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O vice sem vice e o PL procurando um salva vidas

Adiberto de Souza conseguiu resumir em três palavras uma crise que o PL talvez precise de muitas reuniões para explicar: “Vice sem vice”. A nota é daquelas pequenas no tamanho e enormes na fotografia política. Pastora Salete abandonou a chapa de Ricardo Marques no dia 15 de agosto dizendo que não enxergou prioridade nem unidade interna na caminhada e Ricardo respondeu que apresentará outro nome “no momento certo”. Até agora, o tal momento certo ainda não produziu o novo candidato a vice. O detalhe que torna tudo ainda mais saborosamente constrangedor é que Ricardo não perdeu apenas uma companheira de chapa. Perdeu uma vice que saiu reclamando justamente da organização partidária. É como abrir um restaurante e ver o cozinheiro ir embora na inauguração dizendo que não gostou da cozinha. Adiberto percebeu a cena com precisão cirúrgica. Ricardo, que já é vice em Aracaju, virou candidato a governador e agora vive a curiosa condição de um vice procurando um vice. 

A raiz da confusão está na própria convenção. Rodrigo Valadares declarou publicamente que a prioridade do PL em Sergipe é eleger senador e deputados federais, fazendo a afirmação diante do próprio Ricardo Marques, candidato do partido ao Governo. Não é difícil compreender por que Salete posteriormente falou em falta de prioridade. Politicamente, a cena parece casamento em que o padrinho pega o microfone no altar e avisa que a prioridade da festa é outra. E os números atuais não ajudam Ricardo a responder com votos. Na Real Time Big Data realizada entre 28 de julho e 1º de agosto, ele apareceu com 6%, enquanto Fábio Mitidieri marcou 43% e Valmir de Francisquinho 40%, estes dois tecnicamente empatados. Ricardo tem campanha pela frente e pode crescer, naturalmente, mas a fotografia disponível mostra uma candidatura que começa muito distante dos dois principais polos. Antes de conquistar o Palácio, o PL precisa convencer o eleitor de que o próprio partido acredita no candidato que colocou na rua.

No Senado, a situação exige a mesma frieza. Rodrigo Valadares sonha legitimamente com uma das duas cadeiras, mas a última Real Time Big Data o colocou com 12%, atrás numericamente de André David, com 17%, André Moura, com 14%, e Eduardo Amorim, com 13%. Coronel Rocha, o outro candidato do PL, apareceu com 6%. Portanto, não é correto decretar hoje que o PL não elegerá senador, porque existem duas vagas e a campanha está começando, mas também não há dado que permita vender vitória antecipada. Rodrigo ainda precisa transformar presença digital, discurso ideológico e liderança partidária em votos suficientes para atravessar uma disputa congestionada. O problema é que ele tenta pilotar a própria candidatura ao Senado enquanto administra a chapa de governador, a crise da vice e as proporcionais. É muito prato para pouca mão. Na política, quem resolve girar todos de uma vez corre o risco de terminar a apresentação explicando por que alguns caíram no chão.

Na Câmara Federal mora outra dúvida. O PL registrou nove nomes: Delegado Augusto César, Diná Almeida, Luizão Dona Trampi, Mendonça Prado, Moana Valadares, Neo Sobral, Sargento Vieira, Vitória Pauline e Welington Camargo. Existem currículos eleitorais nessa lista que impedem uma sentença apressada de que o partido certamente não fará deputado. Luizão é deputado estadual e foi eleito em 2022 com 18.291 votos. Mendonça Prado já foi deputado federal três vezes e teve 44.263 votos para a Câmara em 2014, embora suas disputas mais recentes tenham registrado números bem menores. Ao mesmo tempo, Rodrigo Valadares, que hoje ocupa mandato federal, decidiu disputar o Senado, deixando o partido sem o seu atual deputado federal tentando renovar a própria cadeira. O PL, portanto, precisa construir uma votação proporcional nova. Dizer desde já que fará zero federal seria profecia, não jornalismo. O que se pode afirmar é que a vaga não está guardada no armário esperando alguém buscar.

Na Assembleia Legislativa, o quadro também não permite certeza antecipada, mas revela onde está a responsabilidade partidária. Hoje a própria Alese relaciona Luciano Pimentel e Luizão Donatrampi como deputados estaduais do PL. Luizão decidiu disputar a Câmara, enquanto Luciano tenta permanecer na Assembleia. Luciano chega com histórico eleitoral concreto, tendo sido eleito estadual em 2014, 2018 e 2022, quando recebeu 18.073 votos. Ao redor dele existe uma extensa nominata com nomes conhecidos em segmentos específicos e muitas candidaturas sem mandato estadual. Isso significa que a tese de que o PL fará apenas um ou dois estaduais pode ser discutida como avaliação política, mas ainda não pode ser apresentada como resultado provável comprovado. A eleição proporcional depende do desempenho individual, da votação total da legenda, do quociente eleitoral e das sobras. O que existe hoje é uma pressão evidente para que o partido preserve pelo menos parte do espaço parlamentar que já possui.

Assim, a fotografia deste começo de campanha não autoriza anunciar o enterro do PL, mas certamente permite dizer que há água entrando em vários compartimentos ao mesmo tempo. Ricardo Marques aparece com 6% e procura um novo vice. Rodrigo Valadares está na disputa pelo Senado, mas ainda fora das duas primeiras posições numéricas da pesquisa mais recente. Coronel Rocha aparece mais atrás. A nominata federal precisa conquistar cadeira sem ter Rodrigo disputando a própria reeleição para a Câmara. Na Assembleia, Luciano Pimentel carrega a condição de parlamentar do partido que tenta renovar diretamente o mandato estadual, enquanto Luizão sobe para federal. Não é naufrágio consumado, porque outubro ainda está longe e urna não aceita editorial como voto. Mas é um começo de viagem suficientemente turbulento para justificar a pergunta: se o PL pretende governar Sergipe, eleger senadores, deputado federal e uma bancada estadual, talvez seja prudente começar resolvendo uma questão bem mais simples. Quem, afinal, aceita ser o vice do vice sem vice?

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