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Quando a prioridade não é o brasileiro

O Brasil acordou mais uma vez com o seu paradoxo tropical preferido: faltam vagas em hospitais, sobram filas nos pronto-socorros e o governo federal anuncia com serenidade que vai enviar insumos de saúde para a Venezuela. É o tipo de notícia que faz o brasileiro rir por nervosismo. Enquanto isso, dentro do país, o que falta na ponta parece sempre sobrar no discurso. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, exaltou o “preparo” do SUS para enviar medicamentos e insumos de diálise ao país vizinho. Preparado onde, exatamente? Para quem espera meses por uma consulta ou luta por uma vaga de UTI, a ideia de um sistema “plenamente mobilizado” soa como piada involuntária.

Apesar dos números oficiais apontarem aumento no orçamento do SUS nos últimos anos, de cerca de R$ 179 bilhões em 2022 para R$ 233 bilhões em 2025, um crescimento de aproximadamente 30% no papel, boa parte desses recursos se dilui em emendas parlamentares e custeio da máquina, sem se traduzir em atendimento real à população.   Ao mesmo tempo, o governo ampliou cortes e bloqueios no orçamento federal de 2024 e 2025, com áreas como a saúde entre as mais atingidas por contingenciamento de recursos na prática, não anunciados em coletiva.  

Ajuda humanitária é legítima, mas passa a soar como desdém quando a solidariedade externa parece mais organizada que o atendimento interno. Se o SUS estivesse realmente preparado para tudo, não teríamos pacientes renais aguardando dias por sessões essenciais nem mães desesperadas por vaga de internação. A prioridade prática não se vê nos hospitais; vê-se nas fotos e declarações oficiais.

O governo que passa mais tempo politizando a entrega de insumos para o exterior do que explicando a fila dos brasileiros acaba criando uma sensação inevitável de inversão de valores. A obrigação primeira de qualquer governo é com sua própria população. Solidariedade internacional só se sustenta politicamente se a saúde interna não depender de heróis exaustos e de paciência infinita dos usuários.

Enquanto o Planalto se ocupa em anunciar ajuda humanitária para governos amigos, exibindo virtude diplomática em coletiva bem iluminada, o brasileiro segue no cenário oposto, esquecido nos corredores de hospitais superlotados, aguardando atendimento como quem espera um favor e não um direito. A fila do SUS virou o retrato mais honesto da política pública federal: longa, silenciosa e sem previsão de solução. O governo fala em solidariedade internacional, mas pratica a indiferença doméstica. Demonstra agilidade para fora e lentidão crônica para dentro. O discurso é global, mas a dor é local. E, nesse descompasso gritante entre narrativa e realidade, o cidadão aprende, mais uma vez, que para Brasília ele não é prioridade, é estatística. Enquanto aliados recebem atenção, recursos e discurso generoso, ao brasileiro comum resta a paciência forçada, o improviso cotidiano e a amarga certeza de que, no ranking das urgências do governo, sua saúde segue sempre no fim da fila.

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