Há frases que terminam quando o microfone é desligado. Outras continuam andando pela rua, entram na feira, atravessam o mercado e chegam à casa de quem acorda antes do sol para trabalhar. Foi o que aconteceu com uma declaração atribuída ao governador Fábio Mitidieri: “Eu vim aqui com uma faca. Eu não precisava de uma faca porque meu governo já é afiado. Meu governo dá prova de trabalho. Vocês não querem um marchante, vocês querem alguém que sabe trabalhar.” A intenção política pode ter sido atingir Valmir de Francisquinho. Mas a palavra escolhida acertou algo muito maior. Porque, em Sergipe, marchante não é personagem de campanha. Marchante é trabalhador. Tem nome, família, boleto, mãos calejadas e dignidade. Quando sua profissão aparece no palanque como contraponto a “alguém que sabe trabalhar”, a brincadeira deixa de ser apenas política. Ela ganha cheiro de preconceito social.
É justamente essa oposição que machuca. “Vocês não querem um marchante, vocês querem alguém que sabe trabalhar.” Leia novamente, devagar. A frase coloca de um lado o marchante e, do outro, quem sabe trabalhar. Como se marchante não trabalhasse. Como se aquele homem que madruga, compra, vende, corta carne, carrega peso, enfrenta feira, calor e contas tivesse passado a vida fazendo exatamente o quê? Talvez esse seja o detalhe que o calor de um discurso político não percebe. Sergipe é feito dessas pessoas. Do marchante, do feirante, do pedreiro, da diarista, do agricultor, do pescador, do motorista, do vendedor ambulante, do advogado e até de quem não veio de família rica e nunca precisou trabalhar. Gente que não possui gabinete climatizado, mas sabe perfeitamente o significado da palavra trabalho.
Valmir de Francisquinho foi marchante. Foi vendedor de picolé. Fez carregos. Trabalhou ainda jovem para ajudar a construir a própria vida. Depois estudou, formou-se em Direito e entrou na política. Nada disso o torna automaticamente um bom ou mau governante. Sua administração deve ser julgada pelos seus atos, pelos seus resultados e pelos seus erros. Mas há uma diferença enorme entre confrontar um adversário político e utilizar aquilo que ele fez para sobreviver como peça de desqualificação. A faca do marchante não deveria cortar sua biografia. Deveria lembrar de onde ele saiu. Há alguma coisa profundamente brasileira, e profundamente incômoda, na facilidade com que celebramos histórias de superação até o momento em que o sujeito que veio de baixo resolve disputar os espaços de cima.
E talvez seja aí que a declaração se torne ainda mais dolorosa. Imagine o jovem sergipano que hoje ajuda o pai numa banca de feira. Imagine a mulher que vende comida para sustentar os filhos. Imagine o homem que descarrega caminhão às cinco da manhã. O que eles devem compreender quando escutam que Sergipe não quer “um marchante”, mas “alguém que sabe trabalhar”? Que determinadas profissões servem para sobreviver, mas não para compor uma biografia respeitável? Que trabalhar com as mãos é bonito nos comerciais de televisão, mas inconveniente no currículo de quem deseja chegar ao poder? A democracia não pode carregar esse cheiro de sala VIP. Palácio de governo não é sobrenome de família nem clube com seleção na porta.
Fábio Mitidieri tem todo o direito de afirmar que seu governo trabalha mais, administra melhor ou entrega resultados superiores. Aliás, esse deveria ser exatamente o debate. Coloque sobre a mesa saúde, educação, segurança, estradas, emprego, abastecimento de água, salário dos servidores, investimentos e contas públicas. Compare números. Mostre resultados. Governo se defende com entrega. Adversário se derrota com argumento. Mas há algo simbolicamente pequeno quando a origem profissional do outro passa a ocupar o lugar dos indicadores. E existe uma ironia quase cruel na frase: para provar que alguém “não sabe trabalhar”, escolheu-se justamente o nome de uma das profissões mais pesadas e antigas do trabalho popular. O marchante talvez tenha sido o único naquela história que não precisava provar que trabalha.
No fundo, esta discussão deixou de ser sobre Fábio ou Valmir no instante em que a palavra saiu do palanque. Tornou-se uma discussão sobre que Sergipe queremos reconhecer no espelho. Um Estado em que o menino que vende picolé pode estudar, crescer e ocupar qualquer cadeira ou um Estado em que sua origem será lembrada quando ele ousar chegar alto demais? O filho do marchante pode ser advogado. A filha da empregada doméstica pode ser juíza. O menino da feira pode ser médico, empresário, prefeito ou governador. Isso se chama mobilidade social. Isso se chama democracia. E talvez exista uma resposta simples para aquela frase: Sergipe pode discutir quem sabe governar. O que não deveria aceitar é a ideia de que alguém sabe menos porque um dia precisou trabalhar como marchante. A faca pode estar afiada. Mas certas palavras, quando usadas sem cuidado, cortam justamente quem passou a vida inteira trabalhando.




