A convenção do PSB foi boa, organizada e cheia. No Salles Multieventos, o ar refrigerado funcionou perfeitamente, as fotografias ficaram bonitas e a estrutura governista demonstrou que sabe realizar um evento sem deixar cadeira implorando por companhia. Fábio Mitidieri entrou em modo campanha, declarou que “ninguém vai tomar o futuro de Sergipe de assalto”, avisou que “nosso ringue é lá fora” e garantiu que “quem tem trabalho não teme a ninguém”. Foi uma fala forte, feita para transformar obras, escolas, segurança e o Hospital do Câncer em munição eleitoral. O detalhe é que convenção climatizada não sua voto. O PSB saiu muito bem na fotografia, mas eleição proporcional não se vence por temperatura ambiente nem por quantidade de autoridades espremidas no mesmo enquadramento.
Cláudio Mitidieri foi apresentado como a grande aposta para deputado federal. Médico, ex-presidente do Ipesaúde, ex-secretário da Saúde e primo do governador, possui o sobrenome, a passagem pela gestão e o apoio de praticamente toda a engrenagem governamental. Começou dizendo que “chegou a hora de compararmos os projetos”, emendou que “viola de boca, todo mundo toca” e advertiu que Sergipe não pode cair “nas mãos erradas”. No início, havia quem projetasse para ele uma votação entre 120 mil e 140 mil votos, como se o eleitor viesse anexado ao Diário Oficial. Hoje, a realidade parece menos generosa. Se alcançar 70 mil votos, Cláudio terá feito uma excelente eleição. Abaixo disso, começará a preocupação, porque o PSB não precisa apenas de um campeão individual, precisa de uma soma partidária suficiente para disputar o quociente eleitoral. Os 70 mil não são uma cláusula jurídica automática, mas tornaram-se o termômetro político de uma candidatura cercada pela força do governo e, exatamente por isso, proibida de chegar pequena, pois está muita dispendiosa.
A nominata federal tem outros oito candidatos. Elber Batalha, advogado, defensor público, vereador e ex-secretário, é o melhor orador da chapa e talvez o único capaz de produzir uma crise política antes mesmo de terminar a frase. Disse que “a representação de Sergipe em Brasília não empolga” e admitiu não ter definido seus votos para o Senado. É independente, inteligente e comunicativo, mas ainda precisa trocar aplauso de auditório por voto no interior. Robson Viana, ex-vereador e ex-deputado estadual, tenta recuperar uma base popular que já foi expressiva, embora a política tenha o hábito deselegante de envelhecer amizades mais rapidamente do que fotografias. Breno Garibalde, arquiteto, urbanista e vereador reeleito com 7.834 votos em Aracaju, possui discurso moderno, presença digital e força na capital, mas precisa descobrir que, depois da Grande Aracaju, também existe Sergipe. Os três ajudam a legenda, porém nenhum aparece hoje com força evidente para tomar de Cláudio a liderança interna.
Marcos Santana, ex-prefeito por dois mandatos e chefe de um grupo político forte em São Cristóvão, talvez seja o candidato com a base territorial mais organizada. Pode chegar entre os primeiros se transformar prefeitura, sucessão municipal e relações políticas em voto estadual. Marcos Franco, ex-deputado estadual e ex-secretário do Turismo, carrega sobrenome tradicional, experiência e contatos, mas terá de provar que memória política ainda abre urna, porque ela abre muitas agendas e poucos votos por conta própria. Tati de Vavá do Algodão, advogada e candidata a federal em 2022, aposta na identidade familiar e em redes sociais e assistenciais. Tathiane Araújo leva para a disputa uma trajetória verdadeira no movimento LGBTQIA+, com causa, militância e identidade próprias, embora enfrente o desafio de ultrapassar o eleitorado de segmento. Ângela Miranda completa a nominata feminina, mas ainda precisa apresentar ao eleitor uma biografia pública mais nítida. Todos podem somar. O problema é que, para eleger um federal, o PSB não precisa de nove nomes na ata. Precisa de nove candidatos depositando votos na urna.
