A eleição coloca Fábio Mitidieri diante de um julgamento que nenhuma campanha publicitária consegue controlar: o confronto entre o governo que aparece nas peças oficiais e aquele que chega à porta do cidadão. Obras, programas e investimentos existem, mas essa é apenas metade da fotografia. A outra metade está na torneira que não entrega água, no paciente que espera atendimento, no professor que protesta e no servidor que precisa pressionar para ser ouvido. Governo não se mede pela quantidade de inaugurações, nem pelo tamanho das placas. Mede-se pelo serviço que funciona quando não há câmera por perto. E é justamente nessa comparação que a propaganda começa a parecer mais eficiente que algumas áreas da própria administração.
A crise da água sintetiza essa contradição. A operação envolvendo a Deso foi anunciada sob o vocabulário sedutor da modernização, da eficiência e dos novos investimentos. Depois vieram interrupções, reclamações e comunidades convivendo com a insegurança no abastecimento. Nesse momento, o discurso político não pode funcionar como torneira seletiva: abrir para colher os méritos e fechar quando chega a conta do desgaste. Concessão não significa abdicação de responsabilidade. O governo continua obrigado a fiscalizar, cobrar a concessionária, explicar a atuação da Agrese e demonstrar, com documentos e resultados, qual benefício concreto a população recebeu. Se bilhões circulam e a água não chega, a pergunta não é oposição. É aritmética.
Na saúde e na educação, o problema reaparece com outra embalagem. Hospital, equipamento novo e programa oficial produzem belas imagens, mas paciente não se trata em fotografia. A medida real é tempo de espera, disponibilidade de leitos, acesso a procedimentos e qualidade do atendimento. Na educação, prédio reformado e sala climatizada também não substituem professor valorizado, carreira organizada e diálogo institucional. Quando conflitos com o magistério se prolongam e diferentes categorias de servidores recorrem à pressão pública ou à Justiça para obter respostas, surge uma suspeita politicamente incômoda: talvez o governo tenha aprendido melhor a anunciar soluções do que a resolver conflitos.
Fábio Mitidieri demonstrou habilidade para montar uma ampla estrutura política, reunir prefeitos, partidos e lideranças e consolidar poder. Mas máquina política não é sinônimo de excelência administrativa, muito menos certificado automático de aprovação popular. Quanto maior a estrutura de um governante, maior deveria ser sua disposição para enfrentar perguntas difíceis, prestar contas e assumir responsabilidades. A ausência em confrontos eleitorais, declarações ásperas contra adversários e episódios de comunicação pouco felizes ajudam a alimentar a imagem de um governo que, em certos momentos, parece mais confortável administrando a narrativa do que encarando a crítica. No fim, a questão continua desconfortavelmente simples: menos propaganda sobre o que Sergipe deveria estar vivendo e mais respostas sobre aquilo que o sergipano efetivamente está vivendo.




