Uma eleição termina às cinco da tarde, mas um mandato começa muito antes da posse. Começa na biografia. Na cidade onde alguém nasceu, na profissão que escolheu, na primeira eleição que perdeu, no grupo político que encontrou pelo caminho, nas alianças que construiu, nas portas que se abriram e também naquelas que precisaram ser empurradas. No domingo, Sergipe entregou oito passagens para Brasília. Mas não entregou oito histórias iguais. Yandra Moura, Cláudio Mitidieri, João Daniel, Fábio Reis, Delegada Katarina, Ícaro de Valmir, Capitão Samuel e Gustinho Ribeiro chegam a 2027 carregando currículos, vitórias, cicatrizes, sobrenomes, escolhas e, principalmente, votos.
É fácil olhar para uma eleição apenas como uma tabela. Yandra, 115.903 votos. Cláudio, 105.865. João Daniel, 88.900. Fábio Reis, 81.533. Katarina, 71.592. Ícaro, 66.696. Samuel, 66.342. Gustinho, 58.289. Só que números, quando vistos de perto, têm biografia. Cada voto significa alguém que saiu de casa, apertou alguns botões e decidiu entregar quatro anos de representação a outra pessoa. É uma procuração silenciosa e poderosa. Por isso, mais interessante do que saber quem venceu é entender quem são essas pessoas que Sergipe mandou para a Câmara. E, principalmente, o que a história de cada uma delas diz sobre o mandato que começa agora.
Yandra Moura: uma jovem política que descobriu cedo o peso de estar no centro do palco

Yandra Barreto Ferreira nasceu em Aracaju, em 25 de abril de 1994, formou-se em Direito pela Universidade Tiradentes e fez pós-graduação em Direito do Trabalho pela PUC-SP. Poderia ter construído apenas uma trajetória jurídica. A política, porém, estava perto demais para permanecer apenas como paisagem. Yandra entrou muito jovem no ambiente partidário e, em 2022, fez uma estreia que muita gente passa uma vida inteira tentando alcançar: recebeu 131.471 votos e chegou à Câmara como a candidata mais votada de Sergipe naquele pleito. Só esse resultado já teria sido suficiente para colocá-la sob os holofotes. E holofote político tem uma característica pouco mencionada nas fotografias de campanha: ilumina, mas também esquenta. Durante o primeiro mandato, Yandra ocupou espaços de liderança e chegou à coordenação do Observatório Nacional da Mulher na Política. Ou seja, começou a aprender aquilo que Brasília ensina rapidamente: eleição abre a porta, mas ocupar espaço institucional exige outro tipo de habilidade.
Quatro anos depois, veio a prova mais difícil. Reeleição não oferece ao candidato o conforto da novidade. O eleitor já viu, ouviu, concordou, discordou, comparou e teve tempo de formar opinião. Mesmo assim, Yandra chegou novamente ao topo, agora com 115.903 votos. Há mérito político nisso. Manter uma base eleitoral dessa dimensão depois do desgaste inevitável de um primeiro mandato demonstra força, presença e capacidade de comunicação com parcelas importantes do eleitorado. Yandra chega a 2027 ainda jovem, mas já sem poder recorrer à condição de iniciante. Isso, na verdade, é uma boa notícia. Ela entra no segundo mandato conhecendo os corredores, os atalhos e, espera-se, também as armadilhas de Brasília. Está de parabéns pela votação e pela capacidade de preservar protagonismo. Agora vem a etapa que nenhuma campanha consegue maquiar: transformar capital político em resultado público. O segundo mandato será a oportunidade de mostrar que aquilo que começou como uma ascensão eleitoral pode amadurecer como uma trajetória parlamentar consistente.
Cláudio Mitidieri: quando o jaleco encontra o plenário