Na chapa estadual, o PSB possui mais musculatura. Zezinho Sobral, vice-governador, ex-deputado e ex-secretário de áreas estratégicas, é o grande puxador. Sua estrutura, o trânsito entre prefeitos e a presença administrativa fazem dele o favorito a uma cadeira. Kitty Lima, ex-vereadora e deputada estadual ligada à causa animal, tem voto de opinião, força digital e uma militância que late, mia e comparece às urnas. Francisco Gualberto, ex-operário, sindicalista e deputado por cinco mandatos, carrega coerência ideológica e memória junto à esquerda. Venâncio Fonseca, advogado, procurador e veterano de seis mandatos, oferece experiência e base no Sul, embora precise convencer o eleitor de que voltar ao passado pode ser apresentado como novidade. Esses quatro disputam as posições mais altas, mas a projeção realista é de até três eleitos. O quarto pode sonhar, porque sonho ainda não entrou no cálculo do quociente eleitoral.
Alan de Mundinho chega com 10.396 votos obtidos em 2022 e uma base concreta em Itabaianinha, sendo o intermediário com maior capacidade de surpreender. César Prado, vereador de Tobias Barreto e ex-candidato a prefeito, tenta regionalizar sua força no Centro-Sul. Delegado Clever Farias traz mais de duas décadas na Polícia Civil e uma candidatura facilmente identificável com a segurança pública. Luiz Santana aposta nas redes da contabilidade e do futebol sergipano. Dr. Sarmento procura mobilizar o voto profissional e regional; Cleidson Lima depende da base comunitária; Da Luz ainda precisa iluminar melhor sua identidade eleitoral; e Daniel do Esporte tenta transformar projetos, juventude e associações esportivas em votos. Todos podem contribuir para o conjunto, mas, individualmente, aparecem hoje mais próximos da função de somadores do que da cadeira. Na eleição proporcional, há candidatos que correm para vencer e outros que correm para ajudar o partido a completar a volta.
Léa Sobral busca espaço com identidade feminina e ligação territorial; Núbia Lopes aposta no trabalho comunitário; Valéria da Kabana possui um nome popular, comercialmente memorável e conectado ao turismo e à gastronomia; Dra. Leila Paixão procura votos entre serviços profissionais e causas sociais; Magna do SAMU carrega uma ligação afetiva com a saúde e os trabalhadores da emergência; Acácia do Porto Dantas representa uma base territorial de Aracaju; Rosângela da Barra tenta levar votos da Barra dos Coqueiros; e Nina ainda precisa fazer o eleitor descobrir sobrenome, história, proposta e endereço político. São candidaturas importantes para a soma, para a presença feminina e para a capilaridade da legenda. Mas respeito pessoal não obriga análise eleitoral a fingir competitividade. Neste momento, a briga efetiva pelas três vagas está concentrada em Zezinho, Kitty, Gualberto e Venâncio, com Alan de Mundinho tentando entrar na conversa sem pedir licença.
O PSB deixou o Salles com uma convenção bem realizada, um governador em pleno combate, uma chapa estadual capaz de eleger até três deputados e uma candidatura federal sustentada por Cláudio Mitidieri. Também deixou uma contradição curiosa: Fábio prometeu “suar a camisa” por André Moura, agradeceu publicamente a Alessandro Vieira, Cláudio incluiu Alessandro em sua caminhada e Elber informou que ainda escolherá seus senadores. O partido saiu unido para o governo e fazendo terapia de casal no Senado. Para a Câmara Federal, a equação é mais cruel. Se Cláudio chegar perto ou ultrapassar 70 mil votos e os demais entregarem uma votação consistente, a cadeira é possível. Se ele ficar abaixo disso e a nominata não compensar, o PSB poderá terminar a eleição com um salão cheio de lembranças, muito ar refrigerado e nenhuma cadeira em Brasília. A convenção mostrou força. Agora faltam os votos, aquele pequeno detalhe que a decoração não consegue fornecer.




