilegalidade. Mas os artigos 37 e 93 exigem moralidade, impessoalidade, publicidade e fundamentação dos atos públicos. Também existem regras sobre juiz natural, imparcialidade, impedimento e suspeição. Traduzindo para o sergipano: toga não é capa de invisibilidade, gabinete não é confessionário e autoridade pública não ganha licença para responder apenas às perguntas que ela mesma escreveu.
Ninguém deve condenar Moraes sem provas, mas também ninguém precisa fingir que cadeira vazia é esclarecimento institucional. Se houve relação relevante com pessoa investigada, os fatos devem ser apurados com documentos, contraditório e regra igual para todos. Preservar o STF não significa passar lustra móveis embaixo do tapete. Quem possui poder para mandar tanta gente falar precisa compreender que, diante de dúvidas graves, o próprio silêncio também presta depoimento.