Cláudio Mitidieri Simões nasceu em Aracaju em 26 de fevereiro de 1976 e construiu sua vida profissional na medicina antes de colocar o próprio nome numa urna. Sua trajetória passou pela saúde, pela administração do Ipesaúde e, posteriormente, pela Secretaria de Estado da Saúde. Essa passagem importa porque explica muito da imagem apresentada ao eleitor em 2026. Cláudio não chegou à campanha como alguém tentando inventar uma biografia política na véspera do horário eleitoral. Chegou com um repertório administrativo e profissional já conhecido por parte da sociedade sergipana. Administrar saúde pública, aliás, é uma espécie de estágio intensivo de realidade: orçamento nunca parece suficiente, demanda nunca tira férias e todo problema chega acompanhado de alguém esperando solução.
Sua primeira eleição terminou com 105.865 votos e o segundo lugar geral na disputa para deputado federal. Ultrapassar cem mil votos numa estreia eleitoral é um daqueles números que dispensam adjetivos exagerados. O dado já fala. Agora, entretanto, Cláudio troca uma engrenagem por outra. No Executivo, autoridade costuma vir acompanhada da caneta. No Congresso, a caneta precisa conversar com outras 512. É negociação, comissão, relatoria, orçamento, articulação e paciência, muita paciência. O médico acostumado a diagnosticar encontrará uma Brasília em que frequentemente todos concordam sobre a existência da doença e passam meses discutindo quem ficará responsável pela receita. A eleição merece parabéns. E o desafio é igualmente grande: levar para o Legislativo a experiência acumulada na saúde sem se transformar apenas num parlamentar de uma pauta. Sergipe lhe entregou mais de cem mil votos. A partir de 2027, a conta deixa de ser eleitoral e passa a ser de entrega.
João Daniel: uma carreira construída na persistência,
no campo e na fidelidade a uma identidade política

João Somariva Daniel nasceu em São Lourenço do Oeste, Santa Catarina, em 22 de agosto de 1967, mas foi em Sergipe que construiu a sua história política. Agricultor e historicamente ligado aos movimentos do campo e ao Partido dos Trabalhadores, começou sua trajetória parlamentar na Assembleia Legislativa. Em 2010, recebeu 29.936 votos e tornou-se deputado estadual. Em 2014, decidiu atravessar a ponte entre Aracaju e Brasília e recebeu 52.959 votos para deputado federal. Depois vieram 59.933 votos em 2018 e 68.969 em 2022. A sequência ajuda a explicar João Daniel melhor do que qualquer slogan. Ele construiu uma base política de maneira progressiva e permaneceu associado às mesmas grandes bandeiras: campo, agricultura familiar, reforma agrária e pautas sociais da esquerda.
Em 2026, recebeu 88.900 votos e assegurou novo mandato. Há quem concorde profundamente com João Daniel e há quem esteja ideologicamente no extremo oposto. Isso faz parte da democracia. O que os números mostram, sem necessidade de torcida, é uma capacidade incomum de manter identificação com seu eleitorado ao longo do tempo. Política também é isso: saber quem se representa. João Daniel não chega a Brasília precisando descobrir onde ficam as comissões, o plenário ou a cafeteria. Chega conhecendo a máquina, os ritos e a arte peculiar de sobreviver a sessões que começam com urgência e terminam muitas horas depois sem ninguém mais se lembrar exatamente por que havia tanta pressa. Está de parabéns pela reeleição. Seu novo mandato terá uma cobrança proporcional à experiência acumulada. Depois de tantos anos no Congresso, já não basta marcar posição. A experiência aumenta a obrigação de transformar posição em resultado.
Fábio Reis: Lagarto na origem e Brasília transformada em território conhecido

Fábio de Almeida Reis nasceu em Lagarto em 15 de abril de 1977. Empresário, passou pela administração estadual como secretário-adjunto da Agricultura e entrou na Câmara dos Deputados inicialmente pela condição de suplente, sendo efetivado em janeiro de 2013. Desde então, Brasília deixou de ser destino e passou quase a fazer parte de sua biografia. Fábio atravessou legislaturas, partidos, governos, crises nacionais e diferentes configurações políticas sem desaparecer do tabuleiro. Participou de comissões, exerceu vice-lideranças e chegou a licenciar-se do mandato para ocupar a Representação do Estado de Sergipe em Brasília. É uma trajetória que ajuda a explicar uma das características mais valiosas na política institucional: conhecer a máquina por dentro.
Em 2026, Fábio recebeu 81.533 votos e garantiu mais um mandato. Longevidade eleitoral não acontece por acidente durante tanto tempo. Exige base, articulação, presença municipal e capacidade de atravessar mudanças de cenário sem perder completamente o chão. E Fábio fez isso. Brasília já não tem muitos mistérios para ele, o que também significa que a velha desculpa do novato não está disponível. Quem conhece orçamento, ministérios, lideranças e funcionamento do Congresso carrega uma vantagem, mas também uma responsabilidade maior. Fábio está de parabéns pela reeleição e pela capacidade de permanecer competitivo durante tantos ciclos políticos. Em 2027, Sergipe deverá cobrar exatamente aquilo que sua experiência promete: articulação, recursos, projetos e resultados. Afinal, depois de tantos anos conhecendo o caminho, ninguém espera que ele ainda precise perguntar onde fica a porta.
Delegada Katarina: a autoridade que saiu da Polícia Civil
e aprendeu a circular pelo coração do poder legislativo

