Há três dias da eleição de 4 de outubro, a política sergipana entrou naquele estágio em que ninguém deve deixar o celular descarregado, porque entre um café e outro pode cair candidato, nascer aliança, acabar amizade e aparecer um novo santo no mesmo santinho. E no centro dessa ventania está Itabaiana, que olha para a disputa de deputado federal e começa a fazer uma conta tão extravagante que parece promoção de atacadista: Ícaro de Valmir, Luizão Dona Trampi e Anderson de Zé das Canas estão todos concorrendo à Câmara Federal. Os três nasceram em Itabaiana. Ícaro busca a reeleição pelo Republicanos, Luizão tenta subir da Assembleia para Brasília pelo PL e Anderson, agricultor e ex-prefeito de Frei Paulo, disputa pelo PSD. Não significa que os três serão eleitos, isso quem decide é a urna, mas a simples possibilidade devolveu ao município uma lembrança deliciosa: Itabaiana já fez coisa parecida antes.
E fez mesmo. Em 1994, não foi conversa de porta de mercado nem história aumentada depois da terceira dose de café: José Teles de Mendonça e José Wilson da Cunha, o popular Gia, foram eleitos deputados federais na mesma eleição. José Teles, filho de Chico de Miguel, recebeu 33.811 votos; Gia conseguiu 27.810. José Teles já vinha de mandato federal iniciado em 1991 e permaneceu na Câmara até 2003; Gia, que havia sido vereador e deputado estadual, conquistou sua cadeira federal naquela eleição e exerceu o mandato na legislatura iniciada em 1995. Portanto, quando alguém em Itabaiana diz que a cidade pode voltar a ter dois representantes em Brasília, não está delirando. Há precedente. O itabaianense pode até aumentar um peixe de vez em quando, mas nesse caso o peixe está registrado no TSE.
Agora a novela ganhou Moana Valadares. A vereadora do PL antecipou para 1º de outubro o retorno às atividades na Câmara de Aracaju, quando inicialmente voltaria no dia 15, e essa movimentação imediatamente alimentou nos blogs a hipótese de retirada de sua candidatura a deputada federal. Uma publicação chegou a registrar a versão de bastidor de que eventual recuo poderia ter como efeito dificultar a eleição de Luizão Dona Trampi, seu correligionário. Mas aqui entra a diferença entre conversa de corredor e ata de cartório: até a carga oficial processada em 1º de outubro, Moana permanece com candidatura deferida e concorrendo. Portanto, por enquanto, a desistência é especulação, não fato consumado. Na política sergipana, principalmente a três dias da urna, até boato põe gravata e pede café na sala da presidência.
Luizão, aliás, está vivendo uma campanha que combina perfeitamente com seu bordão: “pé embaixo”. Só esqueceram de avisar que dentro do PL havia quebra-molas. Ele e Rodrigo Valadares chegaram à reta final trocando versões publicamente. Rodrigo acusou Luizão de participar de uma articulação com André Moura para disputar o comando estadual do partido; Luizão negou e mostrou materiais de campanha para sustentar sua versão. Disse inclusive que perdeu material porque ele trazia Rodrigo: “Perdi praticamente tudo por causa de Rodrigo”, declarou em uma transmissão reproduzida pela imprensa. Dias antes, em Lagarto, Rodrigo havia interrompido Luizão durante um discurso no carro de som, produzindo uma cena eleitoral que dispensava comentarista: o homem do pé embaixo descobrindo ao vivo que o presidente do partido também conhece o pedal do freio. Luizão construiu sua identidade exatamente nessa comunicação sem filtro: “Fala, minha galera pé embaixo” é uma de suas aberturas recorrentes, e numa campanha passada já soltou a máxima “quem não quiser cair que se deite”. Não é exatamente francês diplomático; é dialeto puro de carreata sergipana.
Ícaro e Anderson representam outras duas versões do produto político fabricado na serra. Ícaro, de apenas 25 anos, já é deputado federal e chegou à Câmara em 2022 com 75.912 votos; em 2026 aparece novamente como candidato pelo Republicanos. Na atividade parlamentar registrada pela Câmara neste ano, contabiliza 125 votações nominais e nove discursos em plenário até a atualização consultada. É a ala “nova geração” do grupo de Valmir de Francisquinho: pouca idade, sobrenome eleitoral pesadíssimo e campanha diretamente conectada ao principal projeto político da família. Anderson de Zé das Canas vem por outra estrada. Agricultor, nascido em Itabaiana e duas vezes eleito prefeito de Frei Paulo, tenta a Câmara pelo PSD. Sua campanha enfatiza o homem do campo e ele resume o discurso dizendo que os produtores “não estão aguardando esmola, estão aguardando reconhecimento”. Politicamente está no campo de Fábio Mitidieri e chegou a classificar a oposição em Itabaiana como “muito fraca”. Portanto, mesmo que a cidade consiga dois ou até três federais, isso não produziria automaticamente uma bancada de Valmir: Anderson está no lado oposto da disputa estadual. É aí que a história fica ainda mais itabaianense, todo mundo pode pegar a mesma estrada para Brasília, mas cada carro vai com um adesivo diferente.
E talvez seja justamente esse o retrato mais divertido destes últimos três dias: Itabaiana pode terminar a eleição precisando mandar fazer placa nova na entrada da cidade: “Terra da cebola, do caminhão, da feira e, se deixar, de metade da bancada federal de Sergipe”. De um lado, Ícaro carrega a força política de Valmir e aquele grito que já virou trilha sonora de campanha: “pega o pato, pega o pato, pega o pato”. Do outro, Anderson de Zé das Canas aparece de botina eleitoral, puxando para si a identidade do agricultor, do homem da roça, do sujeito que diz que o campo não quer esmola, quer reconhecimento. E aí chega Luizão Dona Trampi sem cerimônia, sem marcha lenta e sem muita vocação para freio: “pé embaixo!”. É quase possível imaginar os três chegando juntos na BR: Ícaro com o Pato governador do Estado, Anderson conferindo se a plantação recebeu chuva e Luizão buzinando para todo mundo sair da frente.
Se a urna resolver repetir 1994, Itabaiana pode novamente colocar dois filhos da terra em Brasília. Se resolver exagerar na dose e entregar três, aí não será bancada, será excursão. Vai ter deputado para cuidar da cidade, deputado para cuidar do campo e deputado para manter o acelerador no assoalho. Brasília que se organize: quando a turma de Itabaiana desembarca, não chega perguntando onde é a recepção. Chega no estilo da terra: um grita “pega o pato!”, o outro responde “o homem do campo quer reconhecimento!”, Luizão fecha a conversa no “pé embaixo!”, e algum itabaianense lá do fundo ainda completa: “Ave Maria, homem, desse jeito vão acabar elegendo até o motorista da van!”.




