Há cenas que diminuem a política. E há outras que diminuem quem as pratica. O episódio envolvendo Hilda Ribeiro, ex-prefeita de Lagarto e candidata a deputada estadual, pertence à segunda categoria. Durante uma atividade política, uma mulher teria arremessado um ovo e outros objetos em sua direção. Não importa se o alvo é Hilda, Sérgio Reis, Fábio Reis, Gustinho Ribeiro ou qualquer adversário que esteja do outro lado da calçada. Quando alguém substitui argumento por objeto lançado, a democracia perde a palavra e ganha a selvageria. E convém imaginar a cena por alguns segundos sem o filtro da paixão partidária. Uma mulher caminhando, fazendo campanha, cercada por pessoas, e de repente tendo de se proteger de algo arremessado contra seu corpo. Quem achar normal porque não gosta da candidata talvez precise rever não o voto, mas o conceito de civilidade.
Há ainda um componente que exige muita responsabilidade. Circula nas redes sociais a informação de que a mulher envolvida seria funcionária pública municipal. Mas, se for confirmada, a situação ganha uma dimensão administrativa que não pode ser ignorada. Servidor público não perde seus direitos políticos quando entra no serviço público, evidentemente. Pode ter opinião, preferência, candidato, crítica e voto. O que não recebe junto com o crachá é uma licença para agressão. Se houver vínculo funcional e se os fatos forem comprovados, caberá à Prefeitura de Lagarto apurar a conduta dentro das regras legais, com contraditório, defesa e responsabilidade. Nem perseguição política, nem vista grossa. É exatamente para isso que existe procedimento administrativo.
Sérgio Reis e Hilda Ribeiro são adversários políticos. Isso é público e faz parte da democracia. O próprio ambiente eleitoral de Lagarto registra embates duros entre o prefeito e o grupo de Gustinho Ribeiro. Mas existe um instante em que a política precisa parar de olhar a camisa e enxergar a pessoa. Esse é um deles. Uma eventual manifestação do prefeito condenando a violência não seria favor a Hilda, gesto de aproximação política nem rendição ao adversário. Seria a defesa de uma regra que amanhã poderá proteger o próprio Sérgio, um aliado seu ou qualquer cidadão. Aliás, quem já sofreu hostilidade política deveria compreender ainda melhor como é perigoso naturalizar esse tipo de comportamento. O ovo de hoje, tratado como folclore eleitoral, pode ser o objeto mais perigoso de amanhã. A escalada da intolerância normalmente começa pequena e sempre encontra alguém disposto a dizer que “não foi nada demais”.
Também é preciso retirar desse episódio uma velha desculpa brasileira: a de que agressão em campanha é apenas excesso de entusiasmo. Não é. Democracia permite vaia, protesto, faixa, crítica, cobrança, denúncia, oposição e até antipatia em níveis industriais. Tudo isso cabe dentro da urna e da rua. O que não cabe é a transformação do adversário em alvo físico. Gustinho Ribeiro repudiou publicamente o ocorrido e pediu apuração, conforme reportagem publicada sobre o caso. A resposta institucional adequada agora não é promover espetáculo, escolher culpado antecipadamente ou transformar o episódio em combustível eleitoral. É identificar quem praticou o ato, esclarecer exatamente o que aconteceu, verificar eventual vínculo funcional alegado nas redes e aplicar a lei se houver responsabilidade comprovada. Democracia não precisa de vingança. Precisa de consequência.
E talvez essa seja a imagem que Lagarto precise guardar desta campanha. Coloque-se, por um minuto, no lugar de Hilda. Esqueça o sobrenome Ribeiro, esqueça Gustinho, esqueça partido, palanque, pesquisa e rivalidade. Imagine caminhar por sua própria cidade e perceber que alguém acredita ter adquirido o direito de lhe atingir fisicamente porque discorda de você. Depois faça o exercício inverso e coloque Sérgio ou Fábio Reis naquele mesmo lugar. A conclusão deveria ser exatamente a mesma. Política não pode virar autorização para humilhar, intimidar ou agredir. Se for comprovado que uma servidora municipal participou do episódio, espera se da administração uma apuração séria e transparente, não porque Hilda pertença a este ou àquele grupo, mas porque o poder público não pode parecer indiferente quando a violência invade o processo eleitoral. O voto escolhe vencedores e derrotados. Ovo, lata, pedra ou qualquer objeto lançado contra alguém só escolhe uma coisa: empobrecer a democracia.




