Alessandro Vieira construiu boa parte de sua trajetória política defendendo transparência, fiscalização do dinheiro público e combate à corrupção. A régua é correta. O problema começa quando ela precisa ser aplicada dentro do próprio gabinete. A Co-Criar Consultoria Empresarial Ltda., de João Paulo dos Santos Virissimo, mantém contrato com a Desenvolve-SE para consultoria de gestão e “interlocução com órgãos públicos”. O acordo, iniciado em janeiro de 2024, foi prorrogado e pode alcançar R$ 540 mil, com pagamentos de R$ 15 mil mensais. Transparência não pode funcionar como guarda-chuva: abrir quando chove no adversário e fechar quando a nuvem estaciona sobre o próprio quintal.
É preciso registrar um ponto importante: João Paulo ainda não estava no gabinete de Alessandro quando o contrato foi assinado. Ele entrou no Senado em junho de 2024. A partir daí, porém, os vínculos passaram a coexistir, e o contrato com a estatal foi prorrogado. O assessor ocupa cargo comissionado no Senado, enquanto sua empresa mantém uma consultoria que prevê 120 horas mensais de trabalho. Daí surgem perguntas legítimas: quem executou essas horas? João Paulo participou pessoalmente da interlocução com órgãos públicos? Continuou administrando a empresa depois de assumir o cargo? Quem analisou e aprovou os relatórios mensais? Quando dinheiro público e servidor público aparecem na mesma equação, a conta precisa ser explicada até o último centavo.
A Lei 8.112 proíbe servidor de participar da gerência ou administração de sociedade privada e também estabelece limites para atuação como intermediário perante repartições públicas. Isso não permite afirmar, automaticamente, que houve ilegalidade. É preciso apurar quem praticou os atos de gestão e como os serviços foram executados. Mas o caso ganha ainda mais relevância porque Milton Andrade, presidente da Desenvolve-SE, foi candidato a vice-governador na chapa de Alessandro Vieira em 2022 e mantém conhecida proximidade política com o senador. Nenhum desses fatos, isoladamente, prova favorecimento. Juntos, porém, exigem transparência reforçada. O problema da aparência de conflito de interesses é justamente este: às vezes ela não condena, mas obriga a explicar.
Alessandro sustenta que não há irregularidade e que o assessor foi contratado pelo gabinete por sua experiência profissional. A defesa deve ser respeitada. Mas não encerra o assunto. O governo Fábio Mitidieri já enfrenta questionamentos sobre outros contratos públicos, inclusive negócios milionários e licitações que chamaram atenção pelo valor e pelo objeto. Nenhum contrato é ilegal apenas porque é caro ou politicamente inconveniente. Mas todos merecem fiscalização. E Alessandro, que tantas vezes cobrou explicações dos outros, certamente sabe disso melhor do que ninguém. Integridade não é título honorífico vitalício. É uma obrigação que precisa ser demonstrada justamente quando a lupa muda de direção.