Katarina Feitoza Lima Santana nasceu em Aracaju em 5 de outubro de 1973. E há uma coincidência quase cinematográfica nesta história: completa 53 anos um dia depois de conquistar novo mandato. Antes da política eleitoral, construiu uma trajetória extensa na Polícia Civil. Formou-se em Direito pela Universidade Tiradentes, fez pós-graduação e chegou ao comando da instituição como delegada-geral. Depois, fez a transição para o universo eleitoral e tornou-se vice-prefeita de Aracaju. Em 2022, recebeu 38.135 votos para deputada federal e chegou à Câmara. A partir dali, começou uma transformação importante. Katarina deixou de ser apenas a delegada que entrou na política e passou a construir uma identidade parlamentar, participando da CCJ, da Comissão de Segurança Pública, da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e chegando à terceira-secretaria da Mesa Diretora da Câmara.
Em 2026, recebeu 71.592 votos. A comparação é expressiva porque mostra um crescimento considerável em relação ao primeiro mandato. Há uma mensagem eleitoral nisso: parte relevante do eleitorado conheceu sua atuação e decidiu renovar a procuração. Segurança pública continua sendo sua marca mais reconhecível, mas a experiência parlamentar ampliou sua atuação para temas ligados às mulheres, idosos, pessoas com deficiência, educação, saúde e ambiente digital. Katarina chega a 2027 diferente daquela que chegou a Brasília quatro anos antes. Mais conhecida, mais experiente e instalada numa posição institucional relevante. Está de parabéns pela reeleição e, neste 5 de outubro, também pelo aniversário. A política raramente entrega presentes sem boleto. O presente foi a vitória. O boleto chega em fevereiro: quatro anos para justificar, todos os dias, os 71.592 votos recebidos.
Ícaro de Valmir: a juventude abriu a porta, o segundo mandato terá de construir a assinatura

Ícaro de Valmir chegou ao Congresso numa idade em que muita gente ainda está tentando decidir o que deseja fazer da vida. Filho de Valmir dos Santos Costa e Tatiana da Silva Barbosa Costa, disputou uma cadeira federal em 2022 e recebeu 75.912 votos, tornando-se um dos candidatos mais votados daquele pleito em Sergipe. Assumiu o mandato em fevereiro de 2023 pelo PL e, em 2026, passou ao Republicanos para disputar a reeleição. O sobrenome político ajudou naturalmente a colocá-lo sob os refletores, mas sobrenome, por mais conhecido que seja, não aperta sozinho 75 mil botões de urna. Havia ali uma votação pessoal relevante e uma oportunidade muito rara concedida a alguém tão jovem.
Agora, com 66.696 votos, Ícaro conquistou o segundo mandato. E é justamente aqui que sua história começa a ficar mais interessante. No primeiro mandato, era inevitável que parte do debate girasse em torno de sua juventude e de sua origem familiar. No segundo, isso já não basta para explicar o parlamentar. Ícaro terá a oportunidade de construir aquilo que todo herdeiro de uma tradição política precisa, em algum momento, conquistar: identidade própria. O pai pode ajudar a escrever o prefácio, mas o livro precisa ter autor. Ele chega a 2027 mais experiente, conhecendo o funcionamento da Câmara e com quatro anos de mandato para apresentar ao eleitor. Está de parabéns pela reeleição. Agora é a hora de fazer com que, ao se falar em Ícaro, o eleitor não precise completar automaticamente a frase com o nome de outra pessoa para saber quem ele é.
Capitão Samuel: vinte anos batendo à porta até entrar pela frente

Samuel Alves Barreto, o Capitão Samuel, nasceu em Malhador em 3 de fevereiro de 1970. Sua vida pública começou na Polícia Militar, onde ingressou em 1991, e ganhou força nas entidades de representação dos policiais. Depois veio a política eleitoral. Em 2006, tentou uma cadeira de deputado estadual e não conseguiu. Poderia ter parado ali, como tantos nomes que aparecem uma vez na urna e desaparecem depois da apuração. Não parou. Em 2010 recebeu 43.370 votos e foi eleito deputado estadual. Reelegeu-se em 2014 e em 2018. Em 2022, mudou o alvo para a Câmara Federal, recebeu 38.151 votos e ficou na suplência. A trajetória de Samuel talvez seja uma das melhores demonstrações daquilo que a política cobra de quem não chega nela pela porta automática: persistência.
A suplência lhe permitiu experimentar por alguns meses a Câmara em 2024. Em 2026, entretanto, a história mudou. Samuel recebeu 66.342 votos pelo União Brasil e conquistou diretamente o mandato federal. Há algo de simbolicamente forte nisso. Vinte anos depois daquela primeira candidatura de 2006, chega a Brasília não por uma vaga temporária, mas pelo próprio resultado eleitoral. Algumas carreiras políticas parecem elevador. A de Samuel foi escada. Degrau, pausa, outro degrau, tropeço, retomada e continuação. Talvez por isso a vitória tenha um sabor particular. Ele está de parabéns pela eleição e pela persistência. A partir de 2027, levará para Brasília uma experiência acumulada na Polícia Militar, na representação das categorias de segurança, na Assembleia Legislativa e numa primeira passagem pelo Congresso. Depois de tanto tempo tentando chegar, começa agora a parte essencial: mostrar ao eleitor por que valeu a pena insistir.
Gustinho Ribeiro: a política como leitura de ambiente, oportunidade e sobrevivência

