Em ano eleitoral, Brasília parece descobrir uma velha paixão: a propaganda. O governo Lula empenhou R$ 520 milhões em comunicação institucional no primeiro semestre de 2026, mais que o dobro do valor empenhado no mesmo período de 2022 pelo governo anterior. Tudo dentro do limite legal, segundo a Secom. Mas a pergunta continua legítima: mesmo sendo legal, essa é a prioridade que o brasileiro esperava?
Enquanto o governo anuncia bloqueios bilionários no Orçamento para cumprir as regras fiscais, a máquina da comunicação trabalha em ritmo acelerado. O cidadão olha para hospitais lotados, filas por atendimento, obras paradas, estradas deterioradas escolas e universidades com dificuldades estruturais e inevitavelmente pergunta: será que a melhor resposta para esses problemas é investir centenas de milhões em campanhas publicitárias?
O curioso é que a publicidade cresce justamente quando a legislação eleitoral impõe restrições à propaganda institucional a partir de julho. Não há ilegalidade, desde que os limites legais sejam respeitados. Mas existe um debate político evidente: até que ponto campanhas institucionais deixam de informar para começar a construir uma narrativa positiva do governo às vésperas da eleição? Essa é uma discussão legítima em qualquer democracia.
A comunicação pública é importante. Campanhas de vacinação, prevenção de doenças, educação no trânsito e defesa civil salvam vidas. O problema surge quando campanhas genéricas de “entregas” e “realizações” passam a consumir cifras milionárias enquanto o contribuinte enfrenta dificuldades muito mais concretas no dia a dia. O governo tem direito de divulgar suas ações. O cidadão tem direito de questionar o tamanho da conta.
Outro ponto que merece atenção é a transparência. Grande parte dos valores globais aparece nos registros orçamentários, mas nem sempre o detalhamento completo das campanhas é facilmente acessível ao cidadão comum. Quanto foi para televisão? Quanto foi para internet? Quanto foi destinado às plataformas digitais? Quanto custou cada campanha? Se o dinheiro é público, a prestação de contas também deve ser pública, simples e compreensível.
No fim, a questão não é apenas quanto o governo gastou. É qual mensagem transmite ao país. Quando a publicidade cresce em ano eleitoral, o brasileiro inevitavelmente desconfia. E essa desconfiança não se combate com mais propaganda. Combate-se com transparência, prioridade nas políticas públicas e resultados que dispensem campanhas milionárias para convencer a população de que estão acontecendo.




