O velho Socorro conhece o som dos próprios passos. Eles passam pela Igreja Matriz, atravessam as ruas onde o município começou e chegam ao centro que, durante gerações, foi seu coração político. É ali que muita gente aprendeu a procurar a Prefeitura, cobrar uma resposta e acompanhar o destino da cidade. Por isso, quando a gestão de Samuel Carvalho instala secretarias longe da sede histórica, não troca apenas placas de endereço. Retira pessoas, movimento e vida cotidiana de um lugar que ajudou a construir a identidade de Nossa Senhora do Socorro. A sede continua de pé, mas seu povo tem o direito de perguntar por que seu coração administrativo parece bater cada vez mais longe dali.
E há uma conta acompanhando essa mudança. Os registros públicos mostram imóveis alugados para o funcionamento da Secretaria de Infraestrutura no Marcos Freire II, com contrato de R$ 228.054,00, e da Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Direitos dos Animais no João Alves, com valor de R$ 167.923,56. Também consta uma locação de R$ 133.351,92 no Marcos Freire III para apoiar atividades de escolas municipais. Esses exemplos mostram que espalhar estruturas públicas envolve compromissos financeiros concretos. Também exigem cuidado na leitura: o imóvel de apoio às escolas não representa, por si só, a transferência da sede da Educação.
O levantamento apresentado anteriormente reúne 26 registros de locação em 2026, cuja soma literal alcança R$ 2.358.227,14 em valores globais contratados. É uma cifra que merece resposta pública, mas não pode ser chamada de “quase dois milhões a mais por ano” sem comparar contratos equivalentes de anos anteriores, conferir seus prazos e eliminar eventuais lançamentos repetidos. Também não equivale ao que já saiu dos cofres municipais: no mesmo levantamento, o valor informado como efetivamente pago até 22 de setembro era de R$ 605.059,28. A cobrança a Samuel fica mais forte quando cada número recebe o nome certo: quanto foi contratado, quanto será devido em cada ano e quanto já foi pago.
O prefeito Zé Franco deixou na sede o Centro Administrativo José do Prado Franco Sobrinho, um patrimônio público que representa mais do que paredes e salas. Representa a decisão de manter a administração próxima do lugar onde Socorro nasceu. Os gestores que vieram antes também governaram uma cidade em expansão, com necessidades no Marcos Freire, no João Alves, no Fernando Collor e em toda a Taiçoca. Samuel precisa explicar por que sua solução passa por tantos imóveis alugados e qual é o plano para aproveitar, recuperar ou ampliar a estrutura pública existente. O morador da sede merece saber se aquele centro continuará sendo uma referência viva ou se acabará tratado como endereço de papel timbrado.
Cada repartição instalada em outro lugar pode levar consigo parte do movimento de servidores, fornecedores e cidadãos. Para o pequeno comércio do Centro Histórico, essa possibilidade tem peso: são menos pessoas passando à porta, almoçando, comprando e resolvendo a vida nas ruas da sede. É o tipo de perda que não aparece inteira numa planilha de aluguel. Levar serviços aos conjuntos é necessário; deixar a sede perder sua força política e econômica é uma escolha que precisa ser debatida com quem vive nela. Socorro cresceu porque seus bairros ganharam vida. Não há razão para que seu centro fundador pague a conta desse crescimento.
Samuel Carvalho deve ao povo uma explicação completa: quais órgãos mudaram de endereço, quanto custa cada locação, por quanto tempo os contratos valerão e o que será feito pelo Centro Administrativo e pelo comércio da sede. Enquanto essas respostas não chegam, cresce uma sensação amarga no velho Socorro: a de ver sua história permanecer nas fachadas enquanto a administração segue para outros endereços. A Igreja Matriz continuará contando onde tudo começou. Cabe ao prefeito mostrar, com decisões e números claros, que o coração político do município ainda tem lugar no futuro da cidade.