Luiz Augusto Carvalho Ribeiro Filho, o Gustinho Ribeiro, nasceu em 16 de fevereiro de 1982 e construiu uma carreira política que chama atenção pela continuidade. Antes das urnas, passou pelo Tribunal de Contas. Depois foi vereador de Lagarto, deputado estadual por dois mandatos e deputado federal a partir de 2019. Na Câmara, ocupou funções de articulação, foi vice-líder do Governo, vice-líder da maioria, presidiu comissão especial relacionada às moedas virtuais e comandou a CPI da Americanas. É uma trajetória que não se explica apenas pela capacidade de conquistar votos. Há nela uma característica que merece destaque: Gustinho sabe ler o ambiente político. E política, gostemos ou não, é também a arte de compreender movimentos antes que eles virem manchete.
Em 2026, agora pelo PP, recebeu 58.289 votos e garantiu novo mandato. A votação foi inferior à de 2022, quando obteve 71.831, mas o resultado manteve aquilo que talvez seja sua principal marca: a capacidade de permanecer no jogo. Gustinho demonstra perspicácia política. Entende alianças, percebe deslocamentos, conhece o funcionamento de Brasília e sabe que, naquela cidade, a fotografia mais importante nem sempre é a tirada no plenário. Às vezes, a decisão foi construída muito antes, numa conversa da qual as câmeras nunca participaram. Essa capacidade de articulação merece reconhecimento. Mas perspicácia política só alcança verdadeiro valor público quando usada para transformar influência em benefício coletivo. Gustinho está de parabéns por mais uma vitória. A partir de 2027, terá outra oportunidade de mostrar que saber movimentar as peças é importante, mas o eleitor deseja conhecer também o resultado final da partida.
Oito vencedores, mas nenhuma cadeira vem com cheque em branco
Yandra Moura, Cláudio Mitidieri, João Daniel, Fábio Reis, Delegada Katarina, Ícaro de Valmir, Capitão Samuel e Gustinho Ribeiro podem comemorar. Ganhar uma eleição é difícil. Ganhar uma eleição federal, disputando atenção, votos e espaço num sistema proporcional complexo, é ainda mais. Cada um chegou por uma estrada diferente. Há quem venha da medicina, da polícia, do campo, da advocacia, do empresariado, de uma família política tradicional ou de uma carreira construída pacientemente eleição após eleição. Essa diversidade não é um problema. É justamente a matéria-prima da democracia.
Mas existe um detalhe que a euforia da vitória costuma esconder e que reaparece rapidamente depois da posse: cadeira no Congresso não é troféu, é instrumento de trabalho. Sergipe enviou oito pessoas a Brasília para disputar recursos, defender municípios, produzir leis, fiscalizar o poder público e votar decisões que terminarão, cedo ou tarde, dentro da casa de alguém. Uma votação não transforma ninguém em dono do mandato. Faz exatamente o contrário. Transforma o eleito em devedor de confiança.
Por isso, os parabéns precisam ser sinceros. Yandra merece reconhecimento pela força eleitoral demonstrada novamente. Cláudio estreia com uma votação extraordinária. João Daniel comprova a longevidade de uma identidade política. Fábio Reis reafirma sua capacidade de permanecer relevante. Katarina amplia significativamente sua votação. Ícaro confirma que sua trajetória não terminou na primeira eleição. Samuel finalmente conquista diretamente a cadeira federal pela qual vinha trabalhando. E Gustinho demonstra, outra vez, uma rara capacidade de compreender o tabuleiro e continuar nele.
Que todos tenham uma boa legislatura em 2027. Que disputem quando for necessário, conversem quando for possível e lembrem diariamente de algo elementar, mas facilmente esquecido depois que os carros de som silenciam: Brasília é o endereço do mandato. Sergipe continua sendo o endereço do eleitor.
A festa terminou. As urnas já falaram. Agora começa a parte que realmente ficará para a história.




